repensar

Para que o óbvio não seja esquecido

William Felipe Zacarias

A Teologia é o meu pressuposto. A Filosofia é meu esporte. A Arte é a minha essência.

Nietzsche: uma Odisseia no Espaço

“O homem é uma corda estendida entre o animal e o Super-homem: uma corda sobre um abismo; perigosa travessia, perigoso caminhar, perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar.” (NIETZSCHE, 1999. p. 27).


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A zombaria do macaco como um animal superado pelo homem. A zombaria do homem como um ser superado pelo Übermensch. A eterna evolução do ser a superar a si mesmo. O conhecimento como libertação. A morte de Deus como dogma.

São óbvias as relações entre a mais conhecida obra do alemão Friedrich W. NIETZSCHE, Also Sprach Zarathustra, e a obra do inglês Arthur C. CLARKE, 2001: A Space Odyssey. Uma relação filosófico-científica perfeita.

Nietzsche anuncia o “além-do-homem.” Após a morte de Deus o homem é convocado a assumir a metafísica. É óbvio que a evolução darwinista é usada e aplicada por Nietzsche com um significado filosófico: “O homem é algo que deve ser superado”, tal como o macaco foi superado pelo homem.

Este novo sistema filosófico não permite a compaixão. Esta é a raiva do filósofo alemão quanto ao cristianismo: a religião da compaixão por excelência. Enquanto o ser humano estiver preocupado com o seu próximo ele nunca evoluirá. A evolução filosófica pressupõe a morte dos fracos e indignos. O Übermensch não aceita fracos, mas elimina-os. Enquanto o cristianismo dá dignidade aos fracos por causa do Deus que se faz fraco e morre (cf. Fp 2.5-11), o Übermensch transcende toda a humanidade: humanismo é coisa do passado. A eliminação de Deus culmina na eliminação do humano. Deus é coisa dos homens. Por isso, para o Übermensch, Deus é coisa do passado e que foi superado na evolução da espécie para o “além-do-homem.”

Zarathustra revela o anseio pelo “além-do-homem”. Após seu discurso, as pessoas pedem: “Dá-nos esse último homem, Zaratustra (...), torna-nos semelhantes a esses últimos homens!” (NIETZSCHE, 1999. p. 30). Zarathustra conclui que desceu de sua montanha cedo demais. O ser humano não está preparado para ascender sua espécie.

O escritor inglês usa da filosofia nietzschiana em seu mais famoso livro. Em uma noite primitiva os macacos estavam à beira da extinção. Restava apenas um riacho em meio ao deserto. Duas espécies disputavam a mesma água. Quando a tribo “d’Aquele-que-Vigia-a-Lua” chegou ao lago perceberam que a outra espécie se saciava da água restante. Por isso “começaram a dançar, balançar os braços e gritar do seu lado do riacho, e seu próprio povo retribuiu da mesma forma.” (CLARKE, 2013. p. 34).

Stanley Kubrick representou muito bem a cena na direção do filme “2001: Uma Odisseia no Espaço.” (1968). Damos risadas ao ver o escândalo. Na verdade, rimos de nós mesmos, porquanto debochamos de um passado superado. Nietzsche perguntaria: “Que é o macaco para o homem? Uma zombaria ou uma dolorosa vergonha.” (NIETZSCHE, 1999. p. 25). Tal como o homem zomba do seu antepassado macaco, o Übermensch zombará do homem.

Certo dia, uma intervenção externa e desconhecida oferece a esta espécie tão ínfima uma oportunidade de ascender. A estranha aparição do monólito negro revela o quanto a espécie é primitiva e animalesca. Os animais nunca tinham visto um objeto com tamanha perfeição: ângulos retos em meio à natureza ondulada. “Era uma pedra retangular (...) e era feita de um material completamente transparente.” (CLARKE, 2013. p. 38). O resultado da experiência mística com a rocha foi a inteligência capaz de vencer os males causados por outras espécies. “Uma centena de fracassos não teria importância, uma vez que um único sucesso poderia mudar o destino do mundo.” (CLARKE, 2013. p. 45). Surge então aquela cena magistral onde um simples osso se torna na grande virada da evolução humana. Aquele-que-Vigia-a-Lua toma o osso e ao “girar sua mão, intrigado pelo seu súbito aumento de peso, sentiu uma agradável sensação de poder e autoridade. Começou a se mover na direção do porco mais próximo.” (CLARKE, 2013. p. 47). A extinção estava extinta, porquanto o macaco não dependia mais das plantas do deserto, mas podia se alimentar da carne de outros animais. O macaco tornara-se em homem. A trilha sonora da cena não poderia ser outra senão a música “Also Sprach Zarathustra” composta por Richard Strauss, uma clara referência a Nietzsche.

Do macaco ao homem, a relação com o robô psicopata HAL 9000 revela que “hoje o homem é ainda mais macaco do que todos os macacos.” (NIETZSCHE, 1999. p. 25). A ingenuidade diante da máquina mostra que o avanço sempre retoma algum aspecto do retrocesso. HAL 9000 é o componente mais humano da nave espacial. Os passageiros, Dr. David Bowman e Dr. Frank Poole, são frios e sem sentimento algum. Nem mesmo a mensagem de feliz aniversário dos pais do Dr. Frank puderam ser recebidos com alegria e entusiasmo. Ambos passageiros a bordo são máquinas na forma humana. A ciência tornou o ser humano frio, egoísta e desumano.

5612556166_dfdba6ac42_o.jpg Foto: hal9000 © cykocurt via flickr / Licença: CC BY-ND 2.0.

A macaquice a bordo da nave Discovery levou ao assassinato brutal do Dr. Frank Poole pelo robô Frank Stein HAL 9000. Dr. David Bowman precisa desligar a máquina assassina antes que seja a próxima vítima. Convenhamos que não há muita escapatória no espaço. O atual filme Interestellar (2014) encarnou HAL 9000 na pessoa do Dr. Mann cujo objetivo de salvar a espécie deve transcender a vontade demasiadamente humana de resgatar o ser humano terráqueo de sua destruição. “Amar ao próximo como a si mesmo” já não está nos planos.

A passagem pela corda que leva ao Übermensch é difícil. É “uma corda sobre um abismo; perigosa travessia, perigoso caminhar, perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar.” (NIETZSCHE, 1999. p. 27). Poderíamos acrescentar: “perigoso ser humano”, ou seja, perigoso “ter compaixão.” Dr. David Bowman perpassa por um portal que o leva ao lugar menos esperado: um luxuoso hotel tal como existente na terra. Ao deitar-se na cama, Dr. Bowman “conheceu os primeiros sinais da Eternidade que se abria diante dele”. (CLARKE, 2013. p. 298). Dr. David Bowman passava a corda e se tornara o Übermensch ao som do Also Sprach Zarathustra de Richard Strauss. Tal como o macaco passou a ser homem, o homem passou a ser “além-de-si”. O planeta terra estava diante de si “como um brinquedo reluzente.” (CLARKE, 2013. p. 299). Nasceu o Übermensch que se tornou o “senhor do mundo.” Embora ainda não soubesse o que fazer em seguida, iria pensar em algo. O homem tomou, enfim, o lugar de Deus. O Übermensch é a esperança científica.

As relações entre ambas obras apontam para o perigo do desumano. A ciência e a tecnologia tem permitido ao ser humano uma evolução como nunca vista na história, desde a anestesia até viagens espaciais. A ciência e a tecnologia possuem seu fundamento e razão. Todavia, o egoísmo, a soberba e a ganância desumanizam a ciência. Deixamos de ser humanos para nos tornarmos arrogantes. A evolução humana não está no alcance de conhecimento e poder, mas no olhar para o outro com compaixão. A ingenuidade humana quer tudo para si sem saber que quanto se tem tudo não se tem nada. O avanço que não enxerga o outro é retrocesso. Agir assim é ser como HAL 9000 ou como o Dr. Mann. Podemos e devemos avançar. No entanto o avanço deve ser realizado sem desconsiderar ou desvalorizar os fracos e indignos do mundo. Parafraseando 1 Co 13: “ainda que eu viaje até Júpiter ou Andrômeda, sem amor, nada serei.” Poderíamos amar ao outro, mas sempre preferimos ser o Caim da história. Avançar é necessário, mas amar é mais. As atitudes e valores humanos devem ser repensados.

REFERÊNCIAS:

CLARKE, Arthur C. 2001: Uma Odisseia no Espaço. São Paulo: Aleph, 2013.

NIETZSCHE, Friedrich W. Assim Falava Zaratustra. 6. ed. São Paulo: Martin Claret, 1999.


William Felipe Zacarias

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