Thaís Franco

Para se perder no tempo, vagar pelo que pode não ser o que eu acho, nem o que você acha, sendo como for, tem de ser delicioso

Somos enganados, e sabemos disso!(?)

Segue assim: acorda, bota suas roupas descoladas, pega seu smartphone, seus fones de ouvido, põe pra tocar um Índie, vai pra rua. Mal presta atenção no seu redor, não vê o cara que passa fome, ou a criança que é alienada. Chega, cumprimenta todo mundo, debate as mazelas da humanidade, a frieza do mundo, os seus sonhos. Sente-se incrível, coerente. Com seus all-stars e seus ideais de coca-cola, seguia a vida acreditando em tudo que (ou)via, nem por um momento pensou que era tão ímpar quanto todas as outras pessoas, sua contracultura era enlatada e seus ideais em massa.


enganados1.jpg foto por @bettobatatas

Senta, liga a televisão. Está rolando um filme massa, desses cult moderninho, na pegada de Birdman, com várias influências do cinema francês. Redobra a atenção, na verdade não entende completamente aquilo, talvez por procurar nuances de mais, quando na verdade é tudo mais óbvio do que parece.

No dia seguinte, conta para os amigos o filme sensacional que viu, já tinha até mudado o penteado do cabelo por causa dele. Achava que desse jeito teria uma vibe mais intensa. Aliás, quantas vezes não fizera assim, mudava com as trocas de canal. Seu estado de espírito variava com os gêneros, assim como seu discurso, do mais brando ao mais fanático. A verdade é que seus livros e cinemas serviam como guia básico para sobrevivência na vida. Informavam-lhe como ser e fazer, além de dizer sobre os males do mundo e de como enfrenta-los. Assim seguia, sem ter certeza de nada, mas confiante que era tudo verdade.

Essa era eu, possivelmente você também, e aquele cara que está com pensamento perdido enquanto anda no metro, com seus fones abafando a vida real.

Assim são as coisas, nos perdemos num emaranhado imenso de verdades, projeções, desejos, mentiras e mais uma infinidade de artifícios usados pela mídia. Quantas vezes não compramos uma coisa completamente supérfula porque vimos fulano na televisão usar. Eu mesma me lembro de ter implorado a meus pais uma roupa igual das ‘Chiquititas’, e olha que elas vestiam um uniforme de orfanato, numa vida bem da ingrata, e eu tava lá, ‘livremente’ escolhendo aquilo, e me sentindo única e de personalidade inigualável por gostar daquilo.

enganados2.jpg

Mal sabemos nós, reles mortais, que existe um grupo imenso de pessoas extremamente bem instruídas e capacitadas para te convencer a querer aquilo que é diferente ou absolutamente irrelevante. Para além dos sintéticos comerciais de 30 segundos, há a propaganda disfarçada de ‘vida real’, quando em um filme alguém, bastante irritado, chega em casa abre a geladeira e toma uma Miller, ou quando está com os amigos e bebe coca-cola, e ainda quando vão correr na praia com seus cachorros e vestem Nikes. São tantas imagens e referências, desde a tenra idade que é realmente difícil distinguir real e inventado, justo e certo, vida e qualquer outra coisa.

Propaganda e publicidade são termos primariamente definidos para usos distintos. Enquanto a primeira etimologicamente significa propagar, e dai o mote de compartilhar uma ideia, e o último vale para propaganda comercial, uma manipulação de informação para um fim diferente, enquanto a propaganda deve ser imparcial a publicidade que influenciar aquele que a vê, usa de exageros, verdades seletivas e omissões. Aqui no Brasil essa diferença é meio confusa, pois usamos ambos os termos meio que misturado, mas o que realmente importa é quão frágil é a personalidade, quando a todo momento tem um fulano experimentando novos jeitos de nos convencer.

enganados3.jpg

Existem as propagandas óbvias, anunciadas em cada comercial, produtos ou serviços vendidos, por vezes de forma escrachada como os hipnotizantes reclames da Polishop, ou os que vendem uma experiência como são os delicados de perfume. Mas o que realmente impacta é aquele divulgado aos poucos, que vai penetrando o subconsciente, com tamanha força que prende a todos num mesmo padrão de agir e pensar.

enganados4.jpg

Para além das divulgações de produtos nos filmes, mostrar a ‘realidade’ é sua função mais perigosa. Existe um padrão comportamental presente em cada um dos meios de imagem. Nos filmes se você, mulher, não for magra, e bem arrumada e levemente submissa, nada dará certo, então quando percebe, tenta mudar, mas só é realmente possível sair dessa situação quando um homem lindo e viril vem te resgatar. Você homem, tem uma área de ação muito mais ampla,mesmo assim tem algumas regras, tipo, seja preferencialmente malhado, tenha o rosto quadrado, e os cabelos milimetricamente bagunçados. Embora sempre tenha existido padrão físico/estético sempre foi presente, há uma diferença imensa entre o alcance a propaganda em questões quantitativas – número de gente atingida por isso – mas também qualitativa, como assim? Explico!

enganados5.jpg

O cinema (aqui incluo os filmes quebrados em fascículos, como novelas e seriados) dita como deveríamos nos vestir para estar na moda, e como nos vestir para ir contra a moda, nos ensina como falar ou agir em determinadas situações, como pensar e ser na vida, até mesmo o que sonhar. Se prestar bem atenção, poderia até dizer que existe um guia prático de desejos, que podem inclusive ser setorizado em: ‘desejos de consumo’, ‘desejos de experiência/vivência’, ‘desejos de gulodice’ ‘desejos de prazer’, dentre outros.

enganados6.jpg

E ai, voce se pergunta: ‘Mas, como assim querem controlar meus sonhos, eu sou independente, imagens jamais me influenciarão!”.

enganados7.jpg

Mas é isso mesmo, a realidade é que somos manejados, e aparentemente nem é tão difícil assim, vivemos absolutamente sob padrões sociais e de comportamento, vestimenta, exatamente aqueles vendidos nas mais brilhantes e coloridas imagens. Quando menos esperamos, já existem pacotes de viagem especiais para visionários, para apaixonados, para aventureiros, tudo é dividido e rotulado, nossas opiniões vêm em uma garrafa de refrigerante, ainda mais, parece estar intrinsecamente ligado ao nosso meio de viver, dificultando assim a quebra de correntes metafóricas que representam os padrões.

Somos manipulados, sabemos disso (mesmo que em partes), no entanto, fica o desejo dentro de cada um de nós em ser único, fica a vontade de viver o que for mais belo, e de um dia, quem sabe, descobrir como lidar com essa maluquice de capitalismo selvagem e a constante cata para se tornar uma pessoa verdadeiramente cosmopolita, mesmo saber direito o significado da palavra!

Obs.: Cosmopolita: ETIM gr. kosmopolítēs 'cidadão do mundo'


Thaís Franco

Para se perder no tempo, vagar pelo que pode não ser o que eu acho, nem o que você acha, sendo como for, tem de ser delicioso.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @obvious, @obvioushp //Thaís Franco