ronperlim

Um todo constituído das leituras do mundo e dos livros.

Ronaldo Pereira de Lima

Professor, escritor, blogueiro. Autor dos livros Agonia Urbana(prosa poética), Laura (Prêmio Alina Paim/infantojuvenil),
A menina das queimadas (infantojuvenil) e Viu o home? (crônicas). Para saber mais, acesse: ronperlim.com.br/

Tarja Preta

O texto demonstra como as pessoas lidam de forma diferente em determinadas situações, muitas vezes chegando ao extremo. Nessa chegada, afetam as suas vidas, as dos que estão próximos e deixam claro que não se deve brincar com os sentimentos alheios.


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Ele estava ao lado dela, sério. Ameaçava ir embora, mas ela o conteve pegando em seu braço; implorando para que ficasse. Indiferente, permaneceu silente por alguns instantes. Depois, disse:

— A gente não dar mais certo. Você me machucou e me humilhou diante dos meus familiares e amigos. Em cada esquina por onde passo, sirvo de chacota. O meu nome vive na língua de muita gente. Uma cidadezinha como esta... em que todos se importam com todos... e você fazer isso comigo? O certo é cada um viver a sua vida.

Sem se conter, lacrimejou. Ao lacrimejar, percebeu que estava perdendo o conflito para Vênus. Sem encará-la, virou o rosto para outra direção; tentando se esquivar dela e de si. Amanda percebeu que, se apelasse mais um pouco, ele fraquejaria. Recostou o rosto no peito de Ricardo, entreabriu os lábios e, com olhos pidões, murmurou em seus tímpanos: — Você não deve acreditar nestas conversas desalmadas. Tem um monte de invejosos que não querem a nossa felicidade, só porque a gente forma um belo casal. — Mordiscando o seu pescoço.

Ele pegou-a pelos braços, afastou-a. Ela ficou no assento, vendo-o partir. Naquele momento, as lágrimas dela eram puro fingimento, pois, sabia que sem ele perderia muitas coisas e uma delas era parrar entre as amigas quando estivesse na balada ou no shopping acompanhada de uma bebida. Não poderia deixar tudo isso de mão e pensava numa maneira de reconquistá-lo. Enquanto a ideia não lhe vinha à cabeça, retirou o celular do bolso e telefonou para Bruno: “Oi! Já tá vindo”. Assim que o carro estacionou, ela entrou sisuda. Estava contrariada porque seus intentos não foram concretizados. Bruno perguntou-lhe como havia sido o encontro. Ela preferiu o silêncio. Ele insistiu e ela respondeu: “Não quero falar sobre isso”, perguntando se havia cerveja no isopor.

Sem que ela pudesse imaginar, Ricardo a viu sair de carro. Possuído pelo inconformismo, por tudo que havia feito por ela; seguiu-a em um carro seminovo para não ser identificado. Ficou na espreita, vendo-os entrar num motel. Na sua cabeça não tinha outra coisa que não fosse mata-los.

Enquanto esperava ansioso, lacrimejava. Não acreditava que ela fosse capaz de fazer aquilo depois de tudo. Quantas noites mal dormidas enquanto Amanda jazia numa maca retorcendo de dor. Quantos enfrentamentos teve com os familiares e amigos, inclusive perdendo muitos deles por causa dela. Estava decidido: iria mata-los e depois se mataria.

Quando os viu sair sorridentes do motel, saiu furioso do carro com a pistola em punho. Primeiro atirou em Bruno, em seguida apontou a arma para Amanda. Esta implorou para ele não fazer aquilo em nome de todos os santos que jamais dirigiu oração. Ele deu-lhe um sorriso sarcástico, vendo-a implorar por sua vida e em seguida, atirou em sua têmpora. Amanda nunca mais foi a mesma, recorrendo com frequência as tarjas pretas.


Ronaldo Pereira de Lima

Professor, escritor, blogueiro. Autor dos livros Agonia Urbana(prosa poética), Laura (Prêmio Alina Paim/infantojuvenil), A menina das queimadas (infantojuvenil) e Viu o home? (crônicas). Para saber mais, acesse: ronperlim.com.br/.
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