repensar

Para que o óbvio não seja esquecido

William Felipe Zacarias

A Teologia é o meu pressuposto. A Filosofia é meu esporte. A Arte é a minha essência.

Sou eu assim sem você

Ainda é possível encontrar um verdadeiro amor? Alguém que nos faz falta? Alguém cuja ausência questiona a nossa própria existência? A música “Fico assim sem você” de Claudinho e Buchecha é um norte para tentarmos responder a estas perguntas.


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As coisas são significas a partir da sua relação com aquilo que lhe é inerente. É nas relações intersubjetivas que a realidade é conhecida e significada. Coisas recebem sentido (do gr. logos) quando encontram aquilo que lhes causam um “encaixe perfeito.”

Tendo isto em vista, a música “Fico assim sem você” de Claudinho & Buchecha, interpretada também por Adriana Calcanhotto, carrega em si uma grande e profunda filosofia: tal como algumas coisas dependem de outras para receberem sentido/significado, um ser humano só encontra sentido na sua relação com outros seres humanos, seja na amizade (do gr. fileo), seja na dependência (do gr. éros), seja no amor (do gr. ágape).

A amizade foi definida por Aristóteles como sumamente necessária para a vida. Para o filósofo clássico, a amizade é um dos caminhos para a felicidade, pois a verdadeira amizade ultrapassa o simples utilitarismo ou o prazer, como faz o éros. “A amizade não é apenas necessária, mas também nobre, pois louvamos os homens que amam os seus amigos e considera-se que uma das coisas mais nobres é ter muitos amigos. Ademais pensamos que a bondade e a amizade encontram-se na mesma pessoa.”¹ Assim, fileo é o caminho perfeito por conduzir à felicidade tanto as outras pessoas como a si mesmo. Fileo é o amor vivido entre familiares ou entre uma comunidade; melhor: ama-se como parte da família quem naturalmente não faz parte dela. Por conseguinte, fileo serve também para expressar o amor do sábio pela sabedoria, i. é, filos sofia. Seguem algumas frases encontradas conscientemente no Pensador do Uol: “A amizade duplica as alegrias e divide as tristezas.” Francis Bacon; “Os amigos têm tudo em comum, e a amizade é a igualdade.” Pitágoras; “Um amigo deve ser mestre tanto na arte de adivinhar como na de permanecer calado.” Friedrich Wilhelm Nietzsche.

Éros é o amor dependente, o amor erótico, por vezes cheio de volúpia e hedonismo. É o “amor desejo”, impulsionado pelas paixões que fervem dentro do ser. É o amor perigoso que corre o risco de subjugar o outro e “coisificá-lo” como mero objeto de prazer próprio. Todavia, este amor utilitarista pode ser equalizado a fim de que não exclua a dignidade alheia. Para John Stuart Mill este seria um “prazer racional” que não exclui as sensações do corpo, mas também não se comporta movido apenas pelo desejo animal de cópula. Como explica Clóvis de Barros Filho, “imaginemos uma relação de amor entre duas pessoas. É verdade que nela haverá o desejo de cópula, por vezes, ardente. Mas esse tipo de laço vai além das inclinações carnais. Pode inclusive dispensá-las.”² Por conseguinte, “é possível que haja nesta relação manifestações de puro carinho. Discursos poéticos. Produção de obras de arte. É possível que aqueles que se amam se concedam gestos de generosidade e que se apoiem em suas jornadas profissionais. Assim a relação de amor vai além do coito. Existe, portanto, uma participação do espírito, da inteligência, que constitui a relação amorosa, profundamente ensejadora de prazeres que, segundo o filósofo, são indiscutivelmente superiores aos prazeres sentidos pelo animal no cio ou pelo homem que se restringe à cópula.”² Consequentemente, o mesmo éros que mantém a sobrevivência da espécie humana através da reprodução deve ser equalizado a partir da razão que supera e controla os prazeres físicos, embora não os exclua. Portanto, para Mill, no ser humano, éros é muito mais que prazer físico: é prazer físico racional controlado pela inteligência, pois o prazer racional é aquele que permite a você a continuação do prazer, como por exemplo, comer salada mais do que comer gorduras: gorduras entopem as veias e causam o enfarte; verduras contém vitaminas essenciais para a sobrevivência de modo a haver mais tempo para obter prazer. Não obstante, o ser humano como animal pensante sabe equalizar e selecionar os melhores prazeres que lhe garantam não apenas um bem estar momentâneo e passageiro, mas continuo e com sobrevida.

Ágape se torna o amor mais difícil de definir, pois é o amor que vai contra o egoísmo e nosso jeitinho de se dar bem em todas as situações: no ágape, o outro é primazia. O cristianismo é a corrente que mais se beneficiou deste conceito a partir de Jesus de Nazaré; contudo, é também a corrente que menos vive o ágape ensinado e praticado por Jesus. De fato, o ágape de Jesus incomoda, pois se trata de uma entrega irracional por desmerecidos, tal como Nietzsche descreve a Jesus como um “bom mensageiro” que “morreu tal como viveu, como ensinou – não para “redimir os homens”, mas para mostrar como se deve viver. A prática foi o que ele deixou para a humanidade: sua atitude diante dos juízes, diante dos esbirros, diante dos acusadores e de todo tipo de calúnia e escárnio – sua atitude na cruz. Ele não resiste, não defende o seu direito, não dá um passo que afaste dele o extremo, mais ainda, ele o provoca... E ele pede, ele sofre, ele ama com aqueles, naqueles que lhe fazem mal (...). Não se defender, não se encolerizar, não responsabilizar... Mas também não resistir ao malvado – amá-lo...”.4 De fato, ágape é um amor estranho, pois não se defende diante das injustiças, diante do que é certo, mas se entrega total e incondicionalmente em prol do outro. Ágape é o amor que mais está fora de moda, também dentro do próprio cristianismo. Ágape é difícil de definir por não ser um amor conceito, mas um amor ação e que, ao invés de esperar, vai ao encontro de quem precisa de seu verbo.

Talvez o leitor esteja perguntando (e tomara que esteja): qual a relação das três palavras com a música da dupla Claudinho & Buchecha? Simples: sem você, eu não existo. É nas nossas relações com as outras pessoas que conhecemos a nós mesmos. Por tratar-se de uma música romântica (i. é, uma declaração de amor), acredito que uma relação amorosa saudável deveria estar pautada por fileo, éros e ágape. A separação de apenas um destes conceitos do todo pode tornar o amor somente superficial, erótico ou sem ação. Logo, assim como não existe Piu-Piu sem Frajola ou futebol sem bola, o amor só existe quando se relaciona com o outro, o que Levinas chamou de alteridade.

Assim, você existe melhor quando encontra a pessoa que lhe é inerente e descobre que já não pode mais passar a vida inteira sem a sua presença, tal como o avião com sua asa ou como a fogueira sem brasa. O encontro entre duas pessoas é mais do que um encontro de indivíduos: é o encontro de duas histórias (com suas marcas) que passa a ser uma história só! Por conseguinte, somos criados por nossos pais, mas passamos a maior parcela da nossa vida com uma pessoa anteriormente desconhecida que se torna parte de nós de modo a vida ser impensável sem ela, seja por minutos, dias, meses ou anos. Esta não é uma receita ideal para uma relação perfeita e sem tempestades, longe disso. Isto é, antes de tudo, um aprendizado contínuo para a vida inteira.

“Eu não existo longe de você e a solidão é o meu pior castigo. Eu conto as horas para poder te ver, mas o relógio está de mal comigo, por quê?” A pergunta final é o maior sintoma da perda de sentido e significado pela falta da pessoa amada, sentido que só é recebido no reencontro. Esta é uma pergunta não mais feita em nosso tempo por causa da superficialidade e animalidade existente nas relações. Seja na amizade, no namoro/casamento, no doar-se incondicionalmente, sem o outro, não existimos. Em meio à pobreza musical de nosso tempo, uma música simples como “Fico assim sem você” nos ensina o que é viver, o que é existir. Consequentemente, no tempo em que vivemos, as relações amorosas precisam ser repensadas.

PARA APROFUNDAMENTO:

¹ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin Claret, p. 173.

² BARROS FILHO, Clóvis. Somos Todos Canalhas. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2015. p. 236-237.

³ NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. O Anticristo. in: NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Obras Escolhidas. Porto Alegre: L&PM, 2013. p. 401.


William Felipe Zacarias

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