Julio Cesar Rodrigues Pereira

Sou apenas um egoista solitário que quer conversar com pessoas inteligentes. A grande vantagem de um blog é que eu posso, pelo menos inicialmente, propor o assunto.

Se você não sabe a diferença entre o certo e o errado, a solução é simples: pergunte para a sua mãe!

Dificuldades de consciência? Dúvidas sobre qual a forma correta de agir? Seus problemas acabaram! Apresentamos aqui um novo e revolucionário critério de moralidade que solucionará a maioria dos seus dilemas morais!


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Um dos maiores filósofos da história, Immanuel Kant escreveu, dentre tantos livros definitivos, dois textos que até hoje, mais de 200 anos depois da sua morte, são recorrentes quando se discute ética na filosofia: a “Crítica da Razão Prática” e a “Fundamentação da Metafísica dos Costumes”. A genialidade destes textos somente pode ser equiparada a sua complexidade conceitual.

Desta maneira, é bem provável que se você tiver algum dilema moral específico e pegar um livro do Kant, ou de qualquer outro grande filósofo que trate do tema ‘ética’, fique desapontado. Filosofia, em sendo teoria por excelência, mesmo quando discute questões “práticas”, assim o faz de um ponto de vista universal. Para a filosofia, a ética não só não é casuística, como também não pretende ser um manual de bom comportamento. Se for autoajuda o que você busca, tente Lair Ribeiro, nunca Platão.

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E por que um texto de ética não pretende ser um manual de orientações?

O próprio Kant responde a isto. A um de seus críticos que o acusa de não trazer nenhuma novidade ou mesmo nenhum preceito moral novo, retruca: “e você esperava que eu trouxesse “bagual”? (o ‘bagual’ vai por minha conta, Kant viveu na Alemanha e não no Rio Grande do Sul). “Você julgava mesmo que a humanidade estivesse esperando, até hoje, pelas palavras de algum iluminado filósofo para descobrir a diferença entre o certo e o errado?.”

Parece que, pelo menos implicitamente, para o Kant a gente já sabe a diferença. Então, por que diabos ele escreveu livros de ética? Para contar aquilo que a gente já sabe? No final deste texto, eu respondo. Por enquanto, vamos apenas ver o que isto pode significar: ‘O homens já sabem a diferença entre o certo e o errado’.

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Imagine que você tenha algum dilema moral a respeito de algo que pretende fazer, ou mesmo quanto a algo que já tenha feito. É claro que, para ter dúvidas, você não pode andar pelo mundo com Verdade no bolso do seu colete. Se você é uma pessoa que segue rigidamente os preceitos de algum “pastor televisivo” ou similares, você não tem dúvidas. Você sabe perfeitamente que tipo de roupa deve vestir, com que tipo de pessoas deve se relacionar, de que forma deve se alimentar, se deve ou não fazer sexo e, principalmente, com quem deve fazer, etc.

Qualquer problema que você tenha, a solução é simples: você pergunta para o pastor e ele responde direitinho para você. Você pode até ficar tão feliz com a resposta que, além do dízimo mensal, acrescentará uma oferta para as obras sociais da igreja.

Se este for o seu caso, duvido que você esteja lendo um blog como a Obvious, mas quem sabe? Kant diria que você ainda não saiu da menoridade e, pasme, que você mesmo é o culpado disto. Kant morreu antes de conhecer a raposa do pequeno príncipe, mas creio que ele assinaria embaixo desta minha analogia: você é responsável por aquilo em que acredita.

Agora, se você tem dúvidas, tente este experimento mental: você contaria para a sua mãe/pai, sem sentir vergonha ou remorso, o que você fez ou pretende fazer? Você olharia diretamente nos olhos dela/dele e revelaria a sua intenção ou relataria a sua ação?

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É claro que você sabe que as mães costumam ter amigas e que, quando elas se reúnem, não só mostram as fotos dos seus pimpolhos, como também conversam sobre os feitos de seus filhos. Pense então: a sua mãe contaria com orgulho para as amigas aquilo que você fez? A sua ação ou intenção seria motivo de júbilo para a sua mãe?

Se a resposta for negativa, então não faça aquilo que você pretende fazer ou procure consertar aquilo que você fez – muito provavelmente foi ou será errado.

Certo, mas você poderá me objetar o seguinte: “E se eu acho que a minha mãe é uma Lucrécia Bórgia e também sei que mamãe Lucrécia é, no seu círculo de amizades, a mais cândida e boazinha das criaturas presentes; o mesmo raciocínio também se aplicaria?”.

Bem, se este for o seu caso, parabéns, você é um perfeito canalha, sorte nossa que você é minoria.

Agora se você for um perfeito canalha, você nunca terá dilemas morais. Na sua hierarquia de valores, é moralmente certo tudo aquilo que lhe proporciona satisfação, e moralmente errado tudo aquilo que lhe desagrada. O ‘outro’, para você, basicamente não existe enquanto indivíduo, ele é apenas um meio para satisfazer suas necessidades ou desejos. Você nunca terá um dilema moral, simplesmente por que você não tem consciência moral.

Tudo bem, quem sabe você não é um canalha, você é só um chato. Você levanta então a seguinte questão: “E se eu for filho do Chefe do Estado Islâmico? Certamente não perguntarei nada para a minha mãe, já que por definição, por ser mulher, ela nada sabe. Perguntarei ao meu pai sobre a conveniência ou não em decapitar infiéis, jogar alguns gays de cima de um prédio, apedrejar algumas adúlteras, etc. Como fica o seu critério de certo/errado?”.

Aí, definitivamente você é um chato!

Realmente o meu critério “pergunte para a sua mãe” se complica. A menos que você seja filho da minha amiga Andréa Faggion - o que é bem difícil, já que ela é muito jovem - aí meu amigo/amiga não vai ter saída, não tem mãe que resolva este tipo de dificuldade!

Você vai ter que ler o Kant! É justamente para discutir questões deste tipo que existem os livros de Ética.

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O problema é que depois de ler o Kant você vai se dar conta de como é pobre e insuficiente este meu critério de moralidade. Talvez ele até resolva boa parte das questões que se colocam no seu dia a dia, mas não responde a quase nenhuma demanda racional.

Você vai descobrir que existe uma coisa chamada ‘Imperativo Categórico’, com o qual a Filosofia “briga” a mais ou menos uns 200 anos. Só que aí já pode ser tarde, você pode acabar gostando de estudar Filosofia...


Julio Cesar Rodrigues Pereira

Sou apenas um egoista solitário que quer conversar com pessoas inteligentes. A grande vantagem de um blog é que eu posso, pelo menos inicialmente, propor o assunto..
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