repensar

Para que o óbvio não seja esquecido

William Felipe Zacarias

A Teologia é o meu pressuposto. A Filosofia é meu esporte. A Arte é a minha essência.

As relações entre interpretador (A) e interpretado (B)

Uma breve aproximação da Hermenêutica em Schleiermacher, Dilthey, Troeltsch, Gadamer e Levinas.


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Uma pergunta perpassa todos os estudiosos da hermenêutica moderna: qual a relação entre interpretador e interpretado? Dito de outra maneira, como se dá (caso seja possível) a relação entre sujeito interpretador e sujeito/objeto interpretado? Qual a similitude entre sujeito e predicado? Ademais, todos os referidos hermeneutas parecem possuir dois “inimigos” em comum, inimigos no que se refere à compreensão do uso da razão para interpretar o todo. Efetiva-se disso a necessidade de olhar qual a compreensão de cada hermeneuta a respeito das perguntas e do “inimigo comum”.

Grondin afirma que Lutero (1483-1546) semeou “sem querer” as premissas de uma revolução hermenêutica (GRONDIN, 1999, p. 81). Lutero parte para um método exegético de interpretação das Escrituras; todas as passagens obscuras devem ser esclarecidas com passagens paralelas. Logo, a Escritura interpreta a própria Escritura. Lutero prezou por olhar à Escritura a partir dela mesma e não com o óculos da filosofia como faziam os escolásticos. Ela mesma se interpreta. O que acontece com o intérprete? Está submisso a ela. A consciência de Lutero está sob às Sagradas Escrituras. No culto, a Bíblia foi colocada no centro: a pregação da Palavra na distinção entre Lei e Evangelho. O culto luterano não funciona no meio de analfabetos. Quem queria ser luterano precisava ser alfabetizado. Esta é a origem das escolas de alfabetização das massas. Até o século XVI, apenas a elite e o clero sabia ler e escrever. Contudo, Lutero abriu portas ao que a ele mesmo era inesperado: a interpretação científica das Escrituras, culminando no início da Hermenêutica Moderna.

Immanuel Kant (1724-1804) estava imerso no contexto iluminista. Tanto a filosofia cartesiana de Descartes (1596-1650) (que determinou o pensamento científico) quanto a física de Isaac Newton (1643-1727) já estavam bem consolidadas. O criticismo pela razão se tornou o mestre para erigir o que existe e o que não existe: a decisão entre o verdadeiro e o falso era determinada pelo jugo da razão. Esta foi a ciência objetiva. O intérprete é onipotente sobre o que é interpretado. Eis o método para julgar e distinguir o verdadeiro do falso: a matemática, a razão, o palpável, a repetição. Real é tudo aquilo que se pode matematicamente formular, racionalizar, tocar e repetir. O que foge desta regra é falso. A ciência objetiva torna o interpretado como réu do seu júri. A razão objetiva é juiz sobre todas as coisas. Eis a máxima da ciência objetiva: cogito, ergo, sum (penso, logo, existo). O pensamento é, no Iluminismo, o intérprete por excelência. Tudo passa pelo jugo da razão humana. Quando Empirismo e Racionalismo se unem, o ser humano pensou ter se tornado “Deus.” Para o Iluminismo, tudo passava pelo MRU – Movimento Retilíneo Uniforme – ou seja, toda vez que durante um movimento, o valor da velocidade permanece invariável e sua trajetória for uma reta, o movimento será nominado de MRU. A lógica cartesiana de A -> B determinava a compreensão de tudo. A é mente e B é objeto. Mente julga o objeto = A julga B. Tudo o que não podia ser medido por A e B era falso.

Este é o contexto onde Kant está inserido e onde ele escreve “Crítica à Razão Pura”, um esquema objetivo onde o sujeito se torna progressivamente destituído do mundo. “Era pressuposição básica do racionalismo, que o espírito humano, embora mortal, tinha, não obstante, condições de reconhecer, com ajuda do seu pensamento, a construção lógica coerente do mundo.” (GRONDIN, 1999, p. 118). Por isso, “Kant, a princípio, parte do racionalismo cartesiano.” (ZILSE, 2013, p. 137). Toda a realidade é reduzida à mente, Iluminismo puro.

Em contraposição a Kant e à ciência objetiva surgem os hermeneutas modernos.

Schleiermacher (1768-1834) é conhecido por defender que a ciência objetiva não invalida a existência de Deus. A hermenêutica foi uma questão fundamental na sua vida. Para ele a compreensão não possui outro objeto senão a linguagem. A linguagem interpretada é apenas um recorte do todo linguístico. Esta é a interpretação gramática. Além disso, há a interpretação psicológica onde o interprete procura entender a mente do próprio autor do texto. Logo, interpreta-se as experiências do autor a partir da linguagem pressuposta pelo sujeito. Descontrói-se, portanto, a experiência mental do autor do texto. A hermenêutica schleirmachiana tem como objetivo máximo chegar à intuição psicológica originária do autor (Cf. ZILSE, 2013, p. 159-161). Para ele, o autor do texto é importante e não somente o texto que ele produziu. Enquanto Kant e o racionalismo tornam tudo mecânico, Schleiermacher descobre a pessoa por trás do texto. Logo, na hermenêutica de Schleiermacher o sujeito não é juiz sobre o objeto, mas ele faz parte da interpretação através do círculo hermenêutico, ou seja, das inter-relações entre o leitor e o texto. São as palavras que dão acesso à interpretação, tanto as minhas como as do autor. Para Schleiermacher, a relação entre interpretador e interpretado se dá no círculo hermenêutico, onde A não exerce onipotência sobre B, mas A e B se inter-interpretam mutuamente por meio da linguagem.

Dilthey (1833-1911) vai discutir a história e o historicismo. No Iluminismo, histórico era tudo que podia ser repetido. História era aquilo que se podia materializar. Porém, para Dilthey, qualquer manifestação da vida deve ser vista a partir da sua própria época. O interpretador está inserido em um determinado contexto histórico enquanto o interpretado possivelmente em outro. Por conseguinte, antes de entender o interpretado o próprio intérprete precisa se entender. Dilthey foi influenciado por Schleiermacher, mas avança no passo. O intérprete está localizado em um determinado contexto histórico-cultural. Para entender o objeto a ser interpretado, o intérprete precisa mergulhar no contexto histórico-cultural do interpretado. Portanto, em Dilthey, a relação entre interpretador e interpretado se dá no fato de A mergulhar na história de B. Quanto mais A compreender o contexto histórico-cultural de B, tanto mais A vai compreender o B como B e não como A.

Troeltsch (1865-1923) procurou identificar o que é a modernidade. Para ele, a modernidade é a transposição de todos os pensamentos, interesses e expectativas humanas para o imanente. O resultado disso foi uma autoconfiança exacerbada no racionalismo culminando na idolatria de si mesmo. Para ele a ciência e o historicismo se tornaram o “manual de instruções” de toda vida humana na modernidade. O texto interpretado por Troeltsch não é o escrito, mas o texto “cultura e sociedade.” Nele, a razão é juiz e o objeto interpretado é réu. Troeltsch parte da crítica, correlação e analogia. Olha-se para o objeto a ser interpretado com demasiada desconfiança (crítica), procuram-se as interpelações que o objeto possui no conjunto da mesma ideia (correlação) e buscam-se recorrências históricas de um mesmo fato (analogia). Isto significa: real e histórico é tudo aquilo que é possível repetir. Um exemplo clássico dessa hermenêutica é a morte e ressurreição de Jesus Cristo. As Escrituras afirmam que Jesus Cristo ressuscitou. É possível repetir este fato hoje? Não, logo não é histórico e não existe. Contudo, as Escrituras dizem também que Jesus Cristo morreu. Pessoas ainda morrem hoje em dia? Sim, então a morte de Jesus é um fato histórico. Portanto, em Troeltsch, as relações entre interpretador e interpretado se dá na desconfiança crítica que A exerce sobre B.

Hans-Georg-Gadamer-hermeneuta-preconceito.jpg Hermeneuta Filosófico Alemão Hans-Georg Gadamer. Foto: The Christian Humanist.

Para Gadamer (1900-2002) a história não nos pertence; nós pertencemos à história. O sujeito como interprete não pode ficar do lado de fora da história e da cultura. Por isso nunca é possível alcançar uma perspectiva hermenêutica inteiramente objetiva. Nisto reside sua crítica à Kant e ao Iluminismo. Todos temos preconceitos. Mas atenção: aqui os preconceitos não devem ser vistos como um malefício, pois são o ponto de partida. Logo, o interpretador conversa com o interpretado. Ao ler algo, na verdade leio muito mais a mim mesmo do que o algo propriamente dito. Ao ler a coisa eu descubro a mim mesmo. Eu leio eu mesmo no outro. Mas o que é preconceito para Gadamer? O ser humano ontológico, i. é, a essência do que é mais humano, o ser enquanto ser. Portanto, quando A vai interpretar B, primeiramente o A precisa assumir o seu preconceito, ou seja, revelar onde está, de que ponto de vista está vendo, em síntese, quem é A! Preconceito é o que A possui como condicionamento histórico-antropológico. O preconceito é o veredito anterior. Gadamer leva em conta a tradição do leitor. O interpretador (A) não julga o interpretado (B). Pelo contrário, primeiro o interpretador (A) faz uma análise de si mesmo, de seus preconceitos e condicionamentos para então interpretar seu objeto (B). Primeiro A precisa interpretar a si mesmo (ontologia), afirmar qual é seu ponto de vista, para então interpretar B. B não precisa ter os mesmos preconceitos que A, mas A precisa clarear seus preconceitos para interpretar B. Esta é a relação entre A e B em Gadamer.

Levinas (1906-1995) dá um grande passo na relação entre interpretador e interpretado. Para ele o texto não é uma coisa, não é objeto, mas sujeito. Logo, sujeito interpreta sujeito. O interpretador constrói alteridade com o objeto pesquisado e o objeto pesquisado se torna uma pessoa. O outro é aquele que questiona os poderes do eu e permite quebrar a neutralidade do ser. Levinas foi influenciado pela fenomenologia de Edmund Husserl e Martin Heidegger. Logo, o texto (seja ele literal, verbal ou enquanto história e cultura) é sujeito que dialoga (do gr. δια λόγος = por meio da palavra) com o sujeito que interpreta. Aqui a relação entre A e B se dá no fato de que B não está abaixo ou depois de A, pelo contrário: B dialoga com A como uma pessoa. A e B constroem alteridade, uma amizade, um é o outro do outro.

Portanto, há dois inimigos comuns a todos os autores citados: o iluminismo e o racionalismo. Dando “nome aos bois”: Descartes e Kant. Todos procuraram, a sua própria maneira, considerar tanto a pessoa do interprete como o sujeito interpretado não apenas em um sistema subjugador e dominador, mas de relação mútua e auto reconhecimento. De todos se aprende uma única lição: a razão humana é falha por si própria. Como já dizia o antigo filósofo Sócrates: “A presunção do saber é o maior obstáculo ao conhecimento de coisas novas”. O reconhecimento dos próprios preconceitos e da própria ignorância é o justo caminho para a compreensão do todo que nos cerca. A verdadeira hermenêutica se faz com conjunção coordenativa e não com conjunção subordinativa como apregoou o Iluminismo. Hermenêutica é a arte da interpretação. Que o interpretado se torne nosso melhor amigo. Hermenêutica e ciência objetiva são coisas a serem repensadas.

LITERATURA UTILIZADA E RECOMENDADA:

GRONDIN, Jean. Introdução à Hermenêutica Filosófica. São Leopoldo: Unisinos, 1999.

ZILSE, Raphaelson S. Base Filosófica para uma Estrutura Dogmática?. in: SCHWAMBACH, Claus (Coord.). Vox Scripturae. Vol. XXI, nº II. São Bento do Sul: FLT/União Cristã, 2013.


William Felipe Zacarias

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