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Falando sobre as coisas da vida

Eustáquio Borges

Apaixonado por textos desde criança. Acha que escrever é deixar a alma voar para a mente não enlouquecer.

As Horas: Nem todas nascem para ser mãe

As opções na vida de uma mulher na década de 1940 eram muito diferentes das que existem hoje em dia e, ao mesmo tempo, muito parecidas. Grande parte da população, inclua-se aqui mulheres também, acha que a grande sorte de uma mulher é ter filhos e viver feliz com um marido, caso isso não fosse realidade, os contos de fadas nos quais a princesa só tem seu final feliz quando consegue encontrar seu príncipe encantado não fariam, ainda hoje em dia, tanto sucesso.


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O filme de Stephen Daldry, As Horas (2001), mostra o dia mais importante na vida de três mulheres em época diferentes. A autora inglesa, Virginia Woolf (Nicole Kidman), no dia em que ela decide escrever seu livro mais famoso, "Mrs Dalloway", no ano de 1923. Clarissa Vaughn (Meryl Streep), no ano de 2001, é a personificação da personagem do livro de Virginia, a mulher que vai dar uma festa e esse dia será crucial para sua vida. A última mulher é a personagem tema desse texto: uma dona de casa de Los Angeles, no ano de 1949, chamada Laura Brown (Julianne Moore), o que de importante acontece no dia dessa mulher? É o dia em que ela decide largar seu marido e seus filhos para ser feliz.

O filme, baseado no livro homônimo de Michael Cunningham, merece ser visto pela sensibilidade com que mostra o drama dessas três mulheres que têm em comum o desejo de serem "livres" para serem felizes.

Virginia é a autora que se vê obrigada a morar no interior da Inglaterra por causa de seus problemas mentais e que está sempre sob a supervisão de médicos, empregados e do marido, Leonard Woolf. Cansada de ser sufocada por tantos cuidados ela usa a literatura como válvula de escape para exorcizar seus demônios interiores e escreve sua obra-prima baseada em suas próprias reflexões.

Clarissa é a mulher que trabalha e tenta cuidar de todos ao seu redor, aquela que, de tanto tomar conta dos outros, vai se prendendo a eles e termina sem ter tempo para cuidar de si mesma, e acaba por não ter a liberdade que precisa. Por fora aparenta ser uma mulher forte, mas que está caindo aos pedaços por dentro.

Finalmente, Laura Brown, a dona de casa que, aparentemente, tem tudo que se é preciso para ser feliz: uma casa, um filho pequeno e outro ainda na barriga e o mais importante, para os padrões da sociedade em que ela vive na década de 1940, um marido que a ama. Mas, a verdade é que nada disso tem importância para ela, e essa vida de "casa de bonecas" a está matando dia após dia.

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Talvez a maioria das pessoas queira condenar uma mulher que é capaz de colocar seus interesses pessoais na frente de qualquer coisa e que abandona seus filhos para viver sua própria vida. Provavelmente, muitos podem pensar: Se ela não queria filhos, então, que não os tivesse. Mas, e se fosse com você? E se você não tivesse escolha e tivesse que seguir o padrão de moral e bons costumes da sociedade? Se não se tratasse de abandonar os filhos, mas alguma outra coisa que a maioria das pessoas diz ser importante, mais importante do que sua própria felicidade? Você ainda se sentiria confortável para dizer que abriria mão da sua felicidade para seguir o padrão da sociedade?

As opções na vida de uma mulher na década de 1940 eram muito diferentes das que existem hoje em dia e, ao mesmo tempo, muito parecidas. Grande parte da população, inclua-se aqui mulheres também, acha que a grande sorte de uma mulher é ter filhos e viver feliz com um marido, caso isso não fosse realidade os contos de fadas nos quais a princesa só tem seu final feliz quando consegue encontrar seu príncipe encantado não fariam tanto sucesso ainda hoje em dia.

Você pode ver o filme e pensar que Laura Brown é uma mulher depressiva e que por causa dessa doença ela abandona seus filhos, mas você deveria pensar que a essa mulher foi "imposto" que ela seria uma dona de casa e que viveria para criar seus filhos e preparar a casa para seu marido e que essa vida não era a que ela queria para viver e que, na verdade, a estava matando.

Laura Brown não é um elogio ao abandono familiar para o prazer hedonista e desmedido, Laura Brown devia ser o símbolo de como uma sociedade opressora pode fazer com que as mulheres, aos poucos, morram pelo terrível e cruel fato de uma sociedade desigual não lhes oferecer a chance de buscar aquilo que seus corações precisam.

Antes de apontar o dedo para essa personagem, de condená-la e dizer que só um monstro abandona seus filhos, pense em quantos homens não fazem isso. Quantas mulheres não são obrigadas a cuidar de seus filhos sozinhas porque o pai não quis assumir essa responsabilidade e, ainda assim, essa mulheres são "mal vistas".

No filme há várias cenas, em apenas um único dia na vida dessa mulher que mostra suas tentativas de buscar uma solução para sua infelicidade, como a cena em que ela prepara o bolo de aniversário para seu marido mesmo não vendo significado nisso, essa é a cena em que essa mulher tenta se "encaixar" naquilo que esperam dela. Outra cena muito forte é a do quarto de hotel quando ela busca no suicídio a chance de escapar de todo o sofrimento e vazio que é sua vida, é nessa cena de rara beleza que ela é, literalmente, afogada por toda sua tristeza.

Laura Brown é aquela personagem coadjuvante que precisa de um olhar mais atento para que sua grandeza seja percebida, uma audiência sem muita atenção pode não perceber a força e coragem que foram necessárias a essa mulher para largar seus filhos, ainda que em uma situação de amparo, já que eles ficam com o pai, e escolher a vida do que a morte. Há em Laura Brown aquilo que falta em muitas pessoas, o desejo de buscar a realização de seus sonhos, a coragem para assumir que ela não nasceu para ser mãe, mesmo depois de já os ter tido, e entender que isso não é pecado.

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No final ela acabou fazendo a melhor coisa para seus filhos ao aceitar que se ela se permitisse ficar presa àquela vida, por puro convencionalismo, ela nunca seria a boa mãe que eles mereciam ter. Ela pode ter passado a vida toda com a culpa de os ter abandonado, mas nunca com a culpa por ter destruído suas vidas por não ter sido a mãe que ela nunca poderia ser.

Nem todas nascem para ser mãe e não existe um mal nisso. Se Laura Brown merece ser condenada, certamente, não é por não ter nascido para ser mãe ou por ter deixado seus filhos, ela deve ser condenada por não ter fugido daquela vida antes de os ter, mas deve ser redimida pelo mal maior que ela evitou ao ir embora de suas vidas.


Eustáquio Borges

Apaixonado por textos desde criança. Acha que escrever é deixar a alma voar para a mente não enlouquecer..
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