ronperlim

Um todo constituído das leituras do mundo e dos livros.

Ronaldo Pereira de Lima

Professor, escritor, blogueiro. Autor dos livros Agonia Urbana(prosa poética), Laura (Prêmio Alina Paim/infantojuvenil),
A menina das queimadas (infantojuvenil) e Viu o home? (crônicas). Para saber mais, acesse: ronperlim.com.br/

Quero ver até quando isso durará?

Quero ver até quando isso durará? instiga o leitor a refletir se o amor resiste ante as dificuldades cotidianas de um jovem casal. Um convite interessante para a reflexão.

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Clarice foi à escola só por ir. Quando saiu de casa, seus pais estavam discutindo, perto de se atracarem. Ela detestava isso. Ao se aproximar do portão da escola, deu meia volta e saiu cabisbaixa pela rua, esbarrando-se em Augusto. Ela pediu desculpas para ele vexada. Ele sorriu para ela, pegou o livro caído e disse que “estava tudo bem”. Sem contemplar a face dele, seguiu seu rumo.

No outro dia recebeu um bilhete. Em tempos de zapzap, ele preferiu o bilhete. Preferiu porque seu celular não suportava o aplicativo e porque achava deselegante pegar o número dela com algum conhecido ou colega de classe e lhe enviar um sms. Preferiu o bilhete.

Assim que leu, achou engraçado e gostou do que estava escrito. Em resposta, escreveu: “Sei que seu celular é um dinossauro. Mas eu não me importo. Gostei das palavras que você escreveu para mim. Hoje só haverá três aulas. Se puder, me pegue na saída”.

No horário combinado, Augusto estava a espera de Clarice todo alegre, vestido em sua melhor roupa. Quando a viu sair, ele não perdeu tempo e foi logo pegando em sua mão. Ela olhou para ele e disse: “A gente nem ficou e você já pega em minha mão, assim, como se a gente já namorasse!”.

Ele só lhe disse uma coisa: “A gente vai se casar. Você vai ver!”. Clarice ficou assustada com aquilo e disfarçou com um sorriso contido. Pensou: “Eu mal conheço ele e ele mal me conhece e já fala em casamento. Parece que não bate bem”.

Sentaram-se no primeiro banco que avistaram. Entre uma conversar e outra, ela sorria como nunca havia sorrido em toda a sua vida. Quando estava com Augusto, esquecia das contendas dos pais.  A ideia de casar já não lhe parecia tão distante, nem coisa de quem não batia bem da cuca. Os dias se passaram. Clarice o apresentou aos pais. Estes, nem deram importância. Foi aí que Augusto conheceu a família que iria se meter. Mas isso não o desanimou, nem passou pela sua cabeça desistir. Concluiu que a namorada vivia num ambiente ruim e violento.

O que ele mais queria era se casar com ela, livrá-la daquele cárcere; mas não tinha emprego. Só arrumava dinheiro quando fazia bico. Mesmo assim, ele não resistia aos afagos dela, nem as suas lágrimas. Clarice entendia que viver com ele, mesmo passando necessidades, era muito mais agradável e proveitoso que ouvir os impropérios dos pais, a violência entre eles e ter que encarar os vizinhos todas as manhãs. Estava decidida, custe e o que custasse. Casaram-se e foram morar num casebre de dois cômodos.

Passaram-se três anos e nada havia mudado em suas vidas. Num dia qualquer, sentados na cama, olhavam um para o outro. A ideia do primeiro filho deixavam-nos desesperançosos. Todas às vezes que falavam numa criança, eram acometidos pela melancolia e os olhos se enchiam de lágrimas.  

Apesar dessa rotina de necessidades e o adiamento da prole, o amor deles nunca se abalou. Aprenderam que ter filhos sem poder criá-los seria mais um número sem significado. E ele só aumentaria os seus pesares. Foi espiando os amigos, conhecidos e parentes que eles fizeram uma leitura diferenciada de sua condição. Não queriam acrescer em suas vidas outras que não pudessem ter o mínimo de dignidade. E só realizariam o sonho de ser mãe e pai quando as coisas melhorassem.

Naquela casinha o amor era coisa de cinema e muita gente ficava sem entender como uma menina jovem, bonita, vivia num casebre com um homem bonitinho, sem trabalho fixo, passando necessidades. O quarteirão da rua era unânime: “O amor é cego”, em seguida meneava a cabeça. E os maledicentes perguntavam entre si: “Quero ver até quando isso durará?”.


Ronaldo Pereira de Lima

Professor, escritor, blogueiro. Autor dos livros Agonia Urbana(prosa poética), Laura (Prêmio Alina Paim/infantojuvenil), A menina das queimadas (infantojuvenil) e Viu o home? (crônicas). Para saber mais, acesse: ronperlim.com.br/.
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