repensar

Para que o óbvio não seja esquecido

William Felipe Zacarias

A Teologia é o meu pressuposto. A Filosofia é meu esporte. A Arte é a minha essência.

Dicas filosóficas para uma leitura bem-disposta

No meu último artigo na Obvious destaquei como Schleiermacher, Dilthey, Troeltsch, Gadamer e Levinas se relacionam com seus objetos de interpretação. Neste artigo, propõe-se um passo a mais: que dicas podemos tirar destes autores para uma leitura satisfatória? Vamos lá, temos muito a aprender.


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SCHLEIERMACHER, Friedrich Daniel Ernst (1768-1834)

DICA 01: Predisposição: Eu desejo mesmo ler este livro? Isso significa ter uma atitude favorável a ele. Uma leitura indisposta se torna maçante e prejudica todo o processo cognitivo. Leia o que deseja ler, a não ser que seus professores ou o seu trabalho lhe obriguem a ler coisas indesejáveis. Se este for o seu caso, procure encontrar algo de agradável na leitura obrigatória para que a predisposição seja criada.

DICA 02: Psicologia: No que o autor está pensando? Tente descobrir o que está por detrás do pensamento do autor, seu fundamento e quem o autor realmente é. Nenhuma obra é totalmente objetiva: em algum momento a mente do autor vai aparecer. Um livro não é outra coisa senão uma extensão mental do seu escritor. A mente do autor pode ser mais importante do que o texto que ele produziu. Em muitos casos, essa é a chave para a compreensão de uma leitura difícil.

DICA 03: Vocabulário: Que palavras o autor usou para escrever sua obra? Dê atenção à maneira cujo autor escreveu o texto. Que palavras ele usou, por que ele as usou e quais palavras foram deixadas de lado? Qual a voz verbal do texto? Em que pessoa está escrito? Ao ler um livro estrangeiro traduzido para o português, caso possível, procure as palavras-chave da tradução e confira que palavras o autor usou na língua original. Muitas vezes uma tradução não chega nem perto do significado original de uma palavra estrangeira, pois toda tradução é uma interpretação.

DILTHEY, Wilhelm (1833-1911)

DICA 04: Contexto: Qual o contexto histórico do autor? É muito importante que o leitor saiba quando o escritor redigiu a obra. Em seguida, descubra o lugar geográfico do autor. Não se pode interpretar um autor da Idade Média como se ele tivesse vivido nos tempos modernos. Que traços o autor mostra da cultura da sua época? O conhecimento da história geral contribui muito para esta dica.

TROELTSCH, Ernst (1865-1923)

DICA 05: Desconfiança: Isso é realmente verdade? Procure identificar possíveis falhas no autor, pois, enfim, ninguém é perfeito. Saber que o autor também é um ser humano e não um deus ou um extraterrestre perfeito nos torna mais próximos dele. Busque confiar e desconfiar na medida certa. Essa dica não se aplica tanto a literaturas como romances e contos, mas a livros filosóficos e polêmicos ligados à realidade.

DICA 06: Conjunto: Mais alguém pensa assim? Identifique livros e pensadores que parecem ter a mesma ideia do autor que você está lendo. A concordância de uma mesma opinião de pensadores diferentes abre o leque para a discussão de uma só ideia. A concordância de ideias é uma grande evidência da verdade. Mas atenção! Nem sempre é assim. Quanto mais você ler, mais fácil será a percepção do conjunto das ideias.

DICA 07: Analogia: Há recorrências dos fatos citados? Perceba se os fatos descritos no livro (enquanto realmente históricos) são também descritos por outros autores de um mesmo período. Se o autor citar um fato do seu tempo sem nenhum outro relato que o corrobore, desconfie. Mas atenção! Uma única referência de um fato não significa exatamente que ele não aconteceu. Pense nos fatos e tome posição.

GADAMER, Hans-Georg (1900-2002)

DICA 08: Pré-conceito: Quem está lendo o livro? Para ler um livro, antes é preciso conhecer a si mesmo, ou seja, definir o ponto de partida do leitor. O cuidado está em não colocar para o livro perguntas que ele não fez. Devemos definir quem somos, onde estamos e de onde estamos partindo ao ler o livro. Em última análise: quem sou eu? O pré-conceito outra coisa não é senão a verdade, a tradição e a própria pessoa do leitor.

LEVINAS, Immanuel (1906-1995)

DICA 09: Alteridade: O que o outro está comunicando? O livro não é somente um objeto de leitura individual, mas é outro sujeito que conversa diretamente com o sujeito leitor. Já ouvi relatos de pessoas que relutam em terminar um livro: quanto mais se chega ao final, mais lenta a leitura se torna. Há também quem sinta saudade de um livro ao terminar sua leitura. Estes casos são exemplos de livros que se tornaram sujeitos. Portanto, uma dica é não tratar o livro apenas como um livro, mas como o outro, uma pessoa viva que se comunica com seu leitor.

Ler é lazer. Interpretar o que está escrito é arte. Estas dicas auxiliam para uma leitura prazerosa e proveitosa. Com elas, o leitor descobre o livro, o autor e a si mesmo. Obviamente a aplicação de todas as dicas pode ser difícil, até por umas contradizerem outras. Troeltsch, por exemplo, não concorda com Levinas. Enquanto Troeltsch julga a veracidade do livro, Levinas o trata como outra pessoa. Mas isso não nega o fato de que cada tipo de livro pode indicar uma dica específica. Deseja-se ao leitor uma boa leitura e que ele possa ir além do óbvio, adentrando nos mistérios da literatura. Leitura é coisa a ser repensada.


William Felipe Zacarias

A Teologia é o meu pressuposto. A Filosofia é meu esporte. A Arte é a minha essência..
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