repensar

Para que o óbvio não seja esquecido

William Felipe Zacarias

A Teologia é o meu pressuposto. A Filosofia é meu esporte. A Arte é a minha essência.

Nunca mais acordar: Medo ou vontade?

A vida é complexa e difícil de viver. Todavia, ela não está apenas no presente, mas possui passado e futuro. As facetas da vida se manifestam de maneira singular no momento, mas não há momento que dure para sempre, seja ele tragédia ou comédia. O passado pode ter sido trágico, mas ele não é capaz de ditar o fim desta história. O ato final ainda não chegou.


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A vida e suas facetas. A morte como o último ato de viver. A vida entre o paradoxo da tragédia e/ou da comédia. Tragédia transformada em comédia ou comédia transformada em tragédia. Não há uma terceira via, não há uma síntese, não há arbítrio: toda a vida humana é regulada por estes dois polos.

Na comédia há prazer em viver. Em momentos de humor a vida ganha sua beleza e sentido momentâneos. O preto e branco desaparece dando um novo colorido ao ato de viver. Uma comédia saudável que não rebaixa o outro a fim de exaltar a si mesmo. Comédia saudável é comédia para todos. Caso contrário, aquilo que é comédia para uns será tragédia para outros.

A vida comediante possui medo de não acordar. A vida prazerosa dispensa, ignora e rejeita a morte. Na verdade, o objeto do medo não é a morte, mas o não mais viver. A boa vida não merece a diluição da morte. Para a vida comediante a morte é a grande tragédia. É certo que os vivos podem perpetuar a comédia. Entretanto, não estar presente é um temor de quem não deseja entregar seu ser à cova. Para estes, dormir e não acordar mais representa um medo iminente. Para o comediante, o conviver é o significado da vida: viver com o outro.

Na tragédia o prazer em viver se esvai. Em momentos de dor a vida perde a beleza e o sentido. O colorido desaparece: o próprio arco-íris torna-se preto e branco. O eu perde valor, mas o outro é valorizado. Eu mesmo valorizo o outro afim de desvalorizar a mim mesmo: tal é a tragédia de viver. Tragédia é algo individual. A tragédia de uns pode ser tornada em comédia para outros.

A vida trágica não tem vontade de acordar. A vida trágica deseja, conhece e aceita a morte. A própria vida se torna um peso insuportável. Dormir e não acordar mais é um desejo ardente. Morrer do mesmo jeito que se dorme: sem dor. Apenas fechar os olhos, relaxar e deixar de conviver. A má vida não merece ser vivida, pensa o trágico. A morte se torna na grande comédia. Não há sentido em viver, não há significado nas amizades, nada há. A cova é tornada em um lar.

A vida e suas facetas: comédia e tragédia. Desejar ou não desejar viver? Ter ou não ter medo de morrer? Nem sempre a morte é uma tragédia e nem sempre a vida é uma comédia. Para alguns a vida é celebrada, para outros, a morte.

A fé cristã é a fé da esperança. Não se trata de uma espera vazia, mas fundamentada no evento de Cristo na cruz. Não o cristianismo institucionalizado pós-Constantino, mas a loucura do Deus-homem que morre na cruz. Jesus Cristo não é uma palavra mágica que realiza coisas, que converte a tragédia em comédia. Pelo contrário, é o Deus que assume a tragédia humana e a sente na sua cruz. O Deus cristão não está alheio ao sofrimento humano e nem o resolve num passo de mágica, mas leva o fardo do sofredor na maldita cruz do calvário. Por mais irônico que seja, não existe esperança cristã sem a tragédia da cruz: a tragédia de Deus que torna a tragédia humana em comédia. A tragédia foi pregada na cruz. Como diria Nietzsche, “o evangelho morreu na cruz.” A tragédia da cruz traduz a comédia cristã como esperança: apesar do agora, há um amanhã.

Edvard_Munch_-_Golgotha_(1900).jpg Gólgotha (1900), do pintor norueguês Edvard Munch (1863-1944). O mesmo pintor do famoso quadro O Grito (1893).

A esperança não está na garantia de um futuro para os filhos e netos. A esperança não está nas drogas. A esperança não está nos bens que possuímos. A esperança não está em nós mesmos. A esperança não está no que nós podemos fazer ou produzir: a esperança vem de fora para dentro, do passado para o futuro, da morte para a vida. A diluição da esperança no presente a torna mortal: “a esperança é a última que morre.” Esperança de verdade não pode morrer!

Seja qual for a tragédia ou a comédia que você está sentindo, seja você cristão ou não cristão, seja qual for o motivo de você desejar dormir e não acordar mais: dê a si mesmo apenas a chance de refletir a própria vida à luz da esperança que não perece. O Deus da cruz é o Deus sofredor, nojento e escandaloso. Por isso ele não está alheio à tragédia humana, mas a sente na própria carne. Em meio à escuridão, há esperança. O real teatro da vida ainda não teve seu último ato. Repense sua existência, repense sua vida, tome uma decisão.


William Felipe Zacarias

A Teologia é o meu pressuposto. A Filosofia é meu esporte. A Arte é a minha essência..
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