repensar

Para que o óbvio não seja esquecido

William Felipe Zacarias

A Teologia é o meu pressuposto. A Filosofia é meu esporte. A Arte é a minha essência.

Voltando ao coração

A morte de um ente querido nos coloca diante de questões fundamentais da existência humana, especialmente no que concerne à pergunta: poderemos nos reencontrar um dia ou tudo acabou aqui? O texto que você está prestes a ler é uma proposta de reflexão sobre o luto e as teias simbólicas da vida humana. O fato destacado é verídico, abordado em linguagem pessoal, mas também com uma fundamentação filosófica.


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Estávamos muito tristes. O pai era uma pessoa muito querida para que falecesse apenas aos 60 anos de idade. Ele tinha seus pecados, mas isso não eliminava a pessoa que ele era. Sua decadência aconteceu no período de um mês. O vi pela última vez no dia 02 de Agosto de 2016. Estava animado, pois seu filho estava prestes a viajar para o Rio Grande do Sul onde aprenderia a ser pastor luterano. Despedi-me dele, sem imaginar que seria a última vez que lhe dizia “tchau”.

No dia 28 de Agosto, embarquei de volta para casa. A saúde de meu pai estava bem complicada, mas havia melhorado significativamente, encontrando-se em casa. Havia melhorado tanto que minha mãe, em sua inocência, nem quis que eu me cansasse, pois a viagem era longa, com cerca de 10 horas dentro de um ônibus.

Não me segurei, precisava ir ver o meu pai. Cheguei em casa por volta das 5h da manhã do dia 29 de Agosto. Meu pai já estava rumo à Lages/SC onde tinha uma tomografia marcada. Deitei-me na cama para dormir. Acordei às 09h30min da manhã. Estava ansioso pela volta de meu pai. Uma hora depois, uma ligação rasgou a cena: era uma tia comunicando que meu pai havia falecido. Já estava retornando do exame; aconteceu há 20 minutos de casa. Adormeceu no banco da frente. Pensaram que havia dormido, pois quase não o fez à noite toda. Assim ele faleceu.

O corpo foi velado na igreja, seu lugar favorito, e sepultado no dia seguinte no cemitério municipal, junto ao meu irmão que havia falecido há 10 anos.

Choramos incessantemente. Quando o exame chegou, descobrimos o que o levou: um câncer no fígado causado pela diabetes.

Na noite de 27 para 28 de Setembro, tive um sonho louco e forte. Meu pai estava vivo. Ele havia saído do túmulo e nos encontrou em casa. Tínhamos, enfim, muito que conversar e rir, pois sempre foi uma pessoa muito animada. Era tão bom tê-lo de volta, planejando as viagens para Foz do Iguaçu/PR e Novo Xingu/RS que eu lhes havia prometido...

Mas era um sonho. Pela manhã, despertei chocado. Queria que aquilo tudo fosse verdade, por mais absurdo que pudesse ser. Mas não era; meu pai continua sepultado naquele túmulo e nós permanecemos com a saudade. Mas, como escreveu o poeta Alfredo Cuervo Barrero: “É proibido sentir saudades de alguém sem se alegrar.”

Minha família é cristã (somos luteranos). Tolero opiniões contrárias, até as niilistas, mas nós cremos na ressurreição dos mortos (recomendo a leitura de At 17.16-34, o debate de Paulo com filósofos em Atenas. É bem interessante). Não cremos em uma dicotomia entre corpo e alma: ambas morrem! Um dia, tenho certeza, que este sonho que tive será mais real do que estas teclas que agora aperto no teclado do computador.

A mente passa por um processo de ressignificação da realidade. Meu pai permanece vivo em nossa memória, que os antigos hebreus chamavam de “lev”, i. é, coração. Recordar é voltar ao coração! (Re = voltar; córdia = coração). Meu pai morreu, mas seu legado é vivo: ele me ensinou a viver, a tocar piano, a me apaixonar pelo rádio, a instalar antenas parabólicas e uma série de outras coisas, embora tenha estudado só até a 5ª série.

O luto ainda dói bastante; a falta, a dor, a vontade de ter feito mais coisas com a pessoa perdida criam um inconformismo sem-igual, mas há esperança! É loucura, é irracional, é improvável, é ilógico, mas a história humana não termina no sepulcro. Ao contrário, sepulcros são úteros que acolhem quem está prestes a renascer no último dia.

Meu pai não está olhando por nós, ele não está vagando por aí. Ao contrário, ele descansa, aguardando o porvir. O melhor está por vir!

Deus tirou o meu pai de mim, mas ele o devolverá quando a história chegar ao seu alvo: a vida eterna! É nisso que creio. É nisso que seguro. É nisso que espero. A morte, enfim, morrerá. Estaremos juntos novamente. Não sei se nos lembraremos um do outro ou não, mas só a certeza de estarmos juntos novamente em vida é mais que reconfortante. Se o Reino de Deus será lá em cima, no céu, ou aqui em baixo mesmo, não tenho certeza, mas sei que as lágrimas serão enxugadas dos olhos; a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram (Ap 21.4).

Não sei o que o leitor pensa ao chegar ao final deste texto. Abaixo deixo bem claro que “A Teologia é o meu pressuposto.” Como já explica o sociólogo francês David Émile Durkheim (1858-1917), "a vida social, sob todos os aspectos e em todos os momentos de sua história, somente é possível em virtude de um vasto simbolismo."¹ A teia de significados proporcionada pelo simbolismo judaico-cristão foi a que escolhi para mim como verdade absoluta, também porque as teorias da história estão fundamentadas no conceito judaico-cristão de tempo linear.²

É esta teia de símbolos que nos fornece esperança do porvir, embora a dor do presente. É isso que creio. Não posso provar, mas é uma força simbólica tão real quanto à própria realidade, do mesmo modo que uma flor é sacrificada quando um jovem rapaz quer impressionar uma garota dando-lhe um buquê. Não tem explicação racional. Não lhe bastaria, sob a perspectiva do positivismo lógico, dizer que seu cérebro está liberando substâncias como feromônios, noradrenalina, dopamina, serotonina ou endorfina e que por isso sente atração por ela? É real, é verdade, é mensurável, mas não dá conta. Ao contrário, dar um buquê de flores, sem dizer nada, é muito mais significativo (e puramente simbólico, bem como, real).

A minha teia de símbolos tem a ver com a ressurreição dos mortos. Diante da saudade que sinto de meu pai e também de meu irmão, só algo assim é capaz de me consolar e conceder forças a seguir adiante com boas lembranças no coração. Do contrário, teria que lamentar a vida inteira, pois o eterno retorno do mesmo (i. é, o niilismo) não promete nada e não consola a ninguém, mas demonstra com clareza o que é uma vida sob “a morte de Deus”: um vazio de sentido e de símbolos essenciais para a construção da teia de significados da memoria individual e coletiva.

Por isso, prefiro crer cegamente que há muito mais do que aquilo que se diz poder mensurar. Isso me consola, anima e fortalece. Do ponto de vista contrário, a depressão seria o melhor caminho. Nunca mais estar com pessoas que ama deprime só em imaginar essa possibilidade.

Termino este texto com um vídeo bem-humorado do historiador brasileiro Leandro Karnal. Tolero sua opinião. Contudo, a vida e sua teia de significados deveriam ser repensadas. Chame-me de mesquinho, pois acredito mesmo que o melhor está por vir!

¹ DURKHEIM, E. Les Formes élementaires de la vie religieuse. P.U.F., 1968, p. 331. Apud: MAFFESOLI, Michel. A Sombra de Dioniso. 2. ed. São Paulo: Zouk, 2005. p. 14. E ainda assim os positivistas temam em citar Durkheim em seu discurso, afirma Maffesoli logo após a citação.

² Maurice Halbwachs aborda bem esse assunto. Seus intérpretes dificilmente consideram sua origem judia. Confira também: VATTIMO, Gianni. Diálogo com Nietzsche. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010. p. 71. E também que Deus só é feito pela história. A morte de Deus é também a morte da história: NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Considerações Extemporâneas – 1874. In: NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Os Pensadores. Vol. 41. Obras Incompletas. 3. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. p. 68.


William Felipe Zacarias

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