reticências de um divã

Alusões ao mundo que existe dentro de cada peito

Hilane Tawil

Entre a vida que desabrocha no papel e a ponta da caneta, estão o teclado e a tela. No meio deles, uma jornalista que conta histórias pra conter o inconformismo de uma alma que insiste em voar pra longe

Marooned e a ilha da solidão

A música Marooned do Pink Floyd retrata, com seus acordes melancólicos, a solidão de quem está distante e sozinho em uma ilha isolada. Como seria aproveitar a solidão nas ilhotas em que, por vezes, somos obrigados a nos recolher?


Division Bell: sino do parlamento inglês que é tocado quando as discussões e argumentações são divergentes entre os parlamentares, culminando em votação. É também o nome do famoso álbum do Pink Floyd que tem como tema-central a comunicação. No disco, lançado no ano de 1994, o sino simboliza que a conversação é o meio mais eficaz de resolver todo tipo de objeções.

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Com letras progressivas e psicodélicas, o Pink Floyd alcançou o reconhecimento mundial por suas experimentações e autenticidade. Uma das bandas mais bem-sucedidas da história do rock, a genialidade de suas composições ainda ecoa mundo afora. Marooned é uma das mais belas faixas instrumentais já lançadas pela banda e presente no CD The Division Bell. Seus acordes melancólicos são um convite à reflexão. Inclusive, em 1995 eles receberam um Grammy de Melhor Performance de Rock instrumental pela música.

Composta por Richard Wright e David Gilmour, seus sons de ondas e gaivotas remetem à uma ilha isolada. Gilmour e sua guitarra tocam entristecidos a solidão de quem está preso, distante e sozinho na ilhota e em seu mar de dúvidas. Quantos de nós, agora mesmo, está sozinho apenas por desejo? O entendimento da solidão enquanto sofrimento ao que está imposto pelo viés social é uma análise fundamentalmente freudiana.

Este sentimento é também uma atitude de refúgio ao eu interior, uma corrida de volta ao mundo próprio, uma reação ao desprazer. Alinhado ao conceito de solidão, está a compreensão de Freud acerca do desemparo, uma das condições do ser humano. A dependência ao desejo e ao olhar do outro se torna perigosa quando a própria vontade é anulada baseando-se no julgamento das pessoas. Não sabendo viver sem a aprovação dos demais, estar sozinho se torna impossível.

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Assim irrompem a tristeza e a angústia de estar na própria companhia, desacompanhado de um ideal de grupo ou relacionamento. Quem não lida com os desafios constantes da natureza humana, negando o desamparo e a solidão, acaba se unindo a pessoas e ambientes somente pela necessidade de presença do outro.

Acontece que mesmo rodeados de gente, sentir-se só em meio à multidão também acontece. Somos seres solitários, não conseguimos partilhar plenamente nossas sensações com os demais. A partir das percepções e vivências de cada um é que percebemos o mundo, e isso é tão singular que jamais poderá ser dividido.

Do peso de nos sentirmos sós podemos aprender a carregar a nossa existência, testar nossos limites e nos responsabilizar por nossas faltas. Perceber, em isolamento, a densidade de quem somos, é um caminho à construção ou ao afogamento. O aprendizado advindo da solidão acontece quando o universo interior é fortalecido pela certeza de que a companhia dos outros é complemento, pois já somos inteiros.

Só se ama alguém quando a própria solidão não incomoda. Afinal, como podemos cuidar e respeitar o companheiro sem antes aceitar quem se é? Como não culpar o outro pelo desamparo humano, se colocamos na mão de uma pessoa a própria felicidade? Passamos a vida na busca do preenchimento de nossos vazios, recorrendo também à tecnologia e sua promessa de fim das distâncias.

Pelo smartphone, por exemplo, podemos estar sempre em contato com um amigo, parente ou par romântico, e isso cria a equivocada ilusão de que a solidão nunca baterá à porta. Assim muitos se tornam reféns dos meios de comunicação na falsa tentativa de estar perto de quem nos ama, aprova ou acolhe.

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Como escolher estar à parte, por vezes, de um mundo globalizado em que andar em grupo é sinônimo de sucesso? Como permitir ao outro o seu espaço em uma sociedade que pretende controlar tudo e todos? O respirar da vida em isolamento temporário é essencial à condição de recuperação de traumas e conhecimento pessoal. Além do que, a vivência de estar em um breve retiro não pode ser explicada, pois qualquer frase seria limitante.

É necessário treinamento e paciência para aprender a viver com a própria solidão. O vazio interno não pode ser afastado evitando estar consigo mesmo, pois isso nos tornaria desconhecidos de nós próprios. Na maioria das vezes, os vazios surgem quando se perde aquilo que ama e norteia a existência. Assim começam as crises e indagações, que só podem ser superadas com o condicionamento do sujeito em investir amor e libido nele mesmo, o tão falado amor-próprio.

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É ele o começo de todos os amores, pois a única companhia que não pode ser perdida é a de nós mesmos. Se não temos a quem pedir apoio ou compartilhar decisões importantes, podemos celebrar a nossa capacidade de decisão ou sucumbir à necessidade de aprovação de quem não nos acompanha.

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Atravessar a escuridão de sermos um é que inicia a jornada de autoconhecimento, fundamental para a evolução. Existir sendo desconhecido de si é um fardo muito pesado. Querer a aceitação do outro implica na rejeição, pois se alguém não o acolher em sua totalidade, o amor-próprio estando enfraquecido não é capaz de falar mais alto e suprir carências e buracos.

Estudar e compreender a si mesmo é criar a mais poderosa e estável conexão com quem somos e com a pessoa que desejamos ser amanhã. Estar no controle das emoções, perceber limitações e diferenças com o mundo, faz parte do processo de ficar só. Que a solidão seja serena, trazendo o contentamento e a segurança até mesmo numa ilha cercada apenas por gaivotas e pelo mar.


Hilane Tawil

Entre a vida que desabrocha no papel e a ponta da caneta, estão o teclado e a tela. No meio deles, uma jornalista que conta histórias pra conter o inconformismo de uma alma que insiste em voar pra longe.
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