ressignificando obviedades

O Logos no projeto de construção do ser. Alteridade dialógica como experiência radical.

Evandro Lui

Pensar é inevitável, refletir é opcional, meditar é espiritual. Ler é enriquecedor e escrever é um privilégio pelo qual ouso me arriscar. O viver sempre nos provoca e eu traduzo algumas provocações em palavras.

O paradoxo do virtual libertário-escravizador

Pensar a atualidade das relações virtuais é considerar uma condição da sociedade de hoje. Mas para pensar essa condição, também é necessário refletir sobre o bônus e o ônus que a “virtualização” dos relacionamentos tem trazido para a existência concreta da pessoa em si. Existir se des-concretiza rumo a uma virtualidade cada vez mais crescente? Pode-se afirmar ser isto bom ou ruim? Enriquecedor ou danoso? Libertário ou escravizador?


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É ponto passivo que a Internet alterou alguns paradigmas dos relacionamentos humanos. Uma nova forma de interagir com o outro emergiu e provocou uma metamorfose nos relacionamentos, sobretudo no Brasil, onde o alcance da rede avança cada vez mais. Valorar tais modelos de relacionamento humano é uma tarefa mais complicada. Também é consenso que as possibilidades oferecidas pelos recursos tecnológicos são fartas e abrangentes; ou seja, sob esse prisma, valorar os relacionamentos virtuais convergem para um sentido positivo que aponta para a aproximação dos distantes (isso, em vários sentidos) e a possibilidade de enriquecimento de interações. No entanto, é preciso ponderar os riscos que a virtualidade dos relacionamentos tem trazido para a existência humana. Nesse sentido, ao valorar esse novo modelo de interação, é importante considerar que ele tem o poder de inverter uma ordem de prioridades e substituir um contato humano direto, real (em contraposição ao virtual) e potencialmente arriscado em si mesmo. Arriscado porque relacionar-se envolve riscos. Envolve alegrias, entusiasmo, mas de igual modo, frustrações, decepções, etc. Seja na amizade, no relacionamento conjugal, parental ou em qualquer outra esfera de interação pessoal. E, na medida em que a virtualidade “substitui” majoritariamente o contato humano e pessoal, ele torna-se arriscado – agora, num sentido mais negativo.

Redes sociais, reality shows e outros modelos de entretenimento e relacionamento demonstram o anseio humano por comunicação, por afeto, por relacionamentos de alguma espécie. Assim, não é difícil entender porque conquistaram a popularidade que hoje detém. Considerar os riscos do modelo virtual de relacionamento é trazer para a reflexão a necessidade humana de existir-com o outro. Concretamente. A partir disso, considerar uma existência pautada predominantemente, ou majoritariamente, pelo contato tecnológico é colocar sob suspenso uma condição inerentemente humana, uma necessidade de um ser que é gregário e que encontra na coletividade a razão (pelo menos em parte) de seu viver.

Além desse fator, é preciso considerar o poder libertário-escravizador que a tecnologia tem sobre a vida do homem atual. Nosso modelo de existência se tornou impensável sem a existência dos computadores e da matriz petrolífera de combustível. Isso para citar só dois exemplos. Uma pane em um desses dois sistemas e certamente o caos estaria instalado. Nesse sentido, de maneira sistêmica, o mundo virtual expande horizontes, possibilita a globalização, potencializa exponencialmente o mundo da informação (de forma nunca antes imaginada e com números absurdamente grandiosos), mas, ao mesmo tempo, circunscreve e limita sobre si mesmo as possibilidades de funcionamento dos processos. Tal premissa é evidente desde o simples exemplo do “estamos sem sistema” do banco até os ataques cibernéticos aos principais sistemas informatizados do mundo, como a CIA, os governos, etc. e os riscos que tais ataques envolvem.

Trazendo esse “poder” para a esfera pessoal, a neutralidade valorativa que se utiliza para considerar os relacionamentos virtuais tende à negatividade quando se considera a relação de dependência que o homem pode estabelecer com eles. Tal fenômeno é tão patente que até nome de disfunção psíquica já recebeu. Trata-se da nomofobia, cuja raiz do idioma inglês pretende indicar a fobia do no-mobile, ou seja, a fobia de distanciar-se de um celular ou recurso tecnológico. Clínicas de tratamento já existem nos Estados Unidos para tratar essa categoria de dependentes. Ou seja, na balança do existir e da vida de alguns, a virtualidade e o uso da tecnologia tem pendido para um viés patológico e preocupante. E, na balança entre o saudável e o patológico no que concerne a essa questão para o homem comum, um amplo espectro indica que é preciso repensar o poder libertário e escravizador que o virtual tem sobre a vida concreta e diária de cada pessoa.

Não se trata de demonizar as novas possibilidades de relacionamento humano. Tampouco de enfatizar um tom negativo que essas possibilidades podem assumir. Mas é sim necessário trazer a tona algumas perguntas para a problematização da questão. Qual é o espaço que relacionamentos virtuais e a tecnologia informatizada tem assumido na vida? Não estará esse espaço colocando em xeque uma existência autêntica e necessariamente concreta? A relação de dependência que a tecnologia assume com o modus operandi do mundo globalizado não tem atingido a esfera pessoal em níveis preocupantes e, porque não dizer, patológico?

As possibilidades que advém de uma tela de um computador ou de um mobile são grandiosas. Potencialmente enriquecedoras e libertárias, entendendo esse termo no sentido filosófico mais positivo possível. Se o ser humano é um eterno projeto, uma permanente construção, certamente o mundo virtual pode oferecer tijolos dos mais valiosos e importantes. Expandir-se, reinventar-se, descobrir-se, refletir, são todos recursos abertamente disponíveis para aquele que se abre ao mundo virtual e seus recursos. Algo extremamente benéfico e valoroso.

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Mas, de igual modo, talvez valendo-se de alguns complexos fatores inerentes à cultura e a existência do homem atual (que por ora não estão sob questão), as possibilidades de alienação e dependência, de uma substituição no modelo relacional humano e de algumas outras consequências também estão presentes nesse modelo. E estão aí demonstradas na vida de pessoas comuns do dia-a-dia.

Enfim, considerar o “virtual” - algo que tem significados bastante complexos e abrangentes desde a Filosofia, a Física e a Tecnologia da Informação - como paradigma de relacionamento humano é abrir uma janela para um horizonte de possibilidades que podem ser valoradas sob alguns critérios e parâmetros a apontar para um sentido positivo ou negativo. De qualquer modo, ao tratar a questão, sempre será interessante optar pela virtude aristotélica da prudência, pelo já afamado equilíbrio como qualidade pessoal, trazendo para tal possibilidade um olhar libertário, uma condição de crescimento pessoal, uma forma de enriquecimento do fenômeno humano, já tão rico e complexo em si mesmo. Se o homem, ao inventar sua primeira ferramenta de pedra iniciou uma reinvenção de si mesmo, ao quebrar o paradigma do real-virtual (ou pelo menos re-significá-lo, fornecendo-lhe uma complexidade tamanha), ele iniciou uma nova etapa do que seja o existir e o exercer o relacionamento eu-tu, imprescindível para a própria existência.


Evandro Lui

Pensar é inevitável, refletir é opcional, meditar é espiritual. Ler é enriquecedor e escrever é um privilégio pelo qual ouso me arriscar. O viver sempre nos provoca e eu traduzo algumas provocações em palavras..
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