reticência

Faz escuro, mas eu canto.

Sálvia Haddad

Faz escuro mas eu canto.

Nós e a soberba: um caso de amor

A soberba humana é algo impressionante. Alguém se julga melhor que Taís Araújo e desfere ataques nas redes sociais. Outro propõe uma lei que determina o que é família, excluindo qualquer outra configuração familiar. Alguém interpreta a lei sagrada à seu modo e funda um “Estado” para dizimar os dissidentes. Soberba e mais soberba. A maturidade traz a certeza de que tudo é relativo e dinâmico. Somos tão pequenos! Quem somos para agir com intolerância diante de opções diferentes da nossa? Daqui alguns anos nenhum de nós estará aqui, porque somos pó. Somos um punhado de pó metido a besta.


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O tema de hoje é recorrente, afinal, os noticiários falam com frequência de acontecimentos gerados pela intolerância. Não há como escapar, as barbáries de além-mar impõe o assunto em casa, no trabalho, nas redes sociais.

O que mais chama minha atenção nisso tudo é a soberba humana, mãe da intolerância. Alguém sempre acha que seu ponto de vista – seja sobre que assunto for – exclui os demais. A lista de eventos é interminável.

Alguém se julga melhor que a Taís Araújo e desfere ataques nas redes sociais porque, diferente dela, ele é branco. Outro propõe um projeto de lei que determina o que é família, e por acaso esta definição bate com a configuração da família dele. Alguém acredita ter finalmente entendido qual a correta interpretação da lei sagrada e funda um “Estado” para dizimar quem não esteja na sua linha de pensamento. Soberba, soberba e mais soberba.

A maturidade traz a certeza de que absolutamente tudo é relativo, subjetivo, e pior – ou melhor – é dinâmico. Somos tão pequenos e acreditamos numa espécie de grandeza que nos legitima a apontar dedos. Quem sou eu para agir com intolerância diante de opções pessoais que diferem da nossa? Daqui alguns anos nenhum de nós estará aqui, porque somos pó e ao pó voltaremos. Somos um punhado de pó metido a besta, para usar jargão de minha terra.

Sem falar que agora quem vai pagar o pato são os refugiados inocentes. Pelo pecador, pagam os santos. Um ramo de joio vai por a perder a plantação de trigo inteira. As maiores vítimas dos autores dos atentados serão à eles equiparadas. E famílias morrerão. E os ataques continuarão ainda que o fluxo migratório seja contido.

Eu já estou agradecendo aos céus meus trinta e oito anos, porque devo ter apenas mais uns trinta pela frente e não estarei viva para ver muito mais atrocidades. Alívio me define. A humanidade dá uns passos à frente e vários para trás, evolui para encontrar água em Marte e retrocede para negar acolhimento a refugiados de guerra. Supera ranços culturais para eleger um presidente americano negro e retrocede aos xingamentos contra a bela Taís. Estamos caminhando em que direção? Porque eu já me perdi faz tempo.

Reflitamos. Reflitamos sobre o que está ao nosso alcance: nossas pequenas intolerâncias cotidianas, nossos rancores pessoais e nossa atitude de soberba. É o que nos resta: avaliar qual a nossa participação – ainda que diminuta – nos ataques às torres gêmeas e nos atentados de Paris, entre tantos outros.


Sálvia Haddad

Faz escuro mas eu canto..
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