roteiro 77

Porque se deve preferir o impossível verossímil ao possível incrível.

Jaqueson Luiz Silva

A literatura, o teatro e o cinema como roteiro.

O AMOR QUE É

O amor é uma dessas coisas da vida que desafiam nossa vontade de definir, de dar sentido e nome para tudo. Mas como coisa inapreensível, o amor parece resistir a uma forma e se contenta em apenas tomar forma, em poesia, em filme, em canções, em palavras declaradas. E dessa forma o amor é o que é.


O beijo toulousse latrec.jpg Os amantes. René Magrite (1928)

Ouvimos sempre que amor é difícil de se definir. E isso já é uma definição. Definição enquanto coisa provisória e transitória: de passagem. Paradoxalmente, então, o amor é. O amor é sempre alguma coisa. Metamorficamente, alguma coisa. Mesmo amor não correspondido é amor. É dor na celebrada rima: amor é dor. Deixa de ser, portanto, se ela passa, e passa ser outra coisa.

E seguindo a categoria gramatical em que as palavras assumem formas, a morfologia, é na metamorfose das palavras que talvez o amor busque novas artes, como bem disse Camões em um soneto. É Narciso que não pode mais ser mais Narciso, para ser flor, no mito ancestral do amor por si mesmo.

Nos últimos versos de um outro soneto de Camões, o mais célebre, talvez, é possível de entender que o amor é contrário. Entender mais do que ser definido por contrariedades, ou, como muitas explicações didáticas dadas sobre a dificuldade desse poema, celebremente antitético. Mais do que contrário a si mesmo, se nas palavras dos versos é possível de ver: Mas como causar pode seu favor/Nos corações humanos amizade,/ Se tão contrário a si é o mesmo Amor? Ou mais do que a definição de que o amor é ao contrário, ou mais do que o amor o contrário da amizade, o amor aí é contrário. Contrário pode ser tudo o que alcança o seu limite e dá a volta em si mesmo, formando um círculo, ou ciclo, um todo, um corpo inteiro, para ser outro limite. O contrário é a volta, o outro lado, deixar de ser, virar do avesso. Assim o amor é contrário.

Em Cantares do sem-nome e de partidas de Hilda Hilst, amor é fim, amor é partida, uma vez que aparece aí apenas no fim. Apenas na partida pode ser visto o todo do amor.

Que este amor não me cegue nem me siga./ E de mim mesma nunca se aperceba./ Que me exclua do estar sendo perseguida/ E do tormento/ De só por ele me saber estar sendo./ Que o olhar não se perca nas tulipas/ Pois formas tão perfeitas de beleza/ Vêm do fulgor das trevas./ E o meu Senhor habita o rutilante escuro/ De um suposto de heras em alto muro./

Que este amor só me faça descontente/ E farta de fadigas. E de fragilidades tantas/ Eu me faça pequena. E diminuta e tenra/ Como só soem ser aranhas e formigas./

Que este amor só me veja de partida.

Amor e amizade.jpg Amor e amizade. Mônica Ozánis Fortis, 2013.

Versos como esses levam a pensar que apenas no fim é possível ver do amor o seu início e meio e dar-lhe o nome de amor, uma vez que sem nome. Apenas na partida parece poder ser vista a carnadura do amor, seja para continuar sendo, retomada sua condição de vivência, seja para deixar que fique sendo apenas o amor que pôde ter sido.

Talvez por isso as histórias de amor mostrem esse mesmo amor nos seus finais felizes. Ou mesmo as de finais infelizes, uma vez que o amor é fim, como finalidade, como busca, como integridade.

É muito interessante de ver histórias de amor quando o amor dá volta para mostrar o que é. No recente filme Amor Eterno de Giuseppe Tornatore, 2016, para dar um exemplo, amor é distância, se se entende comumente que para ser amor há que se ter proximidade. A história dá conta de um amor entre um professor de astrofísica e uma ex-aluna. Eles estão separados pela geografia, pelo tempo e por uma tragédia que os separa ainda mais. Porém, correspondem-se frequentemente alimentando a proximidade na distância. A evidência desse amor que está ali, o que ele é, revela-se nesse intervalo dos corpos e das presenças. O amor se compreende na dimensão da distância como o espaço de luz que há entre uma estrela e outra, de uma galáxia e outra, simplesmente, de um espaço e outro, simplesmente de um corpo e outro.

corry.jpg Cena de Amor eterno, 2016

Apenas para se pensar com outro grande poeta do amor, Vinícius de Moraes no poema Ausência mostra que só é possível de ser o amor naquilo que não está, onde ele não está, onde ele não é: Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado/Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados. O amor é onde ele não é/está se estes dois verbos substanciam as coisas da vida e do mundo. Junto com o poema de Hilda Hilst, aqui o amor é partida e também é ausência: Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir. Incrivelmente, a poesia parece dizer que o amor sempre será quando não for. Quando não for o que já se acredita sobre ele.

Como eu disse no início deste texto, longe de definir amor, coisa que a poesia nunca o fez, mas apenas apresenta as formas, e são infinitas essas formas que o amor tomou e toma, quis apenas escrever por alguns exemplos que me vêm sobre o transitório que é falar sobre o amor, que isto talvez seja possível apenas depois de o experimentar, de o viver, sem saber o que é. O amor assume muitas formas, parte do senso comum já concorda. E a escrita, a poesia, a filosofia, os discursos, o cinema vão apenas contorná-lo no inapreensível substantivo que é.


Jaqueson Luiz Silva

A literatura, o teatro e o cinema como roteiro. .
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