repensar

Para que o óbvio não seja esquecido

William Felipe Zacarias

A Teologia é o meu pressuposto. A Filosofia é meu esporte. A Arte é a minha essência.

A nova metafísica

“Imprensa, rádio, cinema, televisão e indústria cultural em geral são outros canais de difusão e ambientes de constituição de novos mitos.” (VATTIMO, Gianni. Diálogo com Nietzsche. São Paulo: Martins Fontes, 2010. p. 112).


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Estamos cercados de deuses. A pós-modernidade é o período pós-cristão e que rompe com tudo aquilo que lembra o cristianismo, inclusive a história. O processo de descristianização do Ocidente acaba desembocando no retorno à antiga cultura helenística. O monoteísmo é substituído pelo politeísmo, as verdades são relativizadas, o prazer toma o lugar do ser.

O ser humano precisa da divindade (singular ou plural). O único que não precisa acreditar em Deus é Deus. Se Deus acreditar em algo superior a ele mesmo, então ele não é Deus, mas o ser superior o é.

Deste pensamento podemos tirar duas conclusões: Quem não acredita em Deus como entidade superior 1) transfere o valor de Deus a si mesmo (subjetivo); ou 2) transfere o valor de Deus para outro (objetivo). O “teísmo” nunca desaparecerá. Pode-se questionar uma “divindade específica” como a Judaico-Cristã ou Muçulmana. Contudo, é absolutamente impossível não atribuir valor divino a si mesmo ou a uma pessoa/objeto. A cultura hedonista, narcisista e consumista é a cultura da divinização de si mesmo. O consumo pode ser traduzido como “dízimos” e “ofertas” oferecidas a si próprio.

Desde cedo as crianças são apresentadas à metafísica. Não estou falando do batismo, mas da televisão que é a apresentação da nova metafísica da pós-modernidade. Apesar da frequente descrença em Deus a partir do “Deus está morto” de Nietzsche, a atribuição às novas divindades apontam o quanto o ser humano precisa da metafísica. Os canais de comunicação são responsáveis pela criação de novas divindades, como a Marvel e a DC Comics, por exemplo.

Na pós-modernidade, a metafísica é marcada pela descrença como uma ilusão e utopia. Por isso a metafísica foi transferida para o reino da fantasia onde tudo é possível. Seus poderes prendem a criança na frente da TV, cinema ou computador fazendo-a imitar seu “super-herói” favorito. O Super-Homem, por exemplo, é a face do agir moral e dentro da lei. A dicotomia entre bem e o mal é a chave para que estes “super-heróis” existam. Estes “deuses” se alimentam do mal, pois a ausência do mal tornaria seus poderes inúteis. O antigo maniqueísmo (luta entre bem e mal), tão combatido pelos cristãos nos três primeiros séculos da Igreja Cristã, é que alimenta esta “fábrica de deuses.”

Estes “deuses” são criados à nossa imagem e semelhança futura. Com a predestinação genética em avanço, pode-se facilmente criar a utopia de um ser humano futuro e divino que descobriu a chave científica para a eternidade, afinal de contas, quem não quer ser o Super-Homem ou qualquer outro herói eterno?

A linguagem é um forte propagador deste “mercado” de deuses. Termos como super, meta ou mutante perfazem a simbologia do novo panteão. Sempre são algo além de nós, mas nunca como nós. Nestes desenhos animados, o ser humano do dia-a-dia sempre aparece em baixo, no chão. É impossível ao ser humano comum defender-se dos problemas e dilemas de seu cotidiano. Por isso os “deuses” sempre estão voando no ar para protegê-los. Uma cena que se repete é aquela de um Outdoor gigante caindo de um prédio que o super-herói contém para que não caia em cima das pessoas. Elas estão lá em baixo, frágeis, indefesas. É necessário que alguém maior que elas as salve. Caso contrário, estão perdidas.

Tudo isso outra coisa não é senão o retorno ao panteão helenístico. Nós precisamos da metafísica. Se Nietzsche diz que ela nunca existiu ou que está morta, então inventamos uma. Seja ele mesmo um “deus” para si, seja um elogio que faz a uma divindade fora de si, o ser humano é, definitivamente, uma fábrica de deuses.

Por isso, chama-me especial atenção o texto de Fp 2.7-8 do Novo Testamento. O Deus cristão é aquele que se esvazia de si mesmo, assumindo a forma de servo e que morre a morte de cruz. É o Deus escandaloso que abre mão da sua metafísica para se tornar como cada um de nós. Deuses não morrem, mas o Deus cristão morreu! Particularmente não tenho vergonha de dizer que creio na vergonha da cruz. Um Deus que morre por mim não é pouca coisa. Um Deus que não está a voar no alto, mas andando aqui em baixo conosco em nossas fragilidades, ao meu ver, é muito relevante. Um Deus como nós e que sabe o que é ser humano (esta é minha crença particular, peço-vos tolerância, não precisam concordar). É o Deus que morre em piedade dos seus e como os seus. Deus sabe o que é morrer, não por conhecimento objetivo, mas por experiência. Eu não poderia adotar outro super-herói, pois se o “Capitão América” ou o “Wolverine” morrerem, a indústria dos heróis morre juntamente com eles. Contudo, creio no “Logos” que morreu na cruz (quem conhece filosofia irá entender o problema que estou afirmando). No século XXI, “Deus” e “deuses” precisam ser repensados.


William Felipe Zacarias

A Teologia é o meu pressuposto. A Filosofia é meu esporte. A Arte é a minha essência..
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