repensar

Para que o óbvio não seja esquecido

William Felipe Zacarias

A Teologia é o meu pressuposto. A Filosofia é meu esporte. A Arte é a minha essência.

Simbologia em Freud

A tarefa da psicanálise é traduzir lembranças ocultas que impactam cotidianamente a vida do indivíduo em um símbolo significativo cujo tratamento seja possível. O psicanalista provoca a espiritualidade do sujeito para que ele mesmo seja capaz de significar o passado que lhe persegue ocultamente e inconscientemente. A simbologia é uma realidade mais forte em Freud do que podemos imaginar.


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INTRODUÇÃO

A simbologia representa uma espiritualidade. Porém, o conceito de espiritualidade aqui abordado não possui similaridade com o conceito neoplatônico de um ente vivente que vive passeando pelo ar. Espiritualidade, no alemão Geist, significa simplesmente “aquilo que não é material”. Somos seres espirituais, pois vivemos não apenas da materialidade, mas também da imaterialidade. Entre elas a história, a cultura, os costumes, a linguagem, os símbolos, etc.

A espiritualidade não é inferida através dos meios científicos. A ciência tem por objetivo investigar fenômenos físicos e materiais. A ciência verifica o que é verificável. Como a espiritualidade pertence a algo da qual não se dispõe materialmente, a ciência que estuda os fenômenos espirituais se chama “hermenêutica”, i. é, a arte de interpretar. A hermenêutica proporciona ferramentas suficientes para estudar aquilo que não é imanente. É na espiritualidade que a simbologia é construída. A espiritualidade e os símbolos, que são seu produto, sustentam a vida humana e lhe garante sentido.

Seguindo a esteira de Max Weber, a história possui significados que carecem ser interpretados. É o conjunto de significados que constroem uma teia que sustenta a vida humana. É o significado quem gera os eventos da história. São os vários elementos associados à realidade histórica que dão sentido para o significado cultural (1). No caso weberiano, é o conceito luterano de vocação e profissão que significam, i. é, dão sentido ao capitalismo ocidental.

Entretanto, o marxismo e o positivismo lógico nas universidades brasileiras eliminaram o conceito de espiritualidade dos currículos e dos planos de ensino. A teologia foi reconhecida como ciência somente em 1999 pelo Ministério da Educação e Cultura – MEC (2). O positivismo de August Comte (1798-1857) pregou que a religião é um evento arcaico e presente na vida de pessoas subdesenvolvidas intelectualmente. Por isso, o francês dividiu o progresso (ou evolução) humano em três estágios:

o estágio mais antigo, o teológico, representado pelo período medieval na Europa, é caracterizado pela crença no sobrenatural. Este deu lugar ao estágio metafísico, no qual a especulação sobre a natureza finalmente evoluiu. Finalmente, veio a era “positivista” (que Comte testemunhava, pois ela emergia na época em que estava escrevendo), com uma atitude genuinamente científica, baseada nas regularidades observáveis. Comte acreditava que esse positivismo ajudaria a criar uma nova ordem social, reparando o cais gerado pela Revolução Francesa (3).

“O positivismo lógico foi um movimento antimetafísico na filosofia” (4). Como hermenêutica Moderna para a interpretação da realidade, o “significado e a verdadeira natureza de uma proposição é revelado por sua verificação ou pela impossibilidade dela” (5). Por conseguinte, “falar acerca de qualquer coisa que estivesse acima ou além do mundo físico era, segundo alegavam, uma hipótese que fora excluída pelo princípio da verificação” (6). Assim, para tirar o Brasil do atraso, a espiritualidade tinha que ser excluída. A bem-aventurança da pós-modernidade é a abertura de um espaço para o subjetivismo que possibilita a volta à espiritualidade no sentido Weberiano. Para Gianni Vattimo, filósofo contemporâneo italiano, “não existem fatos, apenas interpretações, mas a interpretação não deve ser pensada como uma ação de um sujeito; o próprio sujeito é algo de Hinzu-erdichtetes, acrescentado poeticamente pela interpretação ou pela criatividade” (7).

Por conseguinte, Sigmund Freud também foi, por vezes, intencionalmente e/ou erroneamente interpretado com um antimetafísico e, portanto, anti-espiritual. Fato é que mesmo uma leitura rápida de suas obras comprovam exatamente o contrário. Na verdade, toda a teoria psicanalítica de Freud se baseia na imaterialidade, ou seja, justamente na metafísica. É na mente que os fenômenos condicionantes da vida se realizam e se traduzem por meio de símbolos. A tarefa do psicanalista é, justamente e puramente a hermenêutica: interpretar a imaterialidade tal qual ela se manifestou na mente do sujeito.

Para a verificação desta teoria, usar-se-á apenas o livro “Sobre a Psicopatologia da vida cotidiana”. Busca-se comprovar que, também em Freud, a simbologia é uma tradução dos desejos íntimos do ser humano que, na sua interpretação, é um ser erótico.

A HERMENÊUTICA IMATERIAL EM FREUD

De início, Freud explica como ocorre o esquecimento de nomes. Chama a atenção que o próprio pesquisador não realiza uma análise objetiva do caso em algum paciente, mas experimenta a teoria em si mesmo, partindo para um subjetivismo hermenêutico. Freud parte do método indutivo, i. é, da parte para o todo. Ele busca na sua “espiritualidade” uma teoria que abarque todos os esquecimentos de nomes sofridos pela humanidade. Assim, Freud procura provar que o esquecimento de um nome em uma conversa não é mero acaso, mas motivado por uma série de fatores, entre eles, uma pré-disposição ao esquecimento ou uma relação fonética entre o nome esquecido e alguma outra palavra. Freud explica como não se lembrou do nome do pintor “Signorelli” ao confundi-lo com “Botticelli” e “Boltraffo”. Na primeira troca, chama a atenção o final elli que é igual. Quanto ao prefixo Bo, Freud justifica que estava conversando com seu colega no metrô sobre a Bósnia antes do assunto do pintor, ou seja, dali surgiu o “Bo” (9) Nas suas palavras:

os nomes foram manipulados, nesse processo, de modo semelhante às imagens gráficas que representam pedaços de frase e com os quais se deseja criar um hieróglifo (Rebus). De todo esse processo que, em vez do nome Signorelli, produziu os nomes de substituição, nada me foi transmitido à consciência. A primeira impressão é a de que seria impossível encontrar-se qualquer relação entre o tema no qual o nome Signorelli apareceu e o assunto que houvera sido reprimido anteriormente (10).

Freud traduz o acontecimento através de uma analogia com os hieróglifos que era uma linguagem em sinais dos antigos egípcios. Tal qual os desenhos em uma parede formam uma frase e, portanto, um significado, assim sua mente une pedaços de letras e lembranças para então se lembrar do nome (ou de uma parte do nome) Signorelli. Adiante, Freud aplica o mesmo esquema à interpretação do esquecimento de palavras estrangeiras e sequência de palavras. Para tal, ele faz o uso da seguinte parábola:

Suponhamos que eu tenha sido tão pouco cauteloso a ponto de ir passear, a pé, altas horas da noite, por uma região deserta da cidade; ali fui assaltado e tive roubados meu relógio e minha carteira. Dirijo-me ao posto policial mais próximo para apresentar minha queixa, e assim me expresso: 'Estive andando pelas ruas tal e tal, e o fato de estar deserta, somado à escuridão, me despojaram de meu relógio e de minha carteira'. Apesar de, com essas palavras, nada ter dito que não correspondesse à realidade, eu simplesmente estaria me expondo ao perigo de ser considerado, no mínimo, uma pessoa com juízo perturbado. Para descrever corretamente a situação, eu teria que dizer que, favorecidos pela obscuridade e pela situação erma do lugar, malfeitores desconhecidos despojaram-me de meus objetos preciosos. Ora, a situação, tal como se apresenta durante o esquecimento, é exatamente a mesma: favorecida por meu estado de cansaço, por distúrbios circulatórios e pela intoxicação, uma força desconhecida me tolhe a faculdade de dispor dos nomes próprios que estão alojados em minha memória; é essa mesma força que, em outros casos, pode produzir as mesmas perturbações na memória, em que pesem um estado de saúde perfeito e um funcionamento normal do organismo (11).

A linguagem é o símbolo que realiza a mediação entre os sujeitos. Freud procura traduzir sua teoria de modo simples por meio desta parábola, uma artimanha hermenêutica que, ao instigar a imaginação, produz o material no imaterial, i. é, o material no espiritual. O ladrão é apenas um símbolo que elucida todo o fenômeno psicanalítico do esquecimento.

Mas é no capítulo IV, “Lembranças infantis e Lembranças Encobridoras” que o simbolismo em Freud se torna ainda mais evidente. Freud parte da pergunta: “Até que idade chegam nossas lembranças infantis?" (12) Após citar vários exemplos, Freud explica como o cérebro transforma lembranças em símbolos:

As lembranças dos adultos remetem, como sabemos, a materiais psíquicos diversificados. Alguns se lembram de imagens visuais: suas lembranças têm um caráter visual. Outros mal são capazes de reproduzir os contornos mais elementares daquilo que viram (13).

“Remeter” significa “se colocar de volta”, ou seja “estar novamente onde se estava no passado”. O cérebro traduz emoções e desejos através de símbolos que abrangem os sentidos humanos. Na verdade, só é possível remeter a algo quando algum sentido é intencionalmente provocado. Através, de cheiros, por exemplo, alguém pode se lembrar do jardim da sua casa na infância, de algum lugar que frequentou nas férias ou de alguma comida que há tempo não consome. O cérebro usa inteiramente de símbolos para dar sentido e mediar o passado e o futuro no presente (14). Freud diz ainda:

sonhamos, preferencialmente, com imagens visuais. Para as recordações da infância observamos, por assim dizer, o mesmo tipo de regressão que acontece com os sonhos: essas recordações assumem caráter plasticamente visual, mesmo entre as pessoas cujas recordações posteriormente irão prescindir de qualquer elemento visual. A lembrança visual conserva assim o tipo infantil de lembrança (15).

Por conseguinte, “É desse modo que nossas “recordações infantis” adquirem, em geral, a significação de “lembranças encobridoras” adquirindo semelhança digna de nota com as lembranças da infância dos povos, preservadas nas lendas e nos mitos” (16). Uma lembrança encobridora é algo oculto, mas que incomoda. Trata-se de algo passado que, ainda que não seja uma lembrança clara, causa impacto na vida cotidiana do sujeito. A tarefa da psicanálise é traduzir estas lembranças ocultas que impactam cotidianamente a vida do indivíduo em um símbolo significativo cujo tratamento seja possível. O psicanalista provoca a espiritualidade do sujeito para que ele mesmo seja capaz de significar o passado que lhe persegue ocultamente e inconscientemente. Freud explica a teoria a partir da sua própria biografia, explicando porque chorava quando criança quando seu irmão apenas queria fechar um baú. A família Freud possuía uma empregada que, na ausência da mãe, furtava alguns bens. Ela foi presa e o irmão de Sigmund afirmou que ela estava “encaixotada” (do alemão Eingekastelt). Freud conclui:

Interpretei essa resposta de modo infantil, mas parei de questioná-lo, pois não tinha mais nada a perguntar. Quando minha mãe se ausentou algum tempo depois, fiquei cheio de suspeitas, na certeza de que meu irmão havia feito com ela a mesma coisa que fizera com a empregada; por isso exigi dele que abrisse o baú (17).

Ou seja, Freud, quando criança, entrou em desespero por imaginar que sua mãe havia sido presa em um baú por seu irmão. É assim que Freud, agora adulto e psicanalista, torna-se um hermeneuta da própria história ao traduzi-la para a atualidade por meio de um novo significado simbólico.

CONCLUSÃO

Assim sendo, Freud também é simbólico, imaterial e espiritual. Seu método psicanalítico nada mais é do que uma teia de significados que procura interpretar e dar sentido ao sofrimento psíquico, consciente ou inconsciente. Na espiritualidade, Freud evoca sentimentos dos indivíduos e, através da linguagem, propicia sentido para o caos da mente humana em suas perturbações.

Neste sentido, vale a pena o academicismo brasileiro valorizar as sutilezas metafísicas e teológicas presentes em Freud. Sem elas, não é possível entende-lo. Por viver no auge da Modernidade, Freud estava completamente influenciado pela busca de verdades universais e que se aplicassem irrestritamente a todos. A sua teia de significados, que é a psicanálise, até hoje propicia a possibilidade de um mundo simbólico que signifique os traumas. Destarte, o mundo simbólico também é algo que faz parte das teorias freudianas. Ignorar a espiritualidade é o mesmo que ignorar o que nos constitui como humanos. Materialidade e imaterialidade são realidades em contradição que paradoxalmente constituem e mantém a vida cotidiana diante das psicopatologias proeminentes ao sujeito. A diluição desta realidade em contradição é a diluição do próprio ser humano.

PARA SABER MAIS:

(1) Cf. WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. 4. ed. São Paulo: Pioneira, 1985.

(2) Cf. Diário Oficial da União (DOU), , seção 1, no 126-E, segunda-feira, 5 de julho de 1999. . Acesso em: 09/01/2018.

(3) LANDAU, Cecile; SZUDEK, Andrew; TOMLEY, Sarah (ed.). O Livro da Filosofia. São Paulo: Globo, 2011. p. 336.

(4) BROWN, Colin. Filosofia e Fé Cristã. São Paulo: Vida Nova, 2007. p. 146.

(5) BROWN, 2007. p. 147.

(6) BROWN, 2007. p. 149.

(7) VATTIMO, Gianni. Diálogo com Nietzsche. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010. p. 144.

(8) Cf. FREUD, Sigmund. Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana. São Paulo: Escala, 2014. p. 12.

(9) Cf. FREUD, 2014. p. 11.

(10) FREUD, 2014. p. 11. Grifos do autor.

(11) FREUD, 2014. p. 29.

(12) FREUD, 2014. p. 53. (13) FREUD, 2014. p. 55.

(14) Por meio dos símbolos, é possível resignificar lembranças e traumas tal qual se desenvolveu na teoria posterior da Logoterapia de Viktor Emil Frankl.

(15) FREUD, 2014. p. 55.

(16) FREUD, 2014. p. 56.

(17) FREUD, 2014. p. 59.


William Felipe Zacarias

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