ressignificando obviedades

O Logos no projeto de construção do ser. Alteridade dialógica como experiência radical.

Evandro Lui

Pensar é inevitável, refletir é opcional, meditar é espiritual. Ler é enriquecedor e escrever é um privilégio pelo qual ouso me arriscar. O viver sempre nos provoca e eu traduzo algumas provocações em palavras.

A objetividade e a (?) neutralidade (?) dos fatos

Onde fica a objetividade dos fatos e das conclusões? Onde fica a neutralidade? No que podemos confiar como verdadeiro no meio de tudo o que nos chega? Qual o percentual disso que, em não sendo verdadeiro, nos aliena rumo a conclusões puramente ideológicas vinculadas a interesses escusos?


Certo professor da universidade nos dizia que a neutralidade é uma utopia. Nosso mundo é constituído de fatos objetivos. Não somente deles, mas são eles que sustentam em grande parcela a nossa existência. E a neutralidade é um atributo requerido por diversas áreas do conhecimento humano, dentre elas a ciência. Mas, segundo uma breve exposição desse professor, a neutralidade científica é uma utopia. Nem o estudioso que se debruça sobre números ou letras pode lançar mão dela e garantir que está imune a qualquer tipo ou parcela de influência que prejudique a pureza de sua neutralidade.

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Um programa de entrevistas me fez pensar nesse assunto algum tempo atrás. Ele entrevistava um climatologista que defendia a tese de que o aquecimento global NÃO É causado pela ação humana, pelo menos em essência. Segundo seu relato, ele é um dos cientistas que não tiveram crédito na famosa Eco 92 por dialogar sob pressupostos contrários àqueles que vigoravam naquela época. Não obstante, num pequeno trecho de uma importante revista de circulação nacional foi possível notar que a corrente de estudiosos que pensam como esse entrevistado só fez crescer desde a década de 90. Até mesmo um dos mais famosos ativistas americanos do clima "virou a casaca" após algumas conclusões sobre o assunto. O que quero considerar é que existe um órgão da ONU voltado para estudos dessa natureza, o IPCC - Painel Intergovernamental para as Mudanças Climáticas. Esse órgão é composto de cientistas de diversas especialidades e nações de quase todo o planeta. Esse órgão coleta dados e informações das mesmas fontes que aqueles que defendem as opiniões contrárias. Como pode? Nesse campo não deveríamos ter discussões tão acaloradas como num terreno um pouco mais abstrato, já que estamos falando de dados científicos e suas interpretações científicas. E, pela minha rasa noção sobre o assunto, os instrumentos de medição e controle não são tão variantes ao ponto de se concluir posições notadamente contrárias somente pelas informações obtidas.

É justamente esse o ponto. Aqueles que defendem que o aquecimento global não acontece em função da ação do homem sobre a natureza acusam seus oponentes em um quesito: justamente na objetividade e na neutralidade dos dados e interpretações dos fatos científicos! A ideia dessa corrente é que o aquecimento global ocorra simplesmente como um movimento do clima durante a longa história do planeta. Segundo seus raciocínios, os dados mostram que a correlação desmatamento - emissão de gás carbônico na atmosfera X aumento da temperatura do planeta não são lineares, nem ocorrem de maneira diretamente proporcional. Os momentos mais quentes da história moderna não coincidem com os picos de desmatamento ou queima de combustíveis fósseis por parte do ser humano. Pelo contrário, os dados considerados sob uma cronologia um pouco mais estendida e dilatada mostram que o planeta está esfriando! E a acusação é de que, mesmo os dados sendo os mesmos, existe um "interesse" por detrás das conclusões que se tiram a partir desses dados. E esses interesses, nesse caso, funcionam para criar um tipo de "alarme" generalizado no mundo todo, o que pode servir a algum propósito do qual ainda não temos muitas ideias. Existem exemplos para essa conclusão. Não conheço todos e precisaríamos de um espaço consideravelmente maior para analisá-los, mas há casos onde as decisões sobre o que concluir ou não concluir, o que divulgar ou não divulgar saíram do campo da ciência e passaram pelo campo político. E aí, perderam completamente a neutralidade. E junto com ela, a objetividade. Também, quanto ao meu propósito, não tenho por pretensão julgar se os ativistas pré-aquecimento global ou os contrários estão certos ou errados. O que proponho refletir é apenas a neutralidade e a objetividade dos fatos, não a veracidade da corrente A ou B.

Um outro caso que me ocorre é a análise feita pelo cineasta americano Michael Moore, um dos maiores ativistas anti-Bush dos Estados Unidos no seu documentário Tiros em Columbine (baseado na trágica história do estudante universitário que abriu fogo numa Universidade na cidade de Columbine). Nele, Moore analisa criticamente a política americana sobre a posse, venda e controle de armas. Ele descreve como foi a estratégia governamental para provocar o "terror coletivo", instalando em todo o país uma atmosfera de medo e pavor através dos meios de comunicação. Isso, claro, servindo a interesses político-econômicos de uma das maiores indústrias bélicas do mundo. Assim, os fatos, teoricamente objetivos e exibidos com neutralidade e imparcialidade demonstraram ser todos esses adjetivos questionáveis. É a informação servindo a interesses, sejam eles políticos, econômicos ou de qualquer outra natureza. No outro caso, é a ciência servindo a interesses da mesma ou de outra espécie.

Onde fica a objetividade dos fatos e das conclusões? Onde fica a neutralidade? No que podemos confiar como verdadeiro no meio de tudo o que nos chega? Qual o percentual disso que, em não sendo verdadeiro, nos aliena rumo a conclusões puramente ideológicas vinculadas a interesses escusos?

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Essas são algumas perguntas que faço a mim mesmo. Penso que isso coloca em xeque muitas das nossas certezas sobre algumas questões. O ser humano, além de todas as suas dimensões, é um ser político e política tem a ver com interesses. Assim também o ser humano tem em si uma ponta de natureza egoísta, seja ela prevalente ou não em sua vida. Soma-se a isso a nossa lógica capitalista que governa o mundo e o dinheiro e o poder como símbolos dessa lógica avassaladora que não respeita a ética, não respeita a vida, muito menos o ser humano. Como podemos encontrar a segurança dos fatos diante de tudo isso?

Nesse texto, há abundância de perguntas. A intenção é justamente essa: que você refaça a si mesmo algumas delas e construa suas respostas. Assim, será possível reavaliar alguns aspectos de nossa visão de mundo e dos fatos que nos chegam diariamente.


Evandro Lui

Pensar é inevitável, refletir é opcional, meditar é espiritual. Ler é enriquecedor e escrever é um privilégio pelo qual ouso me arriscar. O viver sempre nos provoca e eu traduzo algumas provocações em palavras..
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