roteiro 77

Porque se deve preferir o impossível verossímil ao possível incrível.

Jaqueson Luiz Silva

A literatura, o teatro e o cinema como roteiro.

O MEDO DE BERGMAN

O cinema de Ingmar Bergman nasce do medo do escuro. O filme A hora do lobo de 1968 é dentro de sua filmografia aquele que mais se apresenta como terror. Entretanto, ao olharmos para alguns outros filmes, o medo parece ser presença constante e condição de sua arte cinematográfica.


Bergman e Liv.jpg Bastidor de A hora do lobo, 1968.

A hora do lobo, aquela em que a maioria dos homens morre, a maioria dos homens nasce, aquela em que nossos pesadelos nos invadem, é a hora em que a personagem de Max von Sydow, um pintor atormentado por suas criações, narra a sua jovem companheira, vivida por Liv Ullmann, seus mais obscuros segredos e medos, no filme dirigido por Ingmar Bergman em 1968.

É o filme em que o diretor sueco caracteristicamente flerta com o terror. Entretanto o que quero dizer neste texto, longe de exaurir a filmografia de um dos grandes nomes do cinema, é que pensando o medo como o cerne do terror e do suspense, ele permeia de maneira, não menos artística, mas mais evidente em A hora do lobo e de maneira intrínseca e mais hermética em alguns outros longas bergminianos.

Passados quase 9 anos da morte do diretor, é possível já ver sua obra como um todo, mesmo que ele mesmo já a tenha analisado e criticado na autobiografia Lanterna Mágica* em 1987 e Wood Allen a caracterizado dentro de um percurso sombrio, em um texto publicado em 1988 no The New York Times. Mas o que penso não seria dizer que haja uma evolução de um filme para outro no tratamento das questões do medo, mas que ele é tratado de diferentes modos, assumindo condições cinematograficamente impactantes que consolidam o nome Bergman como uma espécie de sinônimo para cinema.

O cinema de Bergman nasce do medo do escuro. Em uma das cenas de A hora do lobo, o pintor Johan Borg confidencia à companheira que, quando criança, como forma de punição, fora preso no armário pelo pai, com a sugestão de que lá dentro habitava um anão. Este medo também será trazido à tona nas relações de um menino que transita entre a vivacidade de uma mãe e o definhamento de uma tia enferma em um quarto de hotel em O silêncio de 1963, quando, perdido pelos corredores, acaba se encontrando com um trupe de anões e com eles estabelecendo uma espécie de ensaio teatral. O hotel é aí um armário de várias portas. Em Fanny e Alexander de 1982, os medos e assombros infantis serão mais evidenciados cinematograficamente.

O silêncio.jpg Cena de O silêncio, 1963.

Em Bergman, é no escuro que se criam os fantasmas, os demônios, as criaturas disformes, como em um teatro de marionetes, presença obsedante nos filmes do diretor. A cena de A hora do lobo acima relatada é uma recriação de uma passagem da autobiografia do cineasta, carregada de episódios conflituosos com o pai, um pastor severo e violento. A figura dos pais será sensivelmente filmada por Bille August em 1991 em As melhores intenções, com roteiro do próprio Bergman. Não que a autobiografia explique a obra cinematográfica, mas nela é possível evidenciar sua matéria-prima. Nela, o cineasta diz o seguinte sobre o episódio:

Havia (...) um tipo de castigo espontâneo, que podia ser terrível para uma criança que sofria muito por medo do escuro – prisão mais longa ou mais curta no guarda-roupa. Alma, nossa cozinheira, tinha me contado que dentro do armário havia uma pequena criatura que comia os dedos dos pés de crianças más. Eu ouvia claramente alguma coisa se movendo lá dentro, no escuro; meu terror era total. Não lembro mais o que fazia, provavelmente trepava nas prateleiras ou me pendurava nos cabides para que não me comessem os dedos dos pés. Esse tipo de castigo parou de me assustar quando encontrei uma solução: escondi uma lanterna com uma luz vermelha e uma verde num canto do móvel. Quando me prendiam lá, eu procurava minha lanterna, dirigia o foco de luz para a parede e imaginava que estava no cinema. (p. 23 )*

A hora do lobo.jpg Cena de A hora do lobo, 1968.

Há também a floresta que amedronta com seu mistério aterrador e pulsante. Esses aspectos marcam presença em O sétimo selo de 1957 e A fonte da donzela de 1959, bem como a presença de animais caracteristicamente associados ao imaginário da noite, como o corvo, ou à malignidade, como sapos. Estes dois filmes lidam com o nascimento de terrores que circundam as relações sociais, as relações com a fé e com os ritos incontornáveis como uma dança macabra em que amalgamam vida e morte. Cenas que em películas de caráter mais historiográfico poderiam simplesmente ser vistas como realistas, neles assumem assombramento e espanto pouco convencionais como as cenas de autos de fé, exorcismos, violações, vingança e justiçamento, executados pela força humana, mas assombrados pela morte trapaceira que revela e esconde o jogo e por um Deus que sempre se esconde.

flagelantes-o-setimo-selo.jpg Cena de O sétimo selo, 1957.

seventh_seal_14.jpg Cena de O sétimo selo, 1957.

A fonte da donzela.jpg Cena de A fonte da donzela, 1959.

A fonte da donzela_frog.jpg Cena de A fonte da donzela, 1959.

Pode-se afirmar que A hora do lobo seja um filme caracteristicamente de terror. Porém, como tudo no cineasta sueco, nada é explícito. O aspecto mais marcante é a trilha sonora, em sons metálicos e estridentes que irrompem pelas cenas, do mesmo modo que close-up de rostos assustados e assustadores. Em O silêncio, é o maquinário da cidade estrangeira que empresta som aos medos e terrores das personagens.

A hora do lobo_floresta.jpg Cena de A hora do lobo, 1968.

Em Através de um espelho de 1961, por sua vez, conta-se a história de um escritor em crise e distante dos filhos, amedrontado pela enfermidade da filha, mas que se vê impelido a escrever o processo de desintegração causada pela doença, dando forma aos seus mais terríveis terrores, como as vozes ouvidas pelas frestas de uma parede ou a aparição de um deus aracnídeo pela porta do guarda-roupa. Há aí um pai incapaz de consolar os filhos: uma jovem diagnosticada com esquizofrenia e um adolescente descobrindo os temores da vida adulta e da sexualidade. Assim como em outros filmes, o cenário é composto sempre por imagens desoladas, lodosas, como as ruínas de uma embarcação naufragada. Para enumerar alguns exemplos, em A hora do lobo, há os corredores de um castelo assombrado, em O silêncio, os corredores de um hotel vazio, em O sétimo selo, uma terra assolada pela peste, em A fonte da donzela, uma terra inóspita, em Persona de 1966, um hospital, em Gritos e sussurros de 1972, um casarão isolado.

Através de um espelho_embarcação.jpg Cena de Através de um espelho, 1961.

De outro modo, continuando em A hora do lobo, o terror ganha linhas menos óbvias com a rememoração das memórias obscuras do pintor apresentadas em um formato que lembra a fantasmagoria própria do cinema mudo. Ou em cenas mais experimentais como o momento em que se conta a angústia da passagem de 60 segundos no relógio. Liv Ullmann é a própria agonia nesta cena. Experiências como essas podem ser notadas também em Persona, na tensão do silêncio. Neste sentido, o terror de A hora do lobo vai se diluindo naquilo que pode ser o mais inesperado como um susto ou num susto dentro daquilo que obviamente é esperado. Há o terror de se ouvir o silêncio do oceano calmo dentro da noite, ou da assustadora explicação de uma obra de arte enigmática ou obscura. O desespero dentro da insônia, o murmúrio e o que vai se apresentando como mais assustador para a personagem de Liv Ullmann: a semelhança causada pelo amor.

Luz de inverno de 1963 traz esses medos corriqueiros, mas que emanam das crises existenciais. O sacerdote cuja angústia é magistralmente interpretado em cada respiração por Gunnar Björnstrand, tem sua crise religiosa deflagrada a partir da confissão do medo de um dos fiéis. O medo de que o mundo acabe em um cataclismo nuclear. Aqui o medo de cada um é o medo de todos, uma vez que a paróquia não conta com mais de uma dezena de fiéis. Tudo se passa em uma única luz de um dia de inverno. Assim como em outros filmes, essa densidade dos acontecimentos de um dia associado ao silêncio divino vai impregnando de tom trágico a ação. Uma fala do cavaleiro Antonius Block de O sétimo selo, também em tom apocalíptico, é emblemática neste tipo de assombro: “A fé é uma aflição dolorosa. É como amar alguém que está no escuro e não sai quando se chama”. Mais do que isso, nas personagens bergminianas, que estão sempre de passagem por mundos estranhos a si mesmas, há o medo da peste, da morte, o medo do fim do tempo. E são as contorções do corpo em estado de vida, dor, amor e morte que trazem imagens bastante impactantes de terror. O corpo, convulsionado no desamparo de um quarto de hotel em O silêncio e em agonia num cenário suntuoso de Gritos e sussurros, insinua estados de possessão e de exorcismo.

gritos-e-sussurros.jpg Cena de Gritos e sussurros, 1972.

Por fim, é possível identificar na filmografia de Bergman lugares-comuns com que o chamado filme de terror se faz, visto naqueles de matriz hollywoodiana, ou mais autorais, como o presente em Roman Pollansky de Repulsa ao sexo de 1965, O bebê de Rosemary de 1968 e O inquilino de 1976. Expert em criar filmes em que imiscui entretenimento e o artesanato da cinematografia, ao modo de um Hitchcock, o suspense e o terror em Bergman está em outra medida e de certo modo constante, ou seja, o cinema é arte que lida com os nossos medos e desejos mais presentes. O medo de se dar conta da realidade, de se pôr diante da própria confusão e de não conseguir dar a ela uma forma e compreensão, o medo de se tornar e de se fundir com o outro a ponto de passar a sentir as mesmas coisas, a ter os mesmos delírios, a ver os mesmos fantasmas e de se desintegrar na ação do outro.

Através de um espelho_quarto.jpg Cena de Através de um espelho, 1961.

O cinema de Bergman talvez seja a tentativa de apresentar o grito daqueles que estiveram diante da visão do insondável, do divino, das visões que se tem nos momentos de trânsito, como a morte e das coisas invisíveis.

*BERGMAN, Ingmar. Lanterna Mágica – uma autobiografia: Ingmar Bergman. Tradução Marion Xavier. São Paulo: Cosac Naify, 2013.


Jaqueson Luiz Silva

A literatura, o teatro e o cinema como roteiro. .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Jaqueson Luiz Silva
Site Meter