repensar

Para que o óbvio não seja esquecido

William Felipe Zacarias

A Teologia é o meu pressuposto. A Filosofia é meu esporte. A Arte é a minha essência.

Um cristianismo para ateus

Nietzsche decretou a morte de Deus. Sobre isto, estamos carecas de saber. Entretanto, como o cristianismo pode sobreviver em uma sociedade pós-metafísica? Qual é, afinal de contas, a relevância de Cristo para a pós-modernidade? É possível sua permanência? Ou precisa ser deletado? A proposta de Gianni Vattimo é surpreendente.


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Vivemos na era pós-moderna. Vários estudiosos tem se debruçado sobre este fenômeno contemporâneo a fim de compreender sua origem e significado. Embora a pós-modernidade seja a negação dos significados absolutos, vale aquilo que cada um define como dogma para si mesmo.

O cristianismo foi uma força inebriante na história. Inclusive, colocou o Cristo como centro dela: a. C. e d. C. Contudo, o diagnóstico nietzschiano de que os céus estão vazios desestabilizou o Ocidente cristão: se Deus está morto, a cultura Ocidental, escrita sobre o cristianismo, também está. Todo o humanismo, toda arte e todo o alvo da vida humana (a escatologia) vão automaticamente para o lixo. É o que o próprio Nietzsche diz: “O Cristianismo tomou partido de tudo o que é fraco, vil e malogrado”.(1) Só com o Lógos que se fez fraco e morreu é que os fracos e malogrados tem dignidade. Ao eliminar este pressuposto, troca-se o humanismo pelo darwinismo social.

Gianni Vattimo é um humanista e, embora seja ateu, preocupa-se com o fato de que sem o cristianismo, o Ocidente perde tudo o que conquistou até o momento. Contudo, é possível haver um cristianismo sem a metafísica? Vattimo responde que sim.

Para ele, existe uma versão cultural e não religiosa do cristianismo chamado “cristianismo secular”. É o cristianismo que se esvazia de seus pressupostos metafísicos para servir com pressupostos imanentes. Conforme Filipenses 2.5-8, Deus, em Jesus Cristo, se esvaziou (no grego, aparece a palavra kénosis), assumindo a forma de servo, tornando-se obediente até a morte e morte de cruz. É o Deus que negou a metafísica e se humilhou para servir. É o Deus que negou a religião enquanto busca por algo transcendente, afinal de contas, não se precisava mais buscar a Deus no céu, pois ele desceu à terra. Logo, tem-se um cristianismo sem metafísica ou transcendência.

Por conseguinte, somente o processo de secularização da tradição cristã é que lhe permite continuar existindo na sociedade atual. A secularização é uma invenção necessária do próprio cristianismo que acabou eliminando os fundamentos metafísicos desta própria tradição. Este não é um cristianismo da igreja, com missas ou cultos, mas enraizado e vivido na cultura secular. O esvaziamento (kénosis) seria o modo pela qual o cristianismo conseguiria continuamente se esvaziar da sua religiosidade de suas estruturas religiosas, tornando-se um movimento prático que vive e atua no mundo secular.

Onde isso acontece? Na solidariedade, por exemplo. Assim como Cristo se encarnou no mundo, sendo este fato o mais importante de toda a história da humanidade, da mesma forma os cristãos se encarnam no mundo com ações solidárias que possuem valor em si mesmas e não no que podem receber em troca. A pessoa é honesta não para ganhar crédito na praça, mas porque sua essência é a própria honestidade; O indivíduo é bom não para ganhar notoriedade, mas porque sua essência cristã é boa; alguém empresta algo ao vizinho não porque um dia também pode precisar de algo emprestado, mas porque sua essência é cristã e livre. O mesmo ocorre, conforme Max Weber, com a profissão secular: na visão de Lutero, a pessoa cumpre bem a sua profissão não para enriquecer e criar capital, mas para servir a Deus por meio do próximo. Logo, a boa execução do serviço secular é uma ação cristã secular que não tem nada a ver com a religião ou com a igreja.

O mesmo ocorre com outros fatores: a discussão sobre o aborto, por exemplo, está em alta por causa da crise no humanismo causada pela era pós-cristã. Sem o cristianismo, dizem os ateus Nietzsche e Vattimo, não há humanismo. Logo, é possível que os ateus sejam, ao mesmo tempo, cristãos pós-metafísicos, pois admitem a cultura cristã, mas negam a escatologia cristã. Terry Eagleton expõe isso em seu livro “A morte de Deus na Cultura”. Conforme um artigo de Joel Pinheiro da Fonseca na revista Veja sobre este livro, “Somos ateus, mas nosso modo de vida pressupõe Deus”.(2) Vattimo cria um belo paradoxo ao dizer “graças a Deus sou ateu”(3), ou seja, há uma maneira não religiosa, i. é, ateia, de viver o cristianismo, considerando a sua cultura de humanismo, caridade e arte. O próprio Nietzsche afirmou que “a prática foi o que ele (Cristo) deixou à humanidade”.(4)

Vattimo é um ateu cristão, ou um cristão ateu. Sem a cosmovisão cristã, o Ocidente deixa de ser o que é, entrando em colapso. Não o cristianismo institucional Católico Romano ou com as vertentes da Reforma Protestante, por exemplo, mas o cristianismo prático deixado por Jesus. Cristo negou a metafísica ao ser fazer como um homem. A proposta de Vattimo nada mais é do que manter a cristologia assim. Em uma cultura pós-metafísica, a única maneira do cristianismo permanecer existindo é se secularizando a si mesmo. Em uma sociedade pós-morte de Deus, resta ao cristianismo manter sua forma vazia e secular onde os cristãos se encarnam no mundo em caridade, solidariedade e fraternidade. Na pós-modernidade, o cristianismo clássico deve ser repensado.

PARA SABER MAIS:

(1) NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. O Anticristo – 1888. In: Nietzsche, Friedrich Wilhelm. Obras Escolhidas. Porto Alegre: L&PM, 2013. p. 374.

(2) PINHEIRO FONSECA, Joel. “Ainda Entre Nós”. In: Revista VEJA. 2483 ed. São Paulo: Editora Abril, 22 de Junho de 2016. p. 101.

(3) ZACARIAS, William Felipe. Elogio ao frágil. Curitiba, 2015. Notas de palestra, preletor Gianni Vattimo, Litercultura Festival Literário.

(4) NIETZSCHE, 2013. p. 399.


William Felipe Zacarias

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