roteiro 77

Porque se deve preferir o impossível verossímil ao possível incrível.

Jaqueson Luiz Silva

A literatura, o teatro e o cinema como roteiro.

AS EXPERIMENTAÇÕES DO FIM

O fim parece ser a parte mais difícil de alguma coisa. Se o princípio de um prazer instaura uma ansiedade, seu fim, a tristeza. A intolerável percepção da finitude das coisas, de nós mesmos, das pessoas que amamos, de uma história de amor. Mais difícil ainda parece ser o enfrentamento desse fim, lidar com a sua realidade. Mais ainda, no coração mesmo da angústia, escolher passar pelo fim. Ou pior, escolher atravessar a aceitação desse fim. Talvez não haja atitude mais deliberativa e ética do que escolher e aceitar o fim das coisas.


sunrise by the ocean.jpg Sunrise by the ocean. Vladmir Kush

A vida constantemente nos apresenta estas experimentações de fim, como os finais de ano, os finais de estações, o último pedaço de bolo, os últimos minutos da canção favorita, o fim de um amor. Entretanto parece que as não escolhemos viver e aceitar como experiência e aprendizagem de fim. Tudo parece ser muito subtraído em uma experiência vendida e comercializada e não como uma profunda consciência de que o fim também é uma condição das coisas, que as integra, que nos integra. O que sentimos diante desses fins parece ser algo pouco descrito, pouco catalogável, parece que apenas nos desesperamos.

Há uma música de Gonzaguinha que diz haver um fundo do fim. E a chegada a esse fundo acontece depois da descoberta de que haveria uma força interna que fizesse de repente chegar ao quase inverossímil e surpreendente fundo do fim. E esse fundo é, por meio de uma força interna que em um dado momento do fim se descobre, estar de volta ao começo, o título mesmo da canção, como um ciclo ou círculo, se quisermos. Um fim pode ser feito de muitas e infinitas partes, fases, até o termo. Mesmo o fim é um processo, não um de repente.

O fim parece ser a parte mais difícil de alguma coisa. Se o princípio de um prazer instaura uma ansiedade, seu fim, a tristeza. A intolerável percepção da finitude das coisas, de nós mesmos, das pessoas que amamos, de uma história de amor. Mais difícil ainda parece ser o enfrentamento desse fim, lidar com a sua realidade. Mais ainda, no coração mesmo da angústia, escolher passar pelo fim. Ou pior, escolher atravessar a aceitação desse fim. Talvez não haja atitude mais deliberativa e ética do que escolher e aceitar o fim das coisas.

O filme Fim de caso, 1999, de Neill Jordan, leva essa escolha às últimas consequências, quando um dos amantes resolve pelo fim, sem maiores explicações que, sem trocadilhos, apenas no fim do filme se saberá a razão dessa escolha.

cena do filme fim de caso.jpg cena do filme Fim de caso

Experimentar o fim de algo seria como experimentar exercícios de morrer. É o que diz Montaigne da Filosofia em seus Ensaios, quando medita sobre a finitude da vida humana:

Se fosse escritor, anotaria as mortes que mais me impressionaram e as comentaria, pois quem ensinasse os homens a morrer os ensinaria a viver. *

Por isso, fingir que o fim não está presente dentro da vida, como uma substância, algo tão cotidiano como a nossa presença, é legítimo como medo. Medo do fim. Mas o fim também é objetivo, finalidade, a chegada. Chegar ao fim de uma narrativa, um conto, uma história, um romance que nos prendem, suspendem e tomam completamente nossa vida na leitura é experimentar o colapso e desmoronamento de toda uma entrega. Mais do que o fim da história, o olho que lê vê o dilacerante fim. E quanto mais adiada for a leitura desse fim, mais a vida parece paralisada, imprecisa, um retorno constante a uma tarefa inútil como a de Sísifo a lançar de volta a pesada pedra que com tanto esforço o levou ao começo do fim. Sísifo padeceria da dramática impossibilidade do fim e da dolorosa percepção de se ver impedido de continuar e de poder ver outras experiências.

mito_de_sisifo.jpg Sisyphus,Ticiano, 1548-1549 (Museu do Prado).

Fernando Sabino, na celebrada passagem do igualmente celebrado Encontro Marcado, diz:

De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro. **

Quando é que podemos saber quando algo, uma história, uma experiência está chegando ao fim? Quando escolhemos vivê-lo, parece, quando com todo o medo e aflição de não mais se recuperar, ou possibilidade de existir, depois de assistir ao filme, série ou de ler o livro favorito, ou de se desintegrar na evidência do fim de um amor, escolhemos mesmo assim viver e ver o fim, como parte das coisas, porque às vezes o fim é com um sol siderante, mas mesmo o fim pode bem ser uma luz no fim de uma escuridão universal.

*MONTAIGNE, Michel de. De como filosofar é aprender a morrer. Ensaios. Tradução de Sérgio Milliet. 4ª. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1987. **SABINO, F. III – O Escolhido in O Encontro Marcado. Editora Record. 95ª edição. 2014, p. 177.


Jaqueson Luiz Silva

A literatura, o teatro e o cinema como roteiro. .
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