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do início ao fim.

Lola Carvalho

Uma história com três personagens: Beatles, viagens e pão de milho. Valendo

A Vingança Segundo os Coreanos

A vingança é um assunto que rende bons filmes tanto em Hollywood quanto no resto do mundo. Este texto procura identificar qual tipo de visão e estética este tema tem sob a ótica de um dos cineastas orientais mais aclamados dos últimos anos: Park Chan-wook, diretor da Trilogia da Vingança.


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A vingança é um tema recorrente na indústria cinematográfica, tanto que deveria ser tida como um gênero por despertar tantos sucessos não só em Hollywood, mas como em todo o mundo. O Regresso, O Conde de Monte Cristo, Gladiador, V de Vingança e Kill Bill são só alguns exemplos deste vasto tema tão comum na psique humana.

O fato de a vingança seduzir tanto é que ela pode parecer algo controlável, algo racional que podemos simplesmente dizer “eu nunca faria isso”. A empatia com os personagens acontece, você acaba torcendo pelo anti-herói que, em busca do troco, faz das maiores atrocidades para alcançar o que deseja. No fundo sabemos que a vingança é um prato que se come frio e sem gosto, pois quando ela termina não necessariamente conseguimos tapar o que nos foi retirado. A vingança é sedutora, pois surge sem mais nem menos em qualquer pessoa, de qualquer classe ou idade, de qualquer religião e pode nos enfeitiçar de tal modo que aquela razão inicial já não impere mais.

Um dos exemplos mais icônicos deste tema é a Trilogia da Vingança de Park Chan-wook. O diretor sul-coreano, queridinho de Quentin Tarantino, criou uma antologia quase poética de como a vingança flutua entre o belo e o grotesco. O refinado cinema sul-coreano é um dos únicos países no mundo em que o cinema nacional é mais visto que o cinema norte-americano e possui um catálogo variado de gêneros, atuações impecáveis e produções nada amadoras que vem conquistando cada dia mais um espaço nas premiações ocidentais e no coração de amantes da sétima arte.

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A Trilogia da Vingança não possui uma cronologia entre suas partes, cada filme possui uma história e personagens que não se repetem, a única coisa que os une é o tema: vingança. Tudo começa em 2002 com Mr. Vingança (Sympathy for Mr. Vengeance) e seu tráfico de órgãos, sequestro e suicídio. Uma temática pesada para um filme que até então só tinha a particularidade de ser sobre vingança. Esse filme poderia ser só mais um filme de classificação 18 anos no qual você saísse do cinema enjoado ou desacreditado na raça humana. E sim, você sai do cinema assim, mas ao mesmo tempo em meio a tantas atrocidades consegue resgatar um sentimento de valorizar o que tem. O mundo é muito volátil, pessoas se vão, condições acabam e isso fica ilustrado no filme mesmo com todo o sangue e dor. A questão levantada por Park não é somente o payback, mas a valorização do que se tem e de como tudo é líquido.

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Repleto de cenas chocantes, fotografia poderosa e atuações que emocionam, Oldboy (2003) é a joia de Park Chan-wook. O filme que já ganhou inúmeros prêmios dentro e fora da Coréia do Sul ganhou uma adaptação americana em 2013 com o ator Josh Brolin e o diretor Spike Lee. Mas apesar da história ter ficado mais conhecida nas mãos do diretor sul-coreano, Oldboy é originalmente um mangá japonês criado por Garon Tsuchiya e Nobuaki Minegishi. O mangá tem um total de 8 volumes e foi publicado no Japão entre 1996 e 1998. O filme conta a história de um homem que é colocado inexplicavelmente em cárcere durante 15 anos e após ser solto deseja vingança por seus captores desconhecidos. A trama flerta com assuntos tabus como tortura, incesto e assassinato, e a ótica oriental da violência é bem representada nas cenas e no uso de closes.

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Quem passa pela experiência de ver este filme sabe que tem que ter estômago para aguentar certas coisas, mas apesar da temática pesada nos hipnotizamos pela história bem amarrada e reviravoltas que o filme dá. O cenário inicial de violência é só um pano de fundo para a mensagem principal do filme de que o tempo é precioso. Cada minuto vale e o passado é algo que não podemos modificar, ele só serve para nos lembrarmos de que o futuro pode ser diferente.

O último filme da saga, Lady Vingança (Sympathy For Lady Vengeance, 2005), fecha o ciclo perturbador e poético de Park Chan-wook. Nele, temas como abuso sexual e traição acompanham a história de Lee Geum-Ja, uma garota que aos 19 anos foi condenada injustamente a 13 anos de prisão pelo sequestro e assassinato de um menino de seis. A história, feita em flashbacks, vai soltando as informações aos poucos e faz com que o suspense psicológico te prenda do início ao fim. O filme é considerado por muitos o “mais fraco” da trilogia, mas a impressão só é causada porque ele é visualmente mais bonito e lento que os outros. O desfecho é tão pesado e denso quanto os outros dois, mas leva a característica de ser mais angelical em sua execução.

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“Até que ponto a violência é justificável?” essa questão levantada pelo diretor em seus filmes denota, segundo ele, que o medo e a dor de se cometer um ato de violência são implicados tanto sobre a vítima quanto sobre seu agressor. Durante a Mostra de São Paulo em 2013, o cineasta contou que sua juventude foi marcada pela ditadura militar na Coréia do Sul entre as décadas de 60 e 80. "Nunca fui preso ou torturado, mas muitos colegas foram, então ouvi muitas histórias. Nos protestos, tínhamos medo e ansiedade, porque sabíamos que haveria agressão", contou ele em uma entrevista no evento. "Meus filmes não têm esse contexto político, mas a presença das cenas de violência tem a ver com essa época que vivi. Talvez a motivação (para as cenas violentas) seja meu medo. Talvez seja uma forma de escape."

A vingança é uma reação passional, não significa que faríamos as mesmas coisas que o protagonista, talvez sim ou talvez até pior, mas conseguimos ter a empatia de sua dor e mais uma vez valorizar o que temos. O efeito dos filmes da trilogia é inversamente proporcional ao culto da violência e sua propagação, a sequência mostra que apesar deste sentimento devastador tomar conta da nossa razão, ele não vale a pena no fim das contas. Todo o caminho perseguido pelos protagonistas é tratado como um ato reativo causado pelo medo e pela dor. O ciclo não termina nunca, as histórias são causadas por outras histórias, que foram causadas por outras e assim vai até alguém decidir encerrar o curso. O medo e a dor são o gatilho para a vingança, mas é no perdão e redenção que mora a verdadeira poesia.


Lola Carvalho

Uma história com três personagens: Beatles, viagens e pão de milho. Valendo.
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