ronperlim

Um todo constituído das leituras do mundo e dos livros.

Ronaldo Pereira de Lima

Professor, escritor, blogueiro. Autor dos livros Agonia Urbana(prosa poética), Laura (Prêmio Alina Paim/infantojuvenil),
A menina das queimadas (infantojuvenil) e Viu o home? (crônicas). Para saber mais, acesse: ronperlim.com.br/

Não sabia até quando aguentaria

O texto demonstra como muitos casais não sabem lidar com as dificuldades e como a ausência do emprego pode afetar as suas vidas amorosas.

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Carregava em suas mãos uma passadeira que seria entregue a dona Firmina. O ganho não era grande coisa, mas dava para “ir levando”, como costumava dizer. Com aquele dinheiro, saiu para fazer compras. Não sabia se o marido arrumou um dia de trabalho e não poderia se fiar nisso.

No caminho da mercearia passou por um jovem baixo, de cabelos ondulados e cheios de gel que se aproximava de uma lanchonete-bar que ficava nas proximidades. Sem camisa, ele se encostou ao balcão, pediu uma dose e saiu cambaleando. Ela meneou a cabeça e teve repugnância daquele homem.

Na porta da mercearia, os ociosos ali estavam. Eles não se cansavam de viver aquela vida medíocre e vazia. Para eles o que importava era saber quem se beneficiou dos favores políticos, da ascensão social ilícita de alguns, fechando-se no círculo do disse me disse, tornando-se reticentes quando algum cliente se aproximava.

Ela entrou, deu boa tarde sem olhar neles, comprou o que necessitava, voltando para sua casa detestando tudo aquilo, principalmente o dono daquela espelunca por não enxotar aquela turma de cães vadios. Enquanto arrumava a despensa, o marido chegou cabisbaixo. Era mais um dia sem nenhum tostão no bolso.

Cansada daquilo, não sabia até quando aguentaria. Ainda bem que não tinha filhos, pensava ela; prendendo-se aquele bordão: “cada um vá viver a sua vida”.

Só não sabia qual seria a reação do seu companheiro. Se precisaria de uma medida protetiva. Angustiada, conversou com sua melhor amiga o que estava se passando e como se sentia. A amiga, para não se envolver numa decisão que cedo ou tarde poderia acontecer, disse: “mulé, tenha paciência. ”, mudando de assunto.

Na cama, ele tentou acariciar aquele corpo cheiroso e gostoso. Mas ela deu-lhe as costas. Não estava a fim de namorar. A vida que levava só lhe fazia pensar nas preocupações cotidianas, principalmente agora com a mudança de governo que, ao invés de trazer melhorias, trouxe mais desemprego. Sem a manutenção certa de sua subsistência, não andava com ânimo para isso. Desconfiado, não disse uma palavra e foi dormir.

No outro dia, sentado no sofá assistindo as lorotas políticas dos jornalecos que exalta heróis sem gibis, perguntou para a mulher se o café estava pronto. Ela, sem motivo algum, veio da cozinha raivosa e disse que ele deveria procurar alguma coisa para fazer ao invés de tá vendo notícias requentadas, fazendo aumentar a conta de energia. Dando audiência para quem não ligava para os trabalhadores, apoiando medidas que só pioraria a vida dos pobres.

Revoltado, ele partiu para cima dela; pôs o dedo em riste e tiveram uma longa e feia discussão. Quando os âmagos repousaram, ela já estava de malas prontas. Não queria viver o resto da vida com as incertezas. Foi embora sem olhar para trás.

Quando voltou da rua, não a encontrou em casa. Saiu a sua procura e não a encontrava em nenhum lugar. Esperou debaixo de uma árvore, sentado num banco de madeira. Próximo das sete horas, ela surge na rua, em direção a casa dos pais. Ele, sem excitar, vai ao encontro dela, pega-lhe pelo braço e pergunta se ela tinha outro em sua vida para deixa-lo do dia pra noite, sem lhe dar satisfações. Nisso, o pai aparece na porta e vai em defesa da filha. Não permitiria que macho algum a machucasse. Em meio a confusão, tapas e pontapés; a mãe da artesã veio da cozinha esbaforida, desferindo um golpe com a faca sobre a filha, fazendo-a vir a óbito. A faca que ela pinicava a carne para a sopa.

A rua se apavorou. Ninguém entendeu nada. Os pés saíram um a um quando viram a viatura da polícia se aproximar. Não queriam ser testemunhas daquela desgraça.

E ficaram os batentes murmurando. Uns dizia: “aposto que ela era amante do genro”. Outros: “acho que não. Isso foi uma fatalidade. Quem já se viu mãe matar filha por causa de genro”. E mais outros: “o certo é não julgar. A gente não sabe o que aconteceu naquela confusão. Vamos esperar as investigações”.

 


Ronaldo Pereira de Lima

Professor, escritor, blogueiro. Autor dos livros Agonia Urbana(prosa poética), Laura (Prêmio Alina Paim/infantojuvenil), A menina das queimadas (infantojuvenil) e Viu o home? (crônicas). Para saber mais, acesse: ronperlim.com.br/.
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