repensar

Para que o óbvio não seja esquecido

William Felipe Zacarias

A Teologia é o meu pressuposto. A Filosofia é meu esporte. A Arte é a minha essência.

Arte é coisa a ser repensada

Arte é linguagem que comunica e que representa uma ou várias realidades. Arte é o parto de novas ideias, a configuração da verdade ou sua busca. Arte é aquilo de mais próprio no ser humano, a composição de si mesmo e do seu contexto. Arte é a revelação do que está escondido, é “verbo que se torna carne”. Seja na música, no cinema, em esculturas, quadros, livros... Arte sempre é um fenômeno que revela a interioridade de seu autor e comunica à interioridade do leitor.


Dionysos2.jpg Reclining Dionysos, 447-433 aC. (Museu Britânico).

Para a antiguidade grega, arte era expressão do belo. Belo era tudo aquilo que expressava um sentido, uma verdade, uma harmonia. O sentido estava nas esculturas, a verdade na filosofia, a harmonia na música. Pitágoras fazia arte com matemática e, concomitantemente, com a música. Desarmonia significava o mesmo que “mentira, falsidade.” Arte, porém, expressava a verdade, fazia conexão entre o objeto retratado e o tempo presente de quem o vê. Arte era um meio de fazer história, de contar o passado para o homem do tempo presente. Arte era registro, era memória.

A arte grega tinha como base o Logos. Para o grego Heráclito, Logos era o sentido e o equilíbrio de todas as coisas. O Logos mantinha o universo. Sem o Logos, tudo se tornaria em nada, a ordem se tornaria em caos. O Logos mantinha antônimos em harmonia: a unidade entre doce e salgado, frio e quente, força e fraqueza, vida e morte! Para Heráclito, a união de opostos mantinha a unidade do cosmos. É por causa das tensões dialéticas e paradoxais que a terra, por exemplo, não cai no sol ou o sol na terra. O Logos mantem tudo no devido lugar em harmonia. Logos é significado, palavra, estudo, conhecimento, sentido... A arte grega que não tivesse Logos não era arte, pois lhe faltaria o significado, o sentido metafísico da obra artística.

No cristianismo, praticamente toda a arte ocidental ganha novo significado: o Logos que morreu na cruz! As Obras de arte passam a retratar tamanha bestialidade e loucura. Este é o significado da arte cristã: a morte do Logos. O Apóstolo João vai dizer que “o Logos se fez carne”, o que aos gregos era inconcebível visto que a carne não possui beleza alguma. Para Platão, a carne é o “sepulcro da alma”, a pior coisa que existe, aquela que retira da alma sua liberdade aprisionando-a a um corpo. A carne é, por isso, má, ruim, péssima, coisa horrorosa... e João é corajoso quando afirma: o Logos, aquele que é e mantém tudo, se tornou carne! Para os gregos, o maior paradoxo e loucura com o qual se depararam. E este Logos de João não só se tornou em horrenda carne, mas também morreu na cruz! Para os gregos, isso era inconcebível, “escândalo”, como diz Paulo em 1 Co 1.23. É este Logos encarnado e morto na cruz que passa a ser retratado na arte cristã. O Logos da cruz é o sentido último da arte cristã. Esta arte era a maneira de imaginar e contar como aconteceu algo no passado, como Deus morreu na cruz. Esta arte vigorou até o século XIX e parte do século XX.

A arte pós-moderna rompeu tanto com a arte grega quanto com a arte cristã. Na arte pós-moderna, já do século XX, a beleza está desprovida de razão, sentido, palavra, significado e, principalmente, de memória. Arte se tornou tão somente expressão de um vazio, de um niilismo. Toda metafísica, seja cristã ou não, foi deixada de lado. Na pós-modernidade, até mesmo um mictório com uma simples assinatura é tornado arte. Ao olhar para a obra, pensa-se: qual seu significado? O que quer demonstrar? A resposta é: nada! Não significa nada! Não demonstra nada! Não lembra nada! É só um mictório assinado. O mesmo ocorre com diversas pinturas abstratas ou músicas dissonantes: em ambos a harmonia foi deixada de lado. No lugar foi posto o caótico, o falso foi tornado em verdade. Na pós-modernidade, o caos se tornou dogma à arte. Como expressão, tal arte demonstra a interioridade do ser humano vazio, i. é, niilista e sem metafísica. Todos são interiormente um universo caótico desprovido de qualquer ordem. A arte pós-moderna procura revelar esta interioridade escondida.

Michtório_Duchamp.jpg A Fonte, de Marcel Duchamp, 1917.

Quanto tempo se pode sobreviver sem um significado para a vida e para a existência humana? Como definir o que é arte quando não há o mínimo de referências? Como interpretar o mundo através da arte sem uma chave que a possibilite? Estas e outras perguntas precisam ser feitas. Sem sentido, a arte não existe. Existem representações que são consideradas arte, porém, intimamente não são nada, não significam nada e não contribuem em nada para a humanidade. Sem metafísica, sem sentido, sem significado não há arte! Sem a memória, objetos considerados como arte possuem fim em si mesmos e não remetem a lugar algum. Sem Logos, a arte está morta! No século XXI, arte é coisa a ser repensada.


William Felipe Zacarias

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