rubinho borges

Falando sobre as coisas da vida

Eustáquio Borges

Apaixonado por textos desde criança. Acha que escrever é deixar a alma voar para a mente não enlouquecer.

A culpa é das cerejeiras

O passado é a fome que aumenta à medida que se vai alimentando e pouco a pouco paralisa a vida e transforma todos em estátuas de sal, é o monstro que aterroriza não só à noite, mas ao dia ou em qualquer outro momento em que é chamado.


cerejeira (1).jpg

“Livra-te, salva a tua vida; não olhes para trás, nem pares em toda a campina; foge para o monte para que não pereças.” Bereshit (Gênesis) 19:17

Foi dito a Lot e a sua família que abandonassem a cidade de Sodoma e não olhassem para trás, porém sua mulher se recusava a esquecer todo seu passado, lembrava-se dos momentos felizes, de toda uma vida que havia vivido e se esquecia que um futuro novo a aguardava ao abandonar sua cidade. Ela não resistiu à tentação e olhou para trás. Sua punição? Foi transformada em uma estátua de sal.

Se prender ao passado é a condenação de não viver o presente e encarar a vida como ela se apresenta. Esse é o tema central da última peça escrita pelo russo Anton Tchékhov e publicada em 1904, "O Jardim Das Cerejeiras".

A peça, de fácil leitura, contém apenas quatro atos e é lida em apenas uma tarde daqueles dias em que tudo o que você precisa é de um momento só seu e um bom livro.

Com cenas de humor, sem ser um pastelão, a obra de Tchékhov te leva até uma cidadezinha na Rússia pós Czarismo e te coloca dentro da propriedade de Liuba Raniévskaia, uma aristocrata falida que vive fugindo da sua real situação econômica agarrando-se a um passado de glória e cultuando o símbolo máximo de todo aquele tempo: um suntuoso jardim de cerejeiras que não tem nenhuma utilidade.

Quando o presente está difícil e apresenta momentos de sofrimento, é muito comum as pessoas olharem para trás e se lembrar de momentos felizes no passado. A mente humana precisa de refúgios para descansar de tanta agitação; é normal a alma querer um pouco de paz e, quando não se há certeza de que bons tempos virão no futuro, ou de que a situação turbulenta atual irá acabar, acaba encontrando esse falso conforto nas lembranças de algo que já não exite mais, ou que até mesmo nunca tenha existido; o cérebro costuma pintar com cores alegres o conhecido, mesmo que o conhecido não tenha sido tão bom.

Ninguém nasce desbravador, ninguém nasce corajoso e aventureiro. O bebê quer sempre o colo materno onde ele já conhece os afagos e ternuras e sabe que lá é bom. As crianças assistem ao mesmo filme várias vezes por já saber o que vai acontecer e, assim, terem um controle. Os adolescentes, dificilmente, aceitam um novo membro no seu círculo de amigos. Os adultos traçam planos e ficam frustrados quando as coisas não acontecem da forma como foi meticulosamente organizada. Os velhos são tão agarrados às suas manias, à sua casa que tornam-se rabugentos com os mais novos que não seguem suas regras e, frequentemente, morrem quando são obrigados a mudar de casa.

A personagem central na peça de Tchékhov é o símbolo que um apego ao passado não cura ninguém de seus medos e impede que o progresso na vida aconteça.

Liuba está sempre dizendo que não pode deixar seu passado para trás e seguir adiante, o que não passa de uma mentira que ela conta aos outros e a si mesma como desculpa para não encarar a realidade. Ninguém consegue apagar o passado ou deixar de ser o que se tornou por causa dele ou também deixar de encarar a responsabilidade pelos seus atos e suas consequências, mas isso não significa que se deva ficar sempre olhando para ele e vivendo das alegrias que uma vez fizeram parte da vida.

"(...) Se eu pudesse tirar de cima de mim esse peso que me esmaga, se eu pudesse esquecer o passado." Liuba, ato I.

Não que seja errado lembrar daquilo que se viveu, das coisas boas que confortam em dias de tristeza, o que não se pode fazer é como essa família russa que se recusa a aceitar que a vida muda, que os tempos mudam e que não somos como árvores que ficam sempre presas no mesmo lugar, apenas existindo, no máximo trocando de folhagem, mas sempre imóveis no mesmo lugar.

O passado é a fome que aumenta à medida que se vai alimentando e pouco a pouco paralisa a vida e transforma todos em estátuas de sal, é o monstro que aterroriza não só à noite, mas ao dia ou em qualquer outro momento em que é chamado. Pessoas saudosistas em excesso vão regredindo na vida, mas nunca para aquele ponto que elas lembram, vão regredindo na vida no sentido de ir perdendo tudo o que têm e empobrecendo a vida até um momento em que deixam de ser humanos para serem alguma peça de algum museu particular que tem uma história, mas nenhum futuro.

O jardim está lá na propriedade, belo, suntuoso, majestoso, a relíquia que perdura com o passar das estações, contudo, totalmente desnecessário, fútil e, o pior, impedindo que o progresso aconteça. Todos têm um jardim assim em suas vidas, todos têm aquela lembrança, aquele símbolo dos "tempos bons"; sendo jovens ou velhos, colocamos nas nossas vidas esse jardim e deixamos que ele nos represente, o usamos como símbolo de status daquilo que tivemos, que fomos, mas, feliz ou infelizmente, não representa mais quem somos. Ainda que seja fácil tentar viver daquela glória, daquela boa lembrança e recordação, o jardim vai sempre ocupar o lugar de algo melhor, vai impedir que melhoremos o presente.

Ele está ali, continua sendo cultivado, mesmo sem serventia, é um objeto de ornamento e disfarce para o que queremos esconder, para tirar o foco do que é importante. Pode ser um título, um prêmio, uma nota boa, qualquer coisa que simbolize algo que você viveu e foi feliz, mas que não representa sua vida atual e nem quem você é hoje em dia. Ainda bem que sempre mudamos, que não vivemos de apenas uma glória, que sempre estamos em constante movimento. Não se permita ser assombrado com algo que te impede de viver o agora.

"(...) Oh, é horrendo! Teu cerejal me apavora. Quando à noite eu o atravesso, as cascas das árvores brilham tenuemente na escuridão, as velhas cerejeiras parecem transpirar os séculos passados retorcidas por visões horrendas. É. Estamos atrasados pelo menos duzentos anos, não acompanhamos o tempo, não progredimos nada - não conhecemos nem nosso passado. Não fazemos coisa alguma; filosofamos, choramingamos o nosso tédio e bebemos vodca. É claro que para viver no presente temos primeiro que redimir nosso passado, romper com ele". Trófimov, ato II

Somos quem somos, estamos onde estamos devido ao nosso passado, mas tudo o que seremos, tudo o que viveremos dependerá das nossas escolhas no presente. Não importa quem você foi, o que você teve, o que importa é como você está agora, o que você é agora. Se você já teve algo e não tem mais, conquiste novamente, lute; se não gosta de como está vivendo agora, de quem você é, entenda que quem fez isso foi você mesmo. Se reinvente. Faça qualquer coisa, apenas não fique vivendo do que já não existe mais. Não deixe que o jardim continue lá, bonito, mas sem utilidade.

No Brasil, a peça de Tchékov tem várias impressões, aconselho a da editora L&PM com a tradução de Millôr Fernandes e que ainda vem com outra peça: Tio Vânia.

26068_jardim-das-cerejeiras-o-seguido-de-tio-vania-col-l-pm-pocket-283581_L3.jpg

Faça um favor a si mesmo e passe uma tarde com a família da madame Raniévskaia na Rússia do início do século XX e descubra que se prender ao passado é tão fatal quanto dar um tiro na própria cabeça.


Eustáquio Borges

Apaixonado por textos desde criança. Acha que escrever é deixar a alma voar para a mente não enlouquecer..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @obvious //Eustáquio Borges