ressignificando obviedades

O Logos no projeto de construção do ser. Alteridade dialógica como experiência radical.

Evandro Lui

Pensar é inevitável, refletir é opcional, meditar é espiritual. Ler é enriquecedor e escrever é um privilégio pelo qual ouso me arriscar. O viver sempre nos provoca e eu traduzo algumas provocações em palavras.

a SUPREMACIA econômica

O planeta é de todo e qualquer ser humano. Ou melhor, o planeta é de todo e qualquer ser vivo! Sem planeta, não há vida; sem a natureza, não se tem apenas a extinção do recurso, mas da existência. Aliás, incoerente foi o momento que se passou a considerar a natureza (assim como ao ser humano) como recurso. Antes de assumir esse papel, o planeta é a CASA de todos nós. Nem mais de um, nem menos de outro. Sem ele não existem nações, quanto mais suas ambições. E como se pode perguntar: quem vai pagar a conta?


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Um dos temas que me intrigam na atualidade é a incoerência e falta de lógica da vida humana no que tange a administração dos recursos naturais, ao progresso científico, enfim, aos rumos que o homem dá à sua própria História. Que a vida não é lógica, nem linear, nem coerente eu já desconfiava. E que o homem também assume esses mesmos adjetivos, também concordo. Mas existem questões que afrontam o bom senso coletivo e que merecem ser melhor discutidas e consideradas.

Se fizermos um paralelo da economia e do poder do capital sobre o mundo todo, veremos que, mais do que nunca, o dinheiro se transformou no tótem Mamon. Diariamente vemos os fechamentos da NASDAQ, da BOVESPA e de algumas bolsas de valores de importância no mundo. A crise econômica é o centro do rumo que a História vai tomar. Os recursos naturais devem ser discutidos para que haja um desenvolvimento sustentável, ou seja, é a natureza se adequando aos interesses (veja bem, interesses, não necessidades) do homem e não o contrário. Enfim, exemplos não faltam de quão incoerente é a postura das nações e dos grandes conglomerados frente ao capital e seu significado. E poderíamos mesmo dizer que essa é, pelo menos em parte, a nossa postura também.

Considerando a questão da centralidade da economia na roda da vida global, podemos facilmente constatar que o crescimento econômico de um país supera em importância o seu crescimento enquanto nação. Afinal, note você a proporção a que se referem os telejornais e programas televisivos ao crescimento econômico da China, do Brasil, dos países da Europa e dos Estados Unidos em relação aos números do IDH - Índice de Desenvolvimento Humano desses países em seus avanços ou retrocessos. Ora, não seria muito mais correto e lógico considerar o desenvolvimento de uma nação na sua totalidade? Não seria muito mais honesto considerar o "crescimento" de um país olhando para sua educação, para seu sistema de saúde (todos aspectos do IDH) além do capital de que ele dispõe? Me parece que essa seria uma visão um tanto quanto mais "humana". Mas não é assim que ocorre. A visão econômica supera em larga margem a consideração sobre quais outros aspectos que se possa levantar.

E não pense você que isso é exclusividade das relações internacionais. Trabalho em uma empresa que tem treze anos de história. Pode-se dizer que pelo menos a cada três ou quatro anos, ela duplicou o seu tamanho. Hoje, seu patrimônio é pelo menos quatro a cinco vezes maior do que a uma década atrás. Mas não confundo crescimento com desenvolvimento. É certo que desenvolvimento é uma palavra um tanto quanto complexa que pode assumir amplos significados, mas aqui, proponho pensar o termo enquanto algo mais abrangente do que simplesmente 'crescimento'. O crescimento econômico, estrutural e patrimonial pode ser evidente, mas o desenvolvimento das metodologias, das pessoas e da corporação em si pode não ser tão notável aos olhos mais descuidados. Assim, qual a vantagem em obter um crescimento a todo custo quanto o conjunto não se desenvolve? Se esse é o cenário das nações - e ressalte-se aqui o Brasil - também o é em uma série de empresas. O lema é "crescimento econômico a todo custo".

E isso atinge a esfera pessoal. É sabido que, para que cada cidadão do planeta tivesse o mesmo padrão de vida de um americano, seria necessário que houvessem de três a quatro planetas Terra para sustentar a vida. E qual é o objetivo de cada cidadão que galga melhores posições sociais? Aumentar o seu padrão de consumo. Veja o exemplo da Índia, talvez um dos países com as mais extremas desigualdades: enquanto milhões de pessoas entram na tão sonhada classe média desse país "emergente", esbanjando milhares de dólares em ouro e em tradições culturais caríssimas, outros tantos milhões morrem de fome sem ao menos acesso a água, roupas, moradia e a condições mínimas de higiene. Então me pergunto novamente: que crescimento é esse? Qual é a vantagem em garantir que alguns milhões de pessoas no nosso país tenham entrado na classe média quando seu maior objetivo é consumir como fazem as pessoas de classes sociais superiores? Não seria muito mais justo garantir que o maior contingente do todos tivesse acesso ao NECESSÁRIO do que uma parcela menor desse todo tenha acesso ao SUPÉRFLUO? Podemos ver que a supremacia econômica assumiu a consciência. Como diria um professor meu, deu margem ao surgimento da maior crise da humanidade: a crise do ser e do ter.

Essa supremacia é tão incoerente que contamina a visão que o homem tem de si mesmo, do outro, do planeta e até de Deus. Veja por exemplo a história das grandes convenções em prol do meio ambiente. Em Kyoto, no Japão, a nação mais poluidora do mundo - os EUA - não foram signatários do acordo para reduzir os níveis de poluição do planeta. Décadas depois, na tão propagada, mas pouco efetiva Rio +20 (alguém já disse que Rio + 20 = 0), discute-se "quem vai pagar a conta". Ora, essa questão é em si ridícula e absurda. O planeta não é nosso, não é dos americanos, dos chineses, tampouco dos europeus. O planeta é de todo e qualquer ser humano. Ou melhor, o planeta é de todo e qualquer ser vivo! Sem planeta, não há vida; sem a natureza, não se tem apenas a extinção do recurso, mas da existência. Aliás, incoerente foi o momento que se passou a considerar a natureza (assim como ao ser humano) como recurso. Antes de assumir esse papel, o planeta é a CASA de todos nós. Nem mais de um, nem menos de outro. Sem ele não existem nações, quanto mais suas ambições. E como se pode perguntar: quem vai pagar a conta?

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Com essa visão, o homem é um recurso, o planeta é um recurso (concebido de maneira idiota como inextinguível), o outro é um recurso, eu sou um recurso e até Deus é um recurso - pelo menos para a teologia da prosperidade. Ou seja, a supremacia econômica amarrou os níveis globais, corporativos e conscientes da existência humana. E com isso, alienou o homem da sua realidade. A realidade é muito mais complexa e importante do que o simples sobe e desce do dólar. A vida não se resume a isso. Se discorda, experimente passar por uma crise pessoal grave e verá que sábio é o ditado que diz "se você tem um problema que se resolve com dinheiro, então você não tem um problema". Posso até ser um pouco utópico e romântico, mas é preciso romper com a supremacia do capital na vida do mundo como um todo e na vida do cidadão na sua individualidade. Ouso dizer que só será possível uma vida feliz após esse desenlace. Toda visão reducionista é perigosa e tudo aquilo que confina o homem a qualquer uma de suas várias e complexas características é inverídico e irreal, por isso, ilusório.

Uma das metas de se vencer a crise econômica na Europa é investir bilhões (ou trilhões, não sei) na economia. O leve efeito colateral é a demissão de MILHARES de trabalhadores. Uma das formas de se vencer a alta do dólar no Brasil é injetar incentivos ao consumo em detrimento de qualquer tipo de investimento que faça diferença na vida do país enquanto nação. Afinal, para que eu preciso de hospitais e escolas decentes, de transporte público de qualidade e de segurança se eu posso comprar um TV de LCD de 52 polegadas (nem sei se existe esse tamanho)? A lógica ilógica e incoerente está mantida. Em todas as situações!

Como definiu Abraham Maslow, um dos maiores teóricos da Psicologia na temática da motivação humana, o aspecto financeiro não é o maior reforço para o ser humano. Este tem antes, necessidades pessoais enquanto ser humano (e não enquanto recurso) muito mais inerentes a sua natureza de homem: o reconhecimento pessoal, a necessidade de amar e ser amado, a necessidade de pertença grupal e da coletividade, entre outras. Enfim, a visão de que o palpável crescimento econômico basta-se a si mesmo é ideológica e mentirosa. Pelo menos se consideramos o ser HUMANO na sua essência.

Também podemos pensar com Ed René Kivitz que considera que o dinheiro NÃO É neutro. Quando lemos a Palavra - a Bíblia - conhecemos o tarimbado versículo: o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males. E daí concluímos que o dinheiro em si é neutro. Mas a neutralidade desse ente é, no mínimo, discutível. O dinheiro tem o poder de despertar sentimentos humanos profundos. Ele tem o poder de causar efeitos maravilhosos ou devastadores. Ainda que isso tudo seja seja fruto do coração humano e o dinheiro, um ente primariamente abstrato, não podemos assumir a sua neutralidade com o caráter de inocência partícipe do senso comum. Jesus advertiu quanto a Mamon. É preciso tomar cuidado. O Cristianismo também não está livre de "seguir com a cultura" ao invés de anunciar a contra-cultura, como já cantou uma famosa banda de rock. Nós fazemos parte da lógica que eu pensei acima. E dela precisamos nos desvencilhar.

Como sempre indico, é preciso refletir. É preciso dizer sim ao CONSUMO CONSCIENTE, um jargão muito bonito e muito alinhado com uma consciência coletiva apurada, mas que muitas vezes fica somente no discurso. O terreno de toda e qualquer mudança para o mundo começa na nossa própria consciência que pode mudar a nós mesmos. Como disse Renato Russo, 'não adianta mudar o mundo, tem que mudar a gente'. Enquanto o cidadão comum não tiver a capacidade crítica de refletir sobre tudo isso e muito mais, todas essas questões não passarão de um mero discurso. Enquanto ele se entope de entretenimento (já viu como fazem sucessos os INFINDÁVEIS reality shows?) e negligencia a sua realidade, o mundo continua a girar a despeito da ignorância da grande massa e dela (às suas custas) extraindo sua subsistência. Enquanto isso, vivemos como cantou Zeca Pagodinho, no seu famoso samba "deixa a vida me levar". Nós vivemos uma vida de fato, ou a vida simplesmente vive a gente?


Evandro Lui

Pensar é inevitável, refletir é opcional, meditar é espiritual. Ler é enriquecedor e escrever é um privilégio pelo qual ouso me arriscar. O viver sempre nos provoca e eu traduzo algumas provocações em palavras..
Saiba como escrever na obvious.

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