risos

porque as lágrimas eu deixo pra depois

Caroline Neres

Encantando-se facilmente com folhas caídas, algodão-doce e as belezas recônditas das coisas mais simples.

Da afinidade renegada entre o amor e a morte na visão de Zygmunt Bauman


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A ligação entre o amor e a morte talvez esteja no fato de que ambos nos impulsionam para a vida, em pese todo nosso cinismo pós-moderno que insiste em negá-lo. Bauman, em suas belas obras, transmite a coragem necessária para deixarmos nossa solidão patológica e encararmos a beleza dos amores e desamores em envolvem toda nossa existência.

Em um redemoinho de perguntas acerca da morte foi que chegamos à filosofia e, talvez, seja através do contato com tais questionamentos que se crie a única possibilidade de se viver, com plenitude. Do mesmo modo que, hoje, nos perguntando acerca das nossas atuais relações tão fragilizadas pela solidão dos indivíduos pós-modernos, chegamos a nos questionar sobre o amor e sobre sua influência sobre o humano.

Em seu livro Amor Líquido, Zygmunt Bauman traz seu diagnóstico sobre as relações humanas pós-modernas, que, como esperado, culmina por ser definida pela palavra fragilidade; vários feixes se projetam em nossa vida, nos conectando uns aos outros, mas, os inúmeros feixes apenas avançam pelo prisma quantitativo, e não pelo qualititativo, pois a qualquer momento, pela influência de um pensamento fortuito, uma frase sem ortografia, ou até mesmo por uma mensagem visualizada e não respondida, nos desprendemos de nossas relações, sem remorsos e sem que qualquer tipo de histórico subsista.

Dois grandes elementos intensificaram este estágio atual das nossas relações: a rapidez e a descartabilidade que o avanço da tecnologia e do capitalismo nos proporcionou e também as nossas novas ‘ferramentas de sociabilidade’, que, por via reflexa, também são resultado da tecnologia. A interação virtual foi então criada, afetando todos os tipos de relações interpessoais e com isso, nas palavras de Bauman: “aos que se mantêm à parte, os celulares permitem permanecer em contato. Aos que permanecem em contato, os celulares permitem manter-se à parte...”

Então é tudo culpa do meu Iphone? Bom se fosse, todavia essas ferramentas apenas deram vazão a algo que, antes de tudo, parte de uma escolha intrinsecamente humana.

Bauman então cita Freud ao tratar sobre a nossa dificuldade de amar o próximo, salientando que um dos preceitos fundamentais da vida em sociedade está contida na invocação “amar o próximo como a si mesmo” e assim conclui que “ Somos tentados a concluir, contra o bom senso, que o ‘amor ao próximo’, é ‘um mandamento que na verdade se justifica pelo fato de que nada mais contraria tão fortemente a natureza do homem’. Quanto menor a probabilidade de uma norma ser obedecida, maior a obstinação com que tenderá de ser reafirmada. E a obrigação de amar o próximo talvez tenha menos probabilidade de ser obedecida do que qualquer outra”.

Desta feita, nossa solidão, nossa atual maneira de nos relacionarmos, na maior parte do tempo evitando a perpetuação dos compromissos, evitando todos os ônus possíveis inerentes a toda e qualquer relação humana, se deve as nossas próprias escolhas, fertilizadas na ideia de individualidade e liberdade do ser.

Mas, em que pese todo nosso pragmatismo atual, a experiência de um amor, vivido sob o manto de todos seus versos e avessos, faz com que provemos o sabor do infinito, ao revés, portanto, de toda nossa atual experimentação fugaz sobre todas as coisas.

Assim, na visão de Bauman “O amor e a morte – os dois personagens principais desta história sem trama nem desfecho, mas que condensa a maior parte do som e da fúria da vida – admitem, mais que quaisquer outros, esse tipo de devaneio/escrita/leitura. Para Ivan Klima, poucas coisas se parecem tanto com a morte quanto o amor realizado. (...) Cada chegada de um dos dois é sempre única, mas também definitiva: não suporta, não permite recurso nem promete prorrogação. Deve sustentar-se “por si mesmo” – e consegue. (...) Cada um deles nasce, ou renasce, no próprio momento em que surge, sempre a partir do nada, da escuridão do não ser sem passado nem futuro; começa sempre do começo, desnudando o caráter supérfluo das tramas passadas e a futilidade dos enredos futuros. (...) Nem no amor nem na morte pode-se penetrar duas vezes – menos ainda que no rio de Heráclito. Eles são, na verdade, suas próprias cabeças e seus próprios rabos, dispensando e descartando todos os outros”.

“Assim, não se pode aprender a amar, tal como não se pode aprender a morrer. E não se pode aprender a arte ilusória – inexistente, embora ardentemente desejada – de evitar suas garras e ficar fora de seu caminho. Chegado o momento, o amor e a morte atacarão – mas não se tem a mínima ideia de quando isso acontecerá. Quando acontecer, vai pegar você desprevenido”.

E, se é pensando sobre a morte que encontro forças para viver, pois a iminência da não existência torna existir urgente, então acredito que o mesmo paradoxo se aplique ao amor, ainda que este tenha se tornado tão démodé.


Caroline Neres

Encantando-se facilmente com folhas caídas, algodão-doce e as belezas recônditas das coisas mais simples..
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