roteiro 77

Porque se deve preferir o impossível verossímil ao possível incrível.

Jaqueson Luiz Silva

A literatura, o teatro e o cinema como roteiro.

HISTÓRIAS DE AMOR DE JULIA KRISTEVA

Este artigo é uma apresentação de um livro que fala de amor, Histórias de amor de Julia Kristeva, porém menos de histórias de amor, como pode ser lido o seu título, mas das histórias fundamentais que perpassam toda e qualquer história de amor.


eros_e_psique.jpg Psiquê rediviva pelo beijo de Eros, Antonio Casanova, 1793

“(...) é forçoso aceitar também que, por vivificante que seja, o amor não nos habita nunca sem nos queimar. Falar dele, mesmo em posteridade, talvez não seja possível senão a partir dessa queimadura.” (p.24) *

Esta é uma das proposições iniciais do livro Histórias de amor, publicado em 1983 por Julia Kristeva, talvez o que possa ser um dos grandes tratados sobre amor no século XX, junto com o indefectível Fragmentos de um discurso amoroso de Roland Barthes de 1977, ou ainda junto com talvez alguns outros de que aqui não cabe menção. Neste artigo não pretendo enumerar exaustivamente citações, mas apresentar o livro como um convite a seu conhecimento.

As interrogações feitas constantemente no texto, não apenas como finalização de subtítulos, títulos e seções, são uma dificuldade a mais do livro de Kristeva, para além da intrincada pesquisa empreendida sobre um tema que pode ser discorrido desde a mais caricata leviandade até a mais profunda reflexão poético-filosófica. Essas interrogações não são um defeito ou problema, podem ser entendidas como um estilo, mas mais do que isso são questões surgidas e feitas a partir de raciocínios longos, algo pouco usual ultimamente e em que poucos têm interesse ou paciência enquanto leitura. Saliento neste sentido que sua leitura é um exercício de aprofundamento aos fundamentos do amor. Fundamentos no sentido do que é pouco tratado sobre determinado assunto. Neste caso o amor ou do que pouco sabemos sobre ele.

A figura-chave do livro é Narciso, com uma seção inteira dedicada a ele, mas também, em capítulos, tratado em Freud, no Livro dos Cantares, em Plotino, em São Bernardo, Abelardo e São Tomás, nos Trovadores, em Romeu e Julieta, em Maria mãe de Jesus Cristo, em Jeanne Guyon, Baudelaire, Stendhal e Bataille. Os capítulos também trazem entremeados em si narrativas da prática clínica da própria Kristeva.

3-narciso.jpg Narciso, Caravaggio, 1597-1599

Na leitura da dramática narrativa do jovem de Téspia, a partir das Metamorfoses de Ovídio, parece haver uma espécie de reabilitação desse tipo de amor a si como único possível interiorizado nos textos judaico-cristãos e na cultura ocidental. Contudo em uma sentença vigorosa, a autora indica que o sofrimento do amor encerra que “aquele que ama um reflexo sem saber que é o seu ignora, na verdade, quem é”, (p. 130). E aponta mais adiante uma saída: Narciso se tivesse apercebido de que amava um fantasma teria sido “um intelectual, criador de ficções especulativas, artista, escritor, psicólogo, psicanalista, teria sido Plotino ou Freud.” (p. 139). Percepção esta talvez de todo aquele que escreve.

Kristeva demonstra saber qual a palavra, a sentença, a imagem do texto que analisa que desdobrará a demonstração da interrogação que a persegue. Porque parece que, quando lê o texto, ele lhe interroga como um desvio. Suas interrogações não são clássicas ou superficialmente retóricas, mas derivadas de um incômodo aprendido com as lições da Poesia, da Filosofia, da Psicanálise, nesta, principalmente, com exímios interrogadores que são os textos de Freud e de Lacan.

Quando o discurso da clínica comparece, vem como uma evidência permitida apenas porque antes houve uma análise do mito literário que o precede. Ao contrário do que podemos ler em ensaios de outros estudiosos, uma poeticidade que tenta ocultar a pesquisa por trás do que se demonstra, como se o discurso naturalmente fosse se fazendo, não há em Kristeva esse pudor de obscenamente mostrar a pesquisa executada.

Seu discurso range na fricção entre o poético e o científico, deixando evidente a exaustão das fontes consultadas, analisadas e verificadas em sua ancestralidade e contemporaneidade. A pesquisa parece retornar a seu lugar de investigação do mistério que habita as matérias, uma vez que propõe o imaginário, o desterrado, como o antídoto para a crise, por isso Narciso como figura central, por isso a seção mais densa e nuclear ser a que trata da metáfora que anuncia a questão performática dos trovadores.

Kristeva parece dizer que todo analista precisa assim como Freud e como Lacan analisar o texto literário, como se a queixa da clínica fosse apenas analisável a partir de um mergulho no poético. A queixa é aí uma continuação do mito na criação de um espaço psíquico.

Desse modo, o amor é o lugar da subjetividade, do mapeamento do espaço psíquico, das transferências, dos trânsitos, dos deslocamentos, daí a presença de uma teoria da metáfora. Toda análise só é possível em uma condição de amor. O amor é o espaço do “eu” extraordinário em que se dá a renovação nos vários deslocamentos diante da impotência imposta à linguagem: dizer o amor é uma queimadura (p.24).

Em suma, o amor é o inconsciente, uma idealização (O Outro), ou uma performance como no amor cortês, um jogo de poder, no qual o amor é a morte (p. 400).

Um livro com o título Histórias de amor pode trazer o desejo de se querer ler narrativas sobre um amor água com açúcar com que fomos habituados, embora seja ele também o amor em seu excesso. Porém o livro de Kristeva traz um título que não engana, uma vez que se há histórias de amor, por mais vivificante que sejam, haverá nelas sempre a queimadura e o mergulho no abismo que é olhar para si mesmo.

* Julia Kristeva. Histórias de amor. Tradução Leda Tenório da Motta. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.


Jaqueson Luiz Silva

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