reticências de um divã

Alusões ao mundo que existe dentro de cada peito

Hilane Tawil

Entre a vida que desabrocha no papel e a ponta da caneta, estão o teclado e a tela. No meio deles, uma jornalista que conta histórias pra conter o inconformismo de uma alma que insiste em voar pra longe

O demônio da mulher que não se cala

“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”, Simone de Beauvoir.


Uma mulher faz barulho. Ela grita. Ela incomoda. Ela não se cala e é chamada de louca, levada para o depósito das histéricas. São essas as que eles tentam enterrar. Descem pela garganta dessas mesmas suas porcas mãos e não se convencem quando o canto renasce de seus ventres. Há sede de verdade, há fome de respeito. Os nervos à flor da pele invadem as ruas, as calçadas, as empresas, as escolas. Os cegos bradam do Planalto Central: “Deus”, “família”, “tchau, querida”. Nós vomitamos na cara deles, deuses do falo: Ficaremos. Ela também resistirá.

Eles se dizem machos, os justiceiros divinos, e chegam em casa falando que estão cuidando da família. Às suas esposas “belas, recatas e do lar”, dirão: “pode ficar tranquila, resolverei tudo por você”. Cuidarão também das negras, trans, lésbicas, pobres e marginalizadas? Ou apenas irão dar de costas para as tantas que são abusadas, minimizadas e mortas num país onde a masculinidade é sinônimo de força?

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Questiono de forma tão convicta já sabendo a verdade dos “pais da nação”, que só me resta o nojo. Dizem que sonhamos com aquilo que não irá existir, mas ainda que eles duvidem, nossa arma não descansará. Tenho no papel e na garganta o cansaço de uma vida onde a alma vive do lado de fora. Arquivo o pó das prisões, dos assédios, das aflições cotidianas. Acumulo memórias de “seja uma princesa” ao invés de “seja uma mulher”.

Falo por toda essa podridão e repúdio à injustiça. Há que se embalar no desvio cotidiano de quem muda de caminho para não dar de cara com o abusador. E vem o tango democrático que cala os Direitos Humanos, que tenta afogar a nossa resistência. Brindam às custas de lágrimas negras, vermelhas, pardas, amarelas e brancas o que a maioria faz questão de esquecer. Não lembram das meninas cujas vidas foram interrompidas por falta de oportunidades ou excesso de acidez. Não lembram da luta negra. Ignoram o passado manchado de sangue das centenas que morreram ao abortar.

Apontam e falam: é sapata mas é do bem.

É trans mas faz um bom trabalho.

É preta mas é bonita.

É índia mas tem sabedoria.

É mulher, pobre e favelada, mas até que conseguiu vencer na vida.

Camuflam com “mas” as agressões de quem aperta o volume debaixo da calça ao ver os peitos de uma mulher. Ou o rabo. Como vocês preferem, hipócritas da moral e dos bons costumes? A masculinidade da qual vocês tanto se orgulham lhes foi enfiada pinto adentro. Por quem mesmo? Pelos que riem dos excluídos, dos que se acovardam em bando para fazer chacota das minorias.

Sou um ímã do caos alheio e do meu próprio. Mas continuo sendo eu, sendo mulher, indo contra a bagunça que ainda ensina tantas crianças a continuarem com suas asas engessadas. Não lhes bastará cersiá-los, irão subjugá-los com sua própria estupidez. Não desejo viver em um templo de mentiras. Podem forçar a nossa alma sem permissão, renasceremos. Sustentaremos teimosias. Sem tréguas, faremos doer no peito a fé de quem clama o Deus cristão para esbofetear a face alheia.


Hilane Tawil

Entre a vida que desabrocha no papel e a ponta da caneta, estão o teclado e a tela. No meio deles, uma jornalista que conta histórias pra conter o inconformismo de uma alma que insiste em voar pra longe.
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