roberto denser

Um pé nos anos 50, outro nos anos 2000.

Roberto Denser

Roberto Denser é escritor e domador de abismos.

Dedicatórias Manufaturadas & Buquinagens

Pessoas que costumam comprar livros usados em sebos frequentemente se deparam com as histórias que os livros não contam: dedicatórias manuscritas que apenas dão pistas de quem um dia os presenteou por algum motivo. Nesta crônica, confesso minha paixão por essas dedicatórias, e cito exemplos de algumas que muito me intrigaram.


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Buquinar é o verbo que designa o ato de procurar e comprar livros em sebos, costume que deve ser preservado por qualquer bibliófilo e amante dos alfarrábios. É nas buquinagens que encontramos os achados mais inacreditáveis. Eu, por exemplo, já cheguei a encontrar O Lobo da Estepe (Hesse) por R$ 1,00 e Lolita (Nabokov) por R$ 3,00. Além do preço, também há a possibilidade de encontrarmos livros que se encontram há muito fora de catálogo: O Despertar dos Mágicos (Louis Pauwels e Jacques Bergier) foi um dos que já encontrei, para citar um exemplo.

Uma das coisas que mais gosto em procurar livros usados — apesar de não gostar desse termo — é quando encontro uma dedicatória escrita à mão por alguém que, um dia, comprou aquele livro com a intenção de presentear uma pessoa querida. Já cheguei inclusive a comprar livros apenas por causa da dedicatória. Sei que soa esquisito, mas garanto que é mais forte do que eu. Adoro imaginar todas as histórias por trás daquela simples dedicatória: Quem a escreveu? Quem é (ou foi) a pessoa a quem ele/ela o dedicou? Eram amigos? Amantes? Será que ainda estão vivos? Será que estão juntos? São inúmeras as perguntas, e às vezes encontro na própria dedicatória a resposta para algumas delas. Outras, porém, me deixam tão intrigado que já senti ganas de empreender uma verdadeira Odisseia em busca de uma daquelas pessoas.

O problema, na maioria das vezes, é a intimidade com que se dedica um livro:

“Ana, esse livro mudou a minha vida. Espero que gostes. Ass. Kinho”.

Esse é um exemplo dos que tenho aqui — dedicado em uma edição de O Grande Gatsby (Fitzgerald) da coleção Grandes Sucessos, de 1980 —, mas é um exemplo do tipo de dedicatória que detesto encontrar: fico querendo saber quem é Ana, quem é Kinho, como diabos esse livro mudou a vida dele, qual era a relação entre os dois... coisa de doido. As minhas favoritas são sempre mais apaixonadas, mais esquisitas, ou simplesmente mais carinhosas... Dentre todas elas, as duas pelas quais sinto um carinho especial foram encontradas, respectivamente, em O Dia do Coringa (Gaarder) e O Sol Também se Levanta (Hemingway), vejam:

“Peixinho não mostra segredo da ilha, mas pãozinho sim.”

(Encontrada em O Dia do Coringa, de Jostein Gaarder, e assinada por uma tal de Juliana).

“Ando tão angustiada, Francisco, tanto que já nem sinto vontade de nada. Feliz aniversário”.

(Encontrada em O Sol Também se Levanta, de Hemingway, assinada por Alice Maria e datada de 1976).

A primeira me deixou tão intrigado que tirou meu sono durante noites inteiras — mas esse problema foi resolvido com a leitura do livro —, já a segunda... a segunda tirou minha paz! Ainda hoje me pergunto sobre a Alice, que atualmente ou é Dona Alice ou, nunca se sabe, saudosa Alice.

Se tivesse uma única pista além de seu nome, provavelmente já teria saído à sua procura. Chegaria à sua porta e, acanhado, lhe mostraria o livro que ela, em 1976, dera de presente ao seu Francisco. Pediria para que me contasse sua história, a história de suas angústias e de como as superara... e lhe devolveria o livro, claro, pois certamente jamais encontraria alguém mais digno daquele exemplar.


Roberto Denser

Roberto Denser é escritor e domador de abismos..
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