ronperlim

Um todo constituído das leituras do mundo e dos livros.

Ronaldo Pereira de Lima

Professor, escritor, blogueiro. Autor dos livros Agonia Urbana(prosa poética), Laura (Prêmio Alina Paim/infantojuvenil),
A menina das queimadas (infantojuvenil) e Viu o home? (crônicas). Para saber mais, acesse: ronperlim.com.br/

Sem hora para chegar

Sem hora para chegar narra as angústias e aflições de uma adolescente que sofre por causa do processo de alcoolismo da mãe. Por isso, toda a responsabilidade doméstica recai sobre ela. Sobrecarregada, encontra em Sandra, sua amiga, um esteio para levar a vida e sorrir em alguns momentos da vida.

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As bordadeiras costumam dizer que Ioná, mãe de Amanda, debandou-se desde a morte do marido. Ela era uma mulher bonita, sorridente e tinha trinta e cinco anos. Saia de manhã e não tinha hora para chegar. O seu sustento ficava por conta de uma magra pensão.

Por causa disso, Amanda era quem cuidava da casa e da caçula. Isso a deixava confusa e triste, fazendo-a sentir repugnância pela sua existência. Não gostava da vida que a mãe levava, principalmente quando ela trazia para dentro de casa homem.

Quando aturdida, costuma ir para o quintal, sentar debaixo do pé de graviola e esperar por algum bem-te-vi ou assanhaço para beliscar uma goiaba. Nesse dia teve sorte porque não foi só eles que apareceram. Vieram borboletas, pardais e um beija-flor. Ela via aquilo com certo pesar porque a brisa, os pássaros e as árvores eram a antítese do que ela estava vivendo.

Essas coisas faziam-na se sentir solta neste mundo, como se alguém a deixasse aqui, largada, sem significado e sem importância, semelhante a uma criança jogada em lata de lixo. Esses pensamentos rondavam a sua cabeça, fazendo-a pensar muitas vezes em sumir.

Saiu do quintal, indo à porta da frente na esperança de ver Sandra. Precisava desabafar o quanto antes. Impaciente porque a sua amiga não apareceu na porta, Amanda se levantou da cadeira e foi até a casa dela. Chegando lá, Sandra logo percebeu as suas aflições e a fez entrar. Sem firulas, ela botou para fora as suas lamúrias. Sandra foi compreensiva e paciente com a amiga, pois, as dores dela não se diferenciavam muito das suas, emprestando o ouvido para a outra. E Amanda continuava:

— Sandra, veja só. Mamãe sai e não diz prá onde vai. Às vezes chega beba em casa enjoando. Eu já tô cheia disso. Às vezes penso até em mim matar.

— Tenha calma mulé. A vida é assim mesmo. Não faça uma besteira dessas. Quem sabe um dia você não sai dessa, encontre uma pessoa legal e vai viver a sua vida.

— Que nada! No dia que eu me azuar eu caio fora e não dou nem satisfação.

— Amanda, não fique nervosa. A minha vida não é uma das melhores também e você sabe bem disso. Veja o meu pai. Só vive bebo, perturbando, batendo em minha mãe e em mim. Eu não posso deixa-la sozinha com os meninos. Se fosse embora, como já pensei várias vezes, seria pior.

— Você deveria dar parte dele na delegacia.

— Já não fiz isso por causa de mamãe. Toda vez, ela desiste.

O diálogo foi interrompido por uma criança que chamou por Amanda. Assim que ela foi atende-la na porta, ouviu: — Sua mãe tá beba. E caiu na calçada da sua casa.

Ela começou a chorar. Sandra abraçou-a e os seus olhos emendaram nos dela num único sentimento: a dor da existência. Então, Sandra lhe disse:

— Fique aqui até sua mãe recobrar os sentidos.

— E Clarinha? Toda vez que mamãe tá assim, ela fica assustada.

— Não se preocupe, mulé. Vou pedir a mamãe para ficar com ela até a gente dá um jeito. Volte para dentro de casa. Vou chamar o Rogério e o Fábio. Eles levarão ela pra sua casa.

Depois que Sandra e os amigos dela puseram Ioná no sofá da casa desta ela retornou e disse para Amanda: “Pronto! Deixei sua mãe roncando no sofá. Agora, fique calma. Quando você quiser ir, é só me avisar”.

No outro dia, Sandra estava na porta distraída observando os vizinhos. Estes, agachados, acendiam as fogueiras. Ela nem percebeu a presença de Amanda. Por causa da confusão do dia anterior, elas nem se lembraram da véspera de São João, nem de providenciarem fogueiras. Mas diante do forró que iria acontecer a poucas horas, isso era um detalhe. Não poderiam perder por nada neste mundo aquele evento. Então, sairiam as onze e meia para o forrobodó.

No horário marcado, elas iam de pareia pela rua, observando as fogueiras que se despediam daquela noite fastienta de cachaça e do cheiro de querosene, misturado ao de plástico. Caminhavam lentamente e o vento levava fumaça ao encontro delas, causando ardência em seus olhos.

Aproximaram-se do espaço onde seria realizado o forró e assim que entrou nele, avistou à esquerda uma barraca de lonas novas e muitas mesas destinada para o prefeito e o seu séquito de engomadinhos, catengas, lúmpens, cupinchas.... Em ambos os lados os ambulantes ocupavam o espaço; criando uma paisagem variada de opções e gostos.

Elas pararam por um instante, ouviram uma versão de Asa Branca muito bem interpretada por um sanfoneiro regional, mas não quiseram dançar. Preferiu assistir alguns casais que arrastavam os pés. Em meio àquela agitação, a um barulho que enchia os tímpanos, alguém surge com um celular. Vejam só, com um celular! Amanda cutucou Sandra. Esta, quando viu a cena, disse: “Amostrado”, rindo em seguida; indo para a quermesse que a escola onde elas estudavam organizou.


Ronaldo Pereira de Lima

Professor, escritor, blogueiro. Autor dos livros Agonia Urbana(prosa poética), Laura (Prêmio Alina Paim/infantojuvenil), A menina das queimadas (infantojuvenil) e Viu o home? (crônicas). Para saber mais, acesse: ronperlim.com.br/.
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