roberto denser

Um pé nos anos 50, outro nos anos 2000.

Roberto Denser

Roberto Denser é escritor e domador de abismos.

Carta encontrada entre as páginas de uma edição espanhola de Dom Quixote

Entre as páginas amareladas de uma velha edição espanhola de Dom Quixote, um escritor encontra uma carta de amor escrita nos anos 90 que jamais foi entregue à sua destinatária.


Moinho de Vento.jpg

Estava na casa de um amigo escritor, no Rio, quando começamos a conversar sobre as cartas que escrevíamos antigamente. Eu dizia que sentia falta de me corresponder com pessoas queridas por meio de cartas e que mesmo que me esforçasse para fazê-lo com algumas pessoas, a internet continuava tornando tudo mais frígido: enquanto a carta viajava nas mãos dos Correios, o contato diário ou quase diário que mantinha com minha correspondente por meio das redes sociais já havia minimizado qualquer efeito que a carta pudesse ter sobre ela. Ele compreendia bem, disse, apesar de não se comunicar com ninguém por carta há séculos e só usar a internet para enviar e-mails. Foi então que me falou de uma carta intrigante que encontrara entre as páginas de uma edição espanhola em capa dura de Dom Quixote: comprara o livro num sebo do Rio, e quando chegou em casa e começou a folheá-lo, duas páginas meio amareladas do que parecia ser um diário, escritas frente e verso, caíram aos seus pés. “Era espécie de carta-desabafo, e me deixou deprimido a semana inteira”, disse, “porque parece nunca ter sido entregue e porque o rapaz que a escreveu, acerca do qual só dá pra saber o primeiro nome, parecia sofrer de uma inquietação que eu mesmo já sofri um dia e para a qual o tempo me tornou indiferente. Gostaria de ler mais coisas dele, talvez convidá-lo para um café e conversar sobre isso, explicar que a arte é o melhor caminho.” Respondi que, se possível, adoraria ler essa carta, ao que ele prontamente foi até a estante, pegou o exemplar de Dom Quixote e me entregou: “Parece loucura, mas eu guardo no mesmo lugar. Às vezes me imagino encontrando a moça para a qual a carta se destina e me vejo entregando-a a carta e o livro.” Sorri, disse que faria o mesmo e me pus a ler a carta, o que ele acompanhou em silêncio.

Ao terminar a leitura, estava emocionado, e lutava para disfarçar as lágrimas que, caso eu me encontrasse sozinho, cairiam. Eu não apenas também me identificava com o autor da carta, mas, como meu amigo, passei a lamentar o fato dela aparentemente jamais ter sido entregue. Perguntei se poderia transcrevê-la e postá-la em meu blog, pois, uma vez na internet, talvez fosse mais fácil que, de alguma forma, a garota, hoje mulher, a qual a carta se destinava a encontrasse. Ele achou uma boa ideia e disse que teria feito o mesmo, caso tivesse um blog ou participasse de redes sociais. Assim, transcrevo ipsis literis como o texto se encontrava, e espero que, um dia, ele alcance, enfim, sua destinatária, pois toda história precisa de um desfecho, mesmo as que terminam em reticências.

La Coruña, Abril de 1993

Certa vez ouvi, ou acho que ouvi, que La Coruña é o melhor lugar do mundo para morrer. É estranho lembrar disso agora que estou aqui, mas talvez seja exatamente por isso que essa lembrança meio que se impôs sobre meus pensamentos. Não importa. Na verdade, só queria começar essa carta com uma referência ao lugar de onde escrevo: La Coruña, claro, mais precisamente em um banco de cimento de frente para La Enseada de San Amaro, um lugar tranquilo, mas extremamente solitário — ou talvez só passe essa impressão por causa do horário e do clima: é fim de tarde, o céu está nublado, faz uns oito graus e algumas pessoas caminham por “El Paseo”, provavelmente turistas, hóspedes dos hotéis da região. Venta muito, e pra dizer a verdade eu não sei como vim parar aqui. La Coruña nunca esteve nos meus planos iniciais, para ser mais específico, mas agora que aqui me encontro, a única pergunta que me faço no momento é “Por quê?”

É engraçado. Agora que pus essa pergunta no papel (o moleskine que você me deu antes da viagem, lembra? “Diário de Bordo”, você disse, “para anotar suas peripécias.”), a resposta parece óbvia: eu talvez estivesse à procura de um bom lugar para morrer. Concorda? Claro que não, até consigo ouvir sua voz: você discorda energicamente, mas também não descarta a associação entre essa informação que eu guardava adormecida em alguma gaveta do meu inconsciente e o fato de estar neste exato momento com a bunda congelando sobre o cimento de um banco em La Coruña, no outro extremo da Torre de Hércules. Você provavelmente diria: “Ora, Daniel, é claro que existe uma relação entre a ideia que você fazia, mesmo que inconscientemente, de La Coruña, e o estado de espírito no qual você se encontra atualmente, mas isso não quer dizer que você foi aí para morrer. Você provavelmente foi aí para pensar em como seria morrer ou talvez para perceber que morrer não é o que você quer ou precisa, e sim continuar vivendo, vivaz como sempre foi. Inquieto, inadequado a quase tudo e todos, mas vivaz como uma criança saudável porque é assim que você é, Daniel, e é por amar tanto a vida que você pensa na morte.”

Sorrio ao pensar em você falando isso. Consigo ver os seus olhos bem abertos, um olhar mais convencido do que convincente, querendo verdadeiramente acreditar, e me levar a crer consigo. Em minha imaginação, você usa um vestido preto, meias e botas pretas, e está com os cabelos soltos e franja — pois era assim que você estava quando te vi pela última vez — e não usa maquiagem como também não usava naquele dia porque você sabia que a borraria em algum momento, fosse com meu beijo ou com as lágrimas que derramaria quando a hora do meu voo se aproximasse.

Sinto saudades, Nina, não apenas da namorada com a qual sonhava viver e com a qual projetei todo um futuro pintado com cores exóticas, mas também da amiga, a única amiga que conseguia entender tanto minhas dores quanto minhas piadas e referências, a única que lera os mesmos livros e vira os mesmos filmes que eu. Sei que o tempo e as circunstâncias foram ingratos conosco, mas também sei que fugi por ser egoísta e até um pouco covarde. Egoísta por precisar, antes de qualquer coisa, me sentir encaixado no mundo, e achar que apenas sozinho conseguiria alcançar isso; covarde por ter tido medo de aceitar sua ajuda, que sempre esteve ali: ao alcance de um sussurro. A ironia é que agora penso que talvez tivesse sido melhor com você. Mais fácil com você. Mas você não podia me acompanhar porque seus pais isso e aquilo e aquilo outro.

É isso, é uma confissão. Nina, eu fugi de você porque tive medo de me perder de forma irremediável. O que eu não percebi na época é que eu já estava perdido, e continuo assim. A diferença é que então eu acreditava numa salvação e agora em nada creio, o que me leva a pensar que Lennon é quem tinha razão. Como é mesmo aquela frase sobre ele só ter se encontrado em si mesmo? Alguma coisa sobre ter andado por todos os lugares à procura de si, você deve lembrar…

Ah, Nina, minha nina, pensei que sair do Brasil era a solução. Levado por um romantismo bobo e ingênuo, achei que em mim havia uma necessidade de grandeza a ser preenchida, e que eu a preencheria com uma dessas jornadas líricas rumo a um lugar qualquer, desde que fosse na Europa. Eu sei, é patético e risível, principalmente risível. O que aconteceu depois que cheguei? Um monte de coisas, passei um tempo em Portugal pensando no quanto eu tinha sido idiota por te deixar, dialogando mentalmente com você e te escrevendo cartas todos os dias. Cartas que nunca enviei, como você deve imaginar, e que nunca enviarei, pois já não faz o menor sentido. Sei que você entenderá, como sempre entendeu, como sempre entende. Como é mesmo que você costumava dizer? “Sou a mulher mais compreensiva do mundo”. Uma coisa da qual nunca tive dúvidas, Nina, apenas a mulher mais compreensiva do mundo seria capaz de me suportar como você suportou. Depois Portugal se tornou pequena e previsível demais, então me vi na Espanha fumando haxixe com uns universitários loucos que conheci e respondendo perguntas sobre o Brasil e suas peculiaridades. Agora estou aqui: sozinho, perdido, me questionando se La Coruña é mesmo um bom lugar para morrer e como eu teria que fazer se quisesse seguir daqui rumo à Amsterdã, onde estão os quadros de Van Gogh.

Sinto sua falta. Sinto mais que sua falta, sinto sua ausência, uma necessidade de você somada à saudade. Às vezes vejo algo que queria te mostrar, às vezes penso em algo que queria te dizer, às vezes simplesmente gostaria de estar com você, talvez fazendo nada a dois, talvez fazendo amor num local público tarde da noite, quem sabe enchendo a cara e discutindo Freud, Marx, Bill, nossa vã filosofia, não importa. Faria qualquer coisa com você, estar contigo seria o bastante. Nunca me perdoarei por ter te deixado.

Ah, Nina…

O que vou fazer agora? Não faço a menor ideia. Quando comecei a escrever, pensava em suicídio, pensava em te deixar uma carta de despedida sem muitas explicações, apenas para te dizer o quanto te amo e o quanto esperava que você fosse realmente feliz, que gostaria que você encontrasse alguém menos complicado do que eu e que cuidasse de você, que conseguisse entrar para uma boa faculdade, constituir família, construir uma carreira e esse tipo de coisa. Mas não, Nina, não é o que quero te desejar. Sou egoísta demais para te desejar esse tipo de coisa ao lado de alguém que não seja eu, sou egoísta demais para me matar sabendo que você, o amor da minha vida, viverá seus dias ao lado de outro. No entanto estou aqui, sabe deus quantos quilômetros de distância do Rio e após ter deixado você olhando com uma expressão vazia para o portão de embarque do aeroporto com o rosto vermelho e inchado de tanto chorar, olhando para uma praia cinza idiota, sentado num banco idiota num frio idiota e lamentando o fato de você não estar comigo.

É confuso, eu sei que é confuso. E é por andar tão confuso assim que escrevo, escrevo e escrevo e quando vou reler o que escrevi me dou conta de que estou ficando louco. Eu estou ficando louco, Nina. Louco. Eu quase consigo sentir o cheiro da loucura.

Mas deixa isso pra lá. Vou me despedir por aqui. Não vou postar essa carta, até porque sua mãe provavelmente não te entregaria. Sei que ela me odeia e que vai à igreja todos os dias para agradecer o fato de eu ter sumido da vida de sua filha. Eu sei, Nina, eu sei.

Vou caminhar um pouco por El Paseo, como fazem os turistas, talvez sirva pra me aquecer. Não sei onde ou se vou dormir, ainda não é hora de pensar nisso.

Mais uma vez, sinto sua falta. Continuo amando você, e planejo continuar te amando. Espero vencer essa loucura, preencher esse vazio, assim como espero que um dia possamos ficar juntos novamente e de uma vez por todas...


Roberto Denser

Roberto Denser é escritor e domador de abismos..
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