roberto denser

Um pé nos anos 50, outro nos anos 2000.

Roberto Denser

Roberto Denser é escritor e domador de abismos.

O Grande Paradoxo

O mundo mudou e nem todo mundo se deu conta disso. As redes sociais, hoje, ocupam um espaço importante de nossas vidas, e paradoxalmente nos desconectam da única conexão que realmente importa: com nós mesmos. Neste ensaio, uma reflexão acerca do zeitgeist que nos cerca, e uma proposta de reconexão.


020_en122-02.jpg O mundo mudou. Depressa demais para quem nasceu ou cresceu nos anos 80. Somos o que costumo chamar de “geração de transição”: nascemos em um mundo analógico e crescemos em um mundo que, não mais que de repente, se tornou digital. Foi rápido demais, tão rápido que nem todo mundo se deu conta: num dia estávamos escrevendo cartas com nossas canetas Bic, e no outro mandando mensagens pelo Whatsapp; num dia estávamos fazendo curso de datilografia porque “sem curso de datilografia não se consegue emprego”, e no outro estávamos estudando programação; num dia estávamos esperando ansiosos o novo LP da Legião Urbana, no outro estávamos baixando, com dois cliques, o torrent com sua discografia. Ou simplesmente ouvindo o novo álbum no streaming, como se tornou mais comum. E por falar em streaming, bom, um dia estávamos rebobinando a fita cassete para não pagar multa na locadora, no outro estávamos entediados buscando algo interessante no catálogo da Netflix. Sim, o mundo mudou. As fichas telefônicas são objetos de museu, orelhões se tornaram exóticos postes de cachorros. Nossas vidas, algo que precisa ser constantemente revalidado. Para nós mesmos, eu diria, mas paradoxalmente através do olhar do outro. São os outros que nos confirmam, já não bastamos a nós mesmos. Os outros, este inferno, precisam nos admirar, nos invejar, confirmar que estamos bem. Sem isso, ficamos ainda mais perdidos. Já não sabemos apenas quem somos, de onde viemos e para onde vamos, agora também já não sabemos como estamos (a não ser, é claro, que os outros nos deem alguma pista).

Sim, o mundo realmente mudou. E apesar de não ter o relatório na minha mesa, apostaria um braço como nunca se vendeu tanto livro de autoajuda, como nunca precisamos tanto de psicólogos, e como nunca houve tantos coachs. Nem tanta solidão. Que zeitgeist.

Os livros de autoajuda em alta no momento em que escrevo se dividem entre os que prometem milagres, e os que aconselham o foda-se. O foda-se é o estoicismo 2.0, no qual todo mundo, de um jeito ou de outro, parece estar buscando refúgio (não consigo ignorar que meu melancólico narrador de um conto escrito em 2011 declara a certa altura da narrativa, quase profético: “minha filosofia é a filosofoda-se”). A psicologia, por sua vez, é a profissão do futuro: é que tá todo mundo quebrado, perdido, sem refletir o suficiente acerca de si (nunca o conselho gravado no pronau do templo de Apolo, em Delfos, foi tão ignorado) e tirando conclusões precipitadas com base em qualquer coisa que reputem conveniente. Quanto aos coachs, são quase uma praga: tem coach pra isso, coach praquilo, coach pra tudo. Há até uma fórmula, se você quiser memorizar: Se P então C, onde P é um problema qualquer, e C é um coach especializado. Já a solidão, verdadeiro tema deste texto, é o grande paradoxo de nossa era. 1_4XlWwQhYQoeD4FDzmp_Zcw.jpeg É que estamos cercados demais, somos seguidos demais, e o tempo inteiro estamos nos comunicando, mas nunca estivemos tão sós. É, eu sei, esse tipo de afirmação é uma platitude, um cliché de nossos tempos: todo mundo sabe, todo mundo sente, todo mundo já percebeu. Todo mundo tá falando isso. Eu sei. Mas também sei que o que nos cerca são apenas sombras, e estamos todos dentro da caverna: encantandos por sombras, nos sentindo sombra, vivendo como sombra. E nem todo mundo sabe disso, e alguns sabem e simplesmente não se importam, e há até quem acredite, de verdade, que é melhor ser sombra.

É o que eu vejo, é o que eu tenho visto nos últimos anos. Falo por experiência. Veja: eu costumava usar redes sociais, tive todas, participei de todas as suas fases, mas só percebi o que elas me roubavam quando as abandonei, e o que elas me roubavam era essa capacidade única de simplesmente estar presente. Estar presente: como aconselha Buda. Uma lição de duas palavrinhas que, seguida, pode ser a salvação de uma vida, ou de uma geração. Porque menos é mais: menos é mais. E nós esquecemos disso. Qualquer um que esteja cético a esse respeito, que sofra de FoMO syndrome (“medo de estar perdendo algo”) ou qualquer coisa dessa natureza, pode testar por sua própria conta: quem importa não se afastará; as informações importantes chegarão; não haverá nenhuma perda.


Roberto Denser

Roberto Denser é escritor e domador de abismos..
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