roteiro 77

Porque se deve preferir o impossível verossímil ao possível incrível.

Jaqueson Luiz Silva

A literatura, o teatro e o cinema como roteiro.

NURI BILGE CEYLAN: INTROSPECÇÃO CINEMATOGRÁFICA

Nuri Bilge Ceylan é um cineasta da paciência, que imagem por imagem busca naquele que assiste a evidência do que é visto, em um movimento que cria a arte cinematográfica de dentro para fora, de fora para dentro: uma introspecção cinematográfica.


Sono de inverno 3.jpg Cena de sono de inverno, 2014

Nuri Bilge Ceylan não é um diretor de um cinema acessível, mesmo sendo um nome reconhecido de festivais, principalmente o de Cannes, no qual tem sido premiado constantemente nestas duas últimas décadas. Esta inacessibilidade pode se dar também muito por causa do modo como a indústria cinematográfica está estabelecida, favorecendo em sua maioria a distribuição do que é considerado comercial, talvez no que dificilmente se enquadrem os filmes do diretor turco, atentando para um aspecto simples que é a duração da maioria dos filmes, estendendo-se para mais dos acostumados 120 minutos. O seu último filme, laureado com a Palma de Ouro em Cannes 2014, Sono de inverno, dura 3h e 16min.

Muitas vezes, este cinema, fora de uma ideia senso comum do entretenimento, é classificado como cinema de arte, como cult, ou seja, cultuado ou um cinema para iniciados, ou mesmo de forma pejorativa como “cabeçudo”, “monótono”, o que pode fazer sentido se é discutido numa perspectiva elitista ou para elitizar. Porém, quando falamos desse tipo de cinema, em sua suposta inacessibilidade, falamos em jornada e disposição do espectador como exercício de atenção, como um cinema em que os caminhos não são dados diretamente. O exercício é físico, porque do olho exige-se atenção, é mental, uma vez que as cenas se montam na introspecção do espectador, ou seja, é como se a montagem se desse na duração do filme projetado nos olhos do espectador, como uma meditação.

Distante.jpg Cena de Distante, 2002

É bem possível afirmar aqui que toda essa introspecção seja conjunta. O filme como artefato artístico é uma reflexão e depuração de Nuri Bilge Ceylan, todavia passa pelas suas personagens, todas sempre em profunda meditação existencial, passa pelos enquadramentos, pela fotografia que pede a evidência e contemplação, feito pintura. E há o absurdo silêncio muitas vezes quebrado por ruídos impactantes e que promovem conflitos dentro de um roteiro aparentemente lento, de diálogos analíticos, de um arrastar quase cotidiano, como se o diretor obcecadamente buscasse filmar, ou melhor, fotografar a lentidão que segundos contados podem ter. Nota-se aqui que Ceylan também é fotógrafo, o que faz ver em seus filmes quase um desmonte da ideia original de cinema, em que a velocidade dos frames é o que projeta o filme, o que se vê é a velocidade alentada para que se veja fotografia por fotografia.

Era uma vez na anatólia.jpg Cena de Era uma vez na Anatólia, 2011

Proponho essa perspectiva a partir de três dos seus filmes, o já mencionado Sono de inverno, o igualmente longo Era uma vez na Anatólia (2011) e Distante (2002) que compõe uma espécie de trilogia com Climas (2006) e 3 macacos (2008). Há quem associe estes três filmes à celebrada trilogia da incomunicabilidade de Antonioni em A aventura (1960), A noite (1961) em O eclipse (1962). É bem possível de aparentar o cinema de Nuri Bilge Ceylan ainda a uma leitura muito atenta de mestres da imagem e do silêncio como Bergman, Angelopoulos e Kieślowski.

Em Distante, temos uma trama simples: um fotógrafo recebe como hóspede um primo que vem de uma aldeia do interior em busca de emprego na cidade grande, Istambul. Este parentesco e hospitalidade aparentemente apresenta uma proximidade, mas que deflagra a distância não apenas geográfica, mas da existência das personagens, suas buscas, seus limites, seus desejos. Este tão perto e tão longe é o centro conflitivo que tencionará a relação dos dois homens, silenciosamente presente nas imagens inócuas da televisão que denota o tédio existencial do fotógrafo e o frio das ruas percorridas por Yusuf na ansiedade por se alocar, colocar-se, em um desconforto de parecer estar deslocado, sempre no lugar que não é seu e que de certo modo é o que se evidencia também em seu primo Mahmut. A fotografia como lente que aproxima dos olhos a paisagem e o desejo da vista é aqui a possibilidade de capturar na imagem o longe e o perto que é o sentido de uma distância.

uzakasd.jpeg Cena de Distante, 2002

A frieza atmosférica é retomada em Sono de inverno, cujas paisagens das estepes da Anatólia é o contraponto para uma imaginada e distante Istambul de onde se refugia o ator aposentado Aydin, em seu hotel, cujo nome referencia a trama trágica de Shakespeare, Otelo. O poeta inglês será citado diversas vezes no decorrer do filme, evidenciando que estamos diante de alguém que cumpre papéis, talvez seu maior erro. Assim como em Distante, o tédio existencial parece angustiar as personagem e, em diversos momentos, os diálogos entre as personagens, principalmente entre Aydin e sua jovem esposa Nihal, encenam enredo shakespeariano para um desenrolar trágico. O desenrolar do filme se dá a partir de uma dispersão imagética para o arranjo narrativo. O conflito que dispõe suas personagens em cena se dá como um despertar lento, imagem a imagem, em uma inversão conflituosa que apenas tem a possibilidade de evidenciar no final, no qual se falam de culpas, de uma grande culpa.

sono de inverno 1.jpg Cena de sono de inverno, 2014

Culpa que em Era uma vez na Anatólia está declarada logo no início. O enredo trata da jornada de policias, um advogado e um médico legista que levam um suposto assassino, dentro de uma noite agonizante e exaustiva, a buscar o corpo da vítima enterrada em um lugar de que o acusado não se lembra mais. As paisagens da Anatólia postas em penumbras e em uma luz fria associam-se à presença silenciosa e introspecta do acusado em um semblante pesado, pode ser de culpa, pode ser de esgotamento, mas que se rebenta em uma cena poderosa e catártica em que vai às lágrimas diante de um ato de fraternidade.

era-uma-vez-na-anatc3b3lia.jpg Cena de Era uma vez na Anatólia, 2011

Nuri Bilge Ceylan fez em Sono de inverno o caminho contrário que fez Era uma vez na Anatólia. No início deste, há um conflito pontual, como em filme policial explícito, que cena a cena vai se dispersando, arrefecendo, lentamente a história aparente vai se enuviando, desconcentrando-se do destino do suposto assassino, da vítima, para se encaminhar na personagem que de fato está à deriva, à procura de um centro no seu destino. É preciso a paciência para acompanhar a história e se dar conta de qual história esse era uma vez conta.

era-uma-vez-na-anatolia-1024x435.png Cena de Era uma vez na Anatólia, 2011

Nuri Bilge Ceylan é um cineasta da paciência, que imagem por imagem busca naquele que assiste a evidência do que é visto, em um movimento que cria a arte cinematográfica de dentro para fora, de fora para dentro: uma introspecção cinematográfica.


Jaqueson Luiz Silva

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