ressignificando obviedades

O Logos no projeto de construção do ser. Alteridade dialógica como experiência radical.

Evandro Lui

Pensar é inevitável, refletir é opcional, meditar é espiritual. Ler é enriquecedor e escrever é um privilégio pelo qual ouso me arriscar. O viver sempre nos provoca e eu traduzo algumas provocações em palavras.

fragmentos e POSSIBILIDADES

Este é o fato. Todo o resto é seu julgamento. Se for uma desgraça ou uma sorte eu não sei, porque isto é apenas um fragmento. Quem sabe o que vai acontecer amanhã? É só um fragmento. Estão lendo apenas uma palavra de uma frase da existência. Como podem julgar o livro inteiro? A vida vem em fragmentos, e nunca nos dá mais que isto. Apenas mais um fragmento da vida, apenas isso... nada mais...


Esse texto é para você que considera a ideia de que a vida tem um sentido transcendente a ela mesma. Que considera que o significado do existir vai além do que está abaixo do céu. Que entende que deve existir um propósito que só é atingido num salto de fé que escapa aos nossos sentidos, mas que lança seus poucos feixes de luz através da trama do viver cotidiano.

fragmentos.jpg

Para começar, transcrevo abaixo um texto que circula na Internet com títulos diversos.

"Há uma história que conta que em uma aldeia havia um ancião muito pobre, porém muito sábio, e que até os reis lhe invejavam, porque possuía um formoso cavalo. Os reis lhe ofereceram quantidades fabulosas pelo cavalo mas o homem dizia: 'Para mim ele não é um cavalo; é uma pessoa. E como se pode vender uma pessoa, um amigo'?. Era um homem pobre, mas nunca vendeu seu cavalo. Uma manhã descobriu que o cavalo já não estava no estábulo. Todo o povo se reuniu dizendo: 'Velho tolo. Sabíamos que algum dia lhe roubariam o cavalo. Teria sido melhor se o tivesse vendido. Que desgraça'! 'Não vamos tão longe', disse o ancião. 'Simplesmente digamos que o cavalo não está no estábulo. Este é o fato. Todo o resto é seu julgamento. Se for uma desgraça ou uma sorte eu não sei, porque isto é apenas um fragmento. Quem sabe o que vai acontecer amanhã'? Todos riram dele. Acreditavam que o ancião estava um meio louco. Mas depois de quinze dias, uma noite o cavalo retornou. Não tinha sido roubado, mas havia escapado. E não foi só isso, ele retornou e trouxe consigo uma dúzia de cavalos selvagens. De novo o povo se reuniu dizendo: 'Tinha razão o velho. Não foi uma desgraça mas uma verdadeira sorte'. 'De novo estão indo muito longe', disse o ancião.'Digam apenas que o cavalo voltou. Quem sabe se foi uma sorte ou não? É só um fragmento. Estão lendo apenas uma palavra de uma frase da existência. Como podem julgar o livro inteiro'? Ninguém disse mais nada, mas por dentro sabiam que ele estava equivocado. Afinal haviam chegado doze cavalos formosos. O velho tinha um filho que começou a treinar aos cavalos. Uma semana mais tarde ele caiu de um cavalo e quebrou as duas pernas. O povo voltou a se reunir e a julgar, 'De novo o velho tinha razão', disseram. 'Era uma desgraça, seu único filho com as duas pernas quebradas, não poderia trabalhar e, na sua idade ele era seu único sustento. Agora estava mais pobre que nunca'. 'Estão obcecados julgando', disse o ancião. 'Não vão tão longe. Só digam que meu filho quebrou as duas pernas. Ninguém sabe se foi uma desgraça ou uma fortuna. A vida vem em fragmentos, e nunca nos dá mais que isto'. Aconteceu que, poucas semanas depois o país entrou em guerra e todos os jovens do povoado foram chamados pelo exército. Só se salvou o filho do ancião porque estava sem poder andar. O povo inteiro chorava e se queixava porque era uma guerra perdida de antemão e sabiam que a maioria dos jovens não voltariam. 'Tinha razão velho. Era uma sorte. Embora com as pernas quebradas, seu filho ainda estava com ele, enquanto os nossos se foram e não sabemos se voltam'. 'Seguem julgando', disse o velho. 'Ninguém sabe. Só digam que seus filhos foram obrigados a unir-se ao exército e que meu filho não . Só Deus sabe se foi uma desgraça ou uma sorte. Apenas mais um fragmento da vida, apenas isso... nada mais...'"

Alguns sites assinam essa estória como um "conto zen". Se é um conto zen ou não, não sei, assim como dificilmente saberemos ao certo quem a escreveu. Mas a lição que ela nos traz é algo sobre o qual eu gostaria de refletir.

Quando o Eclesiastes se põe a considerar tudo o que vemos debaixo do céu, ele diz: "Quando os dias forem bons, aproveite-os bem; mas, quando forem ruins, considere: Deus fez tanto um quanto o outro, para evitar que o homem descubra qualquer coisa sobre o seu futuro" Eclesiastes 7:14. É interessante notar essa conclusão de alguém que experimentou de tudo: fama, poder, dinheiro e sexo. A perspectiva do Eclesiastes é uma perspectiva que considera a realidade nua, crua e perversa. Nada escapa aos seus julgamentos e caracterizações das vaidades. Sua conclusão ao olhar para quase tudo o que nos cerca é de que nada faz sentido e de que tudo é vaidade. Essas são as duas expressões mais abundantes do seu livro. E aqui ele coloca um princípio que eu penso que converge diretamente para o princípio do conto ilustrado acima.

bolha.jpg

É fato que uma doença é ruim. É fato que estar desempregado também. Assim como separações, conflitos e a própria morte. Nenhum de nós diria que qualquer desses fatos é inerentemente bom. E, se não é bom, certamente Deus não se agrada que isso aconteça. Mas aí é que vem o X da questão. Eu vejo a vida como um processo onde os eventos e pessoas se encadeiam num emaranhado indistinguível de relações entre si, de modo que é impossível prevê-la, controlá-la ou pretender que ela siga um curso pre-determinado. E isso para colocar uma definição paupérrima em algo aprioristicamente indefinível. Mas com essa visão em mente, penso que, a partir de uma perspectiva mais próxima do kairós e mais distante do kronos, os fatos adquirem significados que para nós são velados, incompreensíveis.

Assim, penso que, embora a princípio aquilo que é ruim continue sendo ruim, tanto do nosso ponto de vista quanto do ponto de vista de Deus, o próprio julgamento de valor sobre algo "bom ou ruim" é alterado na medida em que o novelo da vida desenrola porções mais abundantes de seus fios entretecidos. Com isso quero dizer que, por exemplo, quem pode julgar as coisas que aconteceram na vida de José (em Gênesis) enquanto boas ou ruins? E qual o limite para dizermos: isso aconteceu sem que Deus o desejasse e aquilo aconteceu sob determinação do SENHOR? Não tenho a menor pretensão de dar essas respostas, mas gostaria de deixar apenas a possibilidade de reflexão enquanto o relativismo do bem e do mal quando olhamos a vida de uma perspectiva mais holística e integradora. Pelo amor de Deus, não julgue mal a minha expressão "relativismo do bem e do mal". Com ela, quero apenas me expressar como o fez Stênio Marcius na sua canção 'O Tapeceiro', que a nossa vida é como um tapete visto às avessas: os pontos são estranhos, os fios sem nenhuma lógica e as cores, todas bagunçadas e sem sentido; mas quando se olha do lado correto (com todos os elementos a mostra), pode-se ver uma linda paisagem ou algum outro desenho magnificamente planejado e executado. É evidente a posição geográfica que ocupamos em contraste com a posição que ocupa o Criador e Senhor de todas as coisas. Do mesmo modo que é evidente as diferentes perspectivas, como deveria ser.

flor_amarela.jpg

Penso que essa é a perspectiva de Deus. Penso que essa perspectiva é ilustrada no conto acima. Da eternidade, os valores são outros. Os fatos assumem significados mais profundos. E penso que mesmo o bem e o mal não são tão absolutos quanto os experienciamos no tempo presente. Como disse antes, nós, humanos que sem possibilidade de escolha só vivemos o hoje, nos orientamos e caracterizamos os eventos da existência enquanto bons ou ruins. Mas um significado superior - que eu ouso dizer que possa ser o significado CORRETO - pode escapar a nossa capacidade de entendimento e compreensão.

E você? O que acha disso tudo?


Evandro Lui

Pensar é inevitável, refletir é opcional, meditar é espiritual. Ler é enriquecedor e escrever é um privilégio pelo qual ouso me arriscar. O viver sempre nos provoca e eu traduzo algumas provocações em palavras..
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor do artigo sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
version 2/s/recortes// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Evandro Lui