risos

porque as lágrimas eu deixo pra depois

Caroline Neres

Encantando-se facilmente com folhas caídas, algodão-doce e as belezas recônditas das coisas mais simples.

Tulipas em cinzas: uma mulher chamada Claire Underwood

O presente texto é uma homenagem ao personagem de Claire Underwood, da série House of Cards, por sua coragem na desconstrução de si mesma.


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Aqui se pretende falar desta personagem que chegou na surdina, com um papel secundário e, ao final, demonstrou que não precisa das luzes dos holofotes, pois se faz forte entre as sombras. Claire, uma mulher inteligente e implacável, chega e transforma House of Cards em nossa literatura seriada de cada dia, pois para além de uma série apenas sobre poder e manipulação, a personagem permite algo a mais para o telespectador, permite o questionamento, através das inquirições sobre si mesma.

Atuante em uma série que, antes de tudo, se propõe a desconstruir a beleza das idealizações, a personagem também é desconstruída de uma maneira muito humana e que nada se relaciona com ideais. Trata-se de enxergar seus próprios alicerces e perceber que inacreditavelmente você não possui boas fundações e que isso, por mais que nunca lhe tenha afetado até então, passa a afetar de modo incisivo.

Claire se casou aos 22 anos e viveu toda a sua vida, segundo expressão da própria personagem, no banco do carona, pois sempre ficou ao lado de seu marido incondicionalmente, enquanto se esquecia em algum canto qualquer. Não se está aqui a fazer uma crítica à instituição do casamento, pelo contrário, apenas a convivência a fez enxergar algo profundo, uma das coisas que a união pode proporcionar e que pode ser aterradora ou gratificante, no entanto, causa um bom estranhamento quando a personagem se surpreende, em determinado ponto da trama, porque passou mais de metade de sua vida ao lado de Frank; a surpresa dela se transmite ao interlocutor e a todos nós, uma tomada de consciência ácida, daquelas que torna difícil até mesmo respirar, visto a presença de tantos sentidos intragáveis.

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Ao travar uma franca conversa com o personagem Corrigan, um ativista, em meados da terceira temporada, impressiona como a defesa que ela fez ao seu casamento não convence nem a ela mesma, e talvez esse seja o motivo pelo qual ela falava com tanto afinco, para tentar dobrar a si, através de uma repetição incansável, que sabe lá desde quando ela vem inventando. Sua epifania foi avassaladora, visto que traduzia a ressignificação de toda uma vida, e por tal motivo era aterradora demais para ser ouvida, e, portanto, devia ficar guardada no lugar mais recôndito da alma.

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Fato é que esta percepção da personagem diz muito sobre algo cada vez mais presente: de como nós cedemos o controle de nossas próprias vidas, e isto para além de um sentido de próprio livre-arbítrio, mas no sentido de se tornar alheio de si mesmo, de se perder de vista, de não olhar mais para as próprias ações; questão de autocrítica mesmo.

A corrosão continua quando, em uma conversa ordinária, com uma mulher ordinária, esta deixa escapar um pensamento inescrupuloso, mas extremamente verdadeiro: a vontade de não querer viver mais aquela vida, casada com alguém que ela não ama mais, a quem trai para que possa continuar a voltar para casa e cuidar de sua filha. A mulher mente ao final, dizendo que aquilo não era verdade, mas era tarde demais, Claire sabia que se tratava do mais íntimo afã daquele ser, já quase inexistente.

Mas tudo isso, dentro da série, são sinais de que a personagem está abandonando uma postura covarde e está escolhendo outro caminho que, por mais que se mostre totalmente inviável e catastrófico, é o melhor a ser seguido, segundo a perspectiva da personagem, a fim de que ela não deixe de ser quem ela é, ou em suas palavras, para que ela possa se reconhecer ao se olhar no espelho.

Isto se percebe nitidamente na cena em que, após vários minutos de reflexão sentada com uma postura sem igual no limiar da cama, ela se levanta e caminha para a porta. Em uma despedida breve, tudo se desfaz, e o castelo de cartas é soprado para o nada, para um vazio que talvez fosse onde sempre estivesse.

Pois, afinal, imagine passar anos construindo um grande monumento, um castelo, um trabalho minucioso, similar as mandalas dos monges tibetanos, como bem se representa na série, e de repente atear fogo em toda essa construção e vê-la queimar. A metáfora para com os relacionamentos também é implacável e deixa um gosto amargo na boca, uma sensação de que caminhamos para um fim inevitável, onde só sentimos a ruminação do ressentimento, mas também pontua que isto talvez se dê devido a nossa incapacidade de lidar a transitoriedade das coisas da vida e da própria vida.

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O tom épico da trilha sonora desta temporada tão claireana também pincela o cenário sombrio e complexo que permeia a mente da personagem, que de tanto doar seu sangue, acaba por confessar através de palavras titubeantes que odeia. Odeia o fato de precisar tanto de um outro alguém e ao mesmo tempo de ser tão necessária para este outro também. “Em uma ponte, você olha para baixo e se afasta.” Há um abismo no qual Claire se coloca de frente e que, por mais que seja impulsionada por uma vontade, fica paralisada. Conforme as suas próprias palavras: “eu não pulei, eu não me afastei.”

E diante de tantos labirintos, Tom consegue enxergar o que já se tornou indubitável para Claire, e diz para ela que o que vê é “alguém que está perdida. Mas não sei, talvez seja melhor assim. Prefiro imaginar quem você pode ser do que quem realmente é”. Ela está perdida em si mesma e por isso a petrificação, apenas a tentativa de se tornar aquilo que ela é poderá fazê-la sobreviver.

Em que momento a dúvida germinou? Difícil apontar uma delimitação, pois tal como em todas as relações humanas, a certeza e a nitidez são eternas fugitivas. Todavia, isto é irrelevante, eis que há de se exortar a personagem por ter deixado a dúvida entrar e, consequentemente, fazê-la crescer, afinal aqui se encontra o ponto nevrálgico do drama sem fim, não se prostrar frente ao jorro d’água que tudo leva, inclusive partes consideráveis de você mesmo.

E que esta água traga fertilidade para o florescimento de novas tulipas.


Caroline Neres

Encantando-se facilmente com folhas caídas, algodão-doce e as belezas recônditas das coisas mais simples..
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