rubinho borges

Falando sobre as coisas da vida

Eustáquio Borges

Apaixonado por textos desde criança. Acha que escrever é deixar a alma voar para a mente não enlouquecer.

Nossa Nação É Uma Utopia?

O que define e faz uma nação? São os valores sociais, culturais, geográficos e econômicos de seu povo? O governo trabalha para nós ou o contrário? Até que ponto somos irmãos lutando do mesmo lado? Vivemos a realidade ou desejamos a utopia?


Goldenes-Zeitalter-1530-2.jpg

“Dois homens são da mesma nação se e somente se eles se reconhecem como pertencentes à mesma nação. Em outros termos, são os homens que fazem a nação.” Ernest Gellner

A melhor forma de um governante fazer com que seus seguidores lhe obedeçam é dizendo que eles terão o mesmo poder ao cumprirem suas ordens, pois todos defendem o mesmo ideal. “Todos somos iguais!” é o grito de ordem do socialismo. Seria muito bom se fosse verdade, mas, feliz ou infelizmente, não é. Somos diferentes apesar de lutarmos pelas mesmas causas, de falarmos a mesma língua, de partilharmos a mesma cultura. O conceito de nação tende a unir todos aqueles que compartilham o mesmo estado geográfico, mas não é só disso que se faz uma nação.

O espírito do nacionalismo deve ser encabeçado por aqueles que realmente almejam a partilha igual de direitos e deveres para com todo o seu povo. É preciso entender que em qualquer sociedade há diferentes tipos de trabalhos e que não há maior ou menor importância quanto a eles. O servente exerce um papel tão importante quanto o do professor que por sua vez também exerce um trabalho de importância igual ao do diretor. Mas, há de se entender que são trabalhos diferentes. A diferenciação de tipos de trabalhos não pode permitir uma hierarquização social dos mesmos. Assim deve ser com qualquer governo; um presidente não pode se sentir superior aos seus eleitores só pelo cargo que assumiu devido ao voto deles.

Dizer que somos iguais é uma frase que só pode ser usada se estiver relacionada ao fato de todos sermos seres humanos, nunca aos nossos trabalhos. Todos temos direito ao respeito, seja pessoal ou profissionalmente, mas não os mesmos deveres no que se refere ao mundo profissional e, portanto, as responsabilidades mudam e as recompensas também. A um médico é exigido uma concentração e assertividade maiores do que a um cozinheiro, é justo, então, que o médico receba mais por isso. O que não é permitido é assumir que um é mais importante e o outro dispensável.

Muitos são os fatores que levam uma pessoa a se tornar advogada e outra a se tornar cantora. Entre situação econômica e desejo pessoal, há uma longa estrada que nos faz optar por uma carreira e não por outra. A noção de relevância profissional não se dá devido ao salário, mas fora construída baseada numa cultura preconceituosa de castas sociais. É imperativo que esse sistema caia e que surjam novos seres que entendam que nem todos nasceram com o desejo, vocação ou talento para ser um líder, há aqueles que se tornam felizes sendo servidores.

Quando um governante de origem pobre sobe ao poder e diz que as classes altas não suportam a ideia de um pobre se tornar rico, ele não diz, mas subentende-se que ele assim o fez, não para trabalhar em prol de seu povo, mas sim para enriquecer. Quando um governante dá a "ordem" a seus seguidores de lutar por ele cegamente e, dessa forma, ser um igual possuindo o mesmo “status” que ele é falsa e perigosa. Ao despertar no coração de seu povo essa chama de igualdade, desde que se siga os mesmos passos e obedeça o mesmo ideal, esse líder cria a ideia de que quem o segue é mais importante; é a partir desse momento que se cria uma luta de classes cujos defensores do governo serão melhores que os opositores de acordo com o ponto de vista de uma determinada parcela da sociedade.

O paradoxo da liberdade é que ela só pode nascer a partir da repressão. É assim desde que nascemos e somos criados em família, em sociedade. Nossos pais nos “enfiam goela abaixo” suas crenças religiosas, seus dissabores, suas preferências esportivas e somos “obrigados” a aceitar tudo porque não conhecemos outra bússola norteadora que não eles. A medida que crescemos, vamos desenvolvendo a capacidade de pensar por nós mesmos e refletir sobre o que é certo ou não para nós. A adolescência, período conhecido pela rebeldia, é quando o filho começa a questionar tudo que lhe foi imposto. O livre-arbítrio é nosso e podemos decidir se queremos continuar sendo parte da corrente ou romper com os elos que nos mantêm presos. Nenhuma ruptura é fácil e, possivelmente, dolorosa, cabe a nós a consciência de tentar mitigar essas dores ou aumentá-las. Porém, para que possamos decidir para que lado vamos seguir, é necessário conhecer os dois lados da moeda, ter, sim, pelo menos no início, uma visão dicotômica do bem e do mal. Opositores nos abrem os olhos para outras possibilidades e escolhas que, até suas chegadas, não conhecíamos.

Thomas More criou uma ilha imaginária onde não havia duas visões sobre as coisas, ou se havia todos só seguiam uma, todos trabalham em prol do bem comum, da paz igualitária onde direitos e deveres eram iguais a todos os seus moradores.

Se a Utopia fosse adaptada ao mundo no qual vivemos, sofreria algumas alterações, mas ainda seria a Utopia, terra das maravilhas. Em Utopia, todos seríamos cantores de música popular que vivemos da glória do passado, tempo no qual cantávamos as dores daqueles que vivem em outras terras que não Utopia e sofrem, mas nós mesmos desconhecemos essas dores porque somos cantores que vivem em um mundo diferente daqueles de quem cantamos as dores. Nós, cantores, apoiaríamos a rainha de copas que antes representava a igualdade e o direito pelo qual lutamos para manter nossa terra unida, mas que governa fazendo o oposto. Mas, em Utopia, somos cantores orgulhosos demais para admitir que o conto de fadas acabou.

Em Utopia, seríamos funcionários de uma grande empresa de comunicação que nos permite chamá-la de manipuladora, faríamos isso porque saberíamos que nossos salários altos estão seguros porque se sofrêssemos represália, a grande empresa estaria dessa forma afirmando o que dizemos sobre ela. Lá, em Utopia, seríamos livres para chamar de censor quem nos permite trabalhar e nos expressar.

Em Utopia, daríamos um dedo para não trabalhar e gritar que somos iguais. Chegaríamos ao poder e faríamos tudo o que condenamos, mas se alguém ameaçasse nos denunciar, clamaríamos por lhes calar e tentar de tudo para que nosso povo não acreditasse neles, porque se os opositores fossem ouvidos, o nosso povo entenderia que Utopia é um sonho e que existem o bem e o mal. Se nossos opositores fossem ouvidos, Utopia seria entendida como nosso sonho de governar sem sofrer nenhuma restrição, porque em Utopia, todos desejamos o bem, mas, primeiramente, o nosso, ainda que isso signifique fazer tudo o que condenamos.

Em Utopia não existe corrupção, não no nosso governo; não existem problemas causados por nós. E se alguém tentar dizer o contrário, vamos calar esse alguém porque nosso povo não pode acordar e ver que existem opositores. Se nosso povo acordar e vir que existem irmãos que pensam diferente, eles se matarão.

Minha pátria, Utopia. Utopia minha e dos meus companheiros, terra amada onde pensei que roubalheira fosse algo inventado pelos meus opositores opressores. Somos todos teus filhos e te reconhecemos como nação. Mas, em nome do poder lutamos e, por isso, nos matamos. Ó, pátria amada, não permita que teu povo a transforme em Raquel, a mãe que chora porque seus filhos já não existem mais.

A Utopia de Thomas More é apenas um sonho que nunca será real. Entender que o mundo real é feito de dois lados, no mínimo, é entender que podemos fazer nossas escolhas e o melhor, de tempos em tempos, mudar de opinião, desde que sejamos coerentes. Podemos tentar criar uma utopia real, mas sabendo que nossa nação será formada por pessoas diferentes, porém é preciso entender que respeito não deve ser dado de acordo com a profissão, quantidade de dinheiro acumulado, opinião política ou status; o respeito deve existir porque somos diferentes, mas todos humanos.


Eustáquio Borges

Apaixonado por textos desde criança. Acha que escrever é deixar a alma voar para a mente não enlouquecer..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @obvious, @obvioushp //Eustáquio Borges