roteiro 77

Porque se deve preferir o impossível verossímil ao possível incrível.

Jaqueson Luiz Silva

A literatura, o teatro e o cinema como roteiro.

O CINEMA COMO ATO DE AMOR: A FRATERNIDADE É VERMELHA DE KIÉSLOWSKI

Passados mais de 20 anos de estreia, e quase dez do desaparecimento de seu diretor, A fraternidade é Vermelha propõe-se um filme necessário em tempos exigentes de uma fraternidade que acolha no mundo diferenças e distâncias. No manejo destas distâncias está o vermelho da atenção. A direção de Kiéslowski, entre avanço e parada, diz que assistir a um filme é um ato de amor.


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Krzysztof Kiéslowski é um artista das coisas mínimas. Em uma das trilogias mais importantes do cinema, o argumento dos três filmes é particularmente simples. Em A liberdade é azul (1993), o que temos é uma mulher lidando com a perda do marido e da filha. Na sequência, em A igualdade é branca (1994), um casal de nacionalidades distintas em situação de divórcio.

Mas a maestria é alcançada em A fraternidade é vermelha (1994), em que a distância dos protagonistas da ação beira ao inconciliável: a acidental amizade de uma modelo, Valentine, e de um juiz aposentado, interpretado pelo circunspecto Jean-Louis Trintignant. O juiz é aquele que espiona a vida dos vizinhos, interessado nas histórias, no entrelaçamento dos seus enredos. Um voyer em vários momentos do filme associado à figura divina da onisciência e da onipresença. Alguém que assiste ao mundo. A modelo é aquela que se expõe, que se deixa espionar. Seu corpo é como um filme.

É no atropelamento de um cão que as duas vidas distantes se encontram. Paradoxalmente, em um momento de desatenção de Valentine que vai lhe impor o cuidado ou a condição moral e culposa de ter de socorrer e cuidar.

O filme é dirigido no manejo entre o próximo e o distante, como o sinal vermelho do semáforo que várias vezes anuncia o encontro e o desencontro, a chegada e a partida. Também, no caso dos vizinhos que se veem e nunca se encontram: a própria Valentine e um jovem advogado aspirante a juiz, que em meio aos estudos mantém um caso com uma meteorologista. A meteorologia como outro estado da atenção.

A câmera se aproxima das pessoas e das coisas como alguém que ama, no olhar pesaroso do drama que esconde um copo quebrado e um cigarro abandonado ainda aceso, na solidão que traz uma casa em silêncio e em penumbras, nos objetos de escuta, telefones e fones de ouvido que aproximam e distanciam.

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A aproximação, como o amor ao próximo, dá o tom vermelho presente desde o figurino à direção de arte. O vermelho não parece ser apenas referido ao sangue que confere a seres a irmandade, mas também ao coração que o bombeia para perto e para longe e, maiormente, ao sinal de atenção. A atenção talvez seja uma das grandes formas do amor.

Em uma das cenas finais, quando o juiz vai assistir a um desfile de Valentine, o cenário, mais que um show de moda, lembra um cinema, lugar onde pessoas de vidas distantes sentam uma ao lado da outra, à frente de um desejo projetado na tela. Esta parece ser a proposição do diretor: o cinema que bem poderia ser o lugar da fraternidade. O cinema é o lugar em que histórias podem se encontrar. É no cinema onde pessoas apaixonadas vão juntar suas mãos como símbolo de amor.

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É das condições de aproximação e distanciamento que se processa o amor de que fala o filme. O entrelaçamento das ações, em um desfecho aparentemente coordenado pela atenção do juiz/diretor, é de um refinamento surpreendente enquanto trilogia. Um reencontro ou possibilidade de refazer a rota. O que leva a pensar que é o acaso o roteiro certo do amor.


Jaqueson Luiz Silva

A literatura, o teatro e o cinema como roteiro. .
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