rumos

quando não há verbetes para o porvir

Rudson Vieira

..rumos seguem, mesmo em silêncio. Dobrei o horizonte sob os joelhos e ponderei; rumos seguem, mesmo introspectivo.

Silêncio da autoria

Há muito se busca pelo que é inédito e se mantém eternamente como a vanguarda de uma geração. A busca por audiência e por referência é um processo cíclico na dinâmica da produção e consumo.


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“Um autor deveria evitar acima de tudo o esforço de demonstrar mais talento do que de fato tem.” Arthur Schopenhauer

Os momentos de silêncio são necessários. Trata-se de intervalos para a reflexão a respeito do caráter que temos e de como interferimos na vida do outro e na construção da história pública. Afora a imagem que desejamos cristalizar como grupo social, é preciso compreender como a regionalização é um complemento à globalização. O processo de criação precisa ser revisto, seja qual for o produto: conteúdo, agricultura, indústria ou cidadania. A autoria clama por sentido. Se ao menos hoje as lágrimas e o furor não alcançassem o sol, minha esperança floresceria. Entretanto, a vaidade transborda corporações, lares e relacionamentos.

Ao sofá, o Silêncio antes de Bach (filme de 2007 dirigido por Pere Portabella) é a contemplação e fantasia, é afinação e despedida. Uma visão plena, longe e dentro da sinfonia do mundo. A liberdade da música e livros, o desabafo em um ouvido alheio. Qual a sua intervenção na cidade? A brincadeira favorita de Cohen ou a piada de Exit through the gift shop? (filme de 2010). O dilema entre a autoria e o reconhecimento faz com que os produtores de conteúdo esvaziem os sentidos e estabeleçam uma espessa névoa na mente do indivíduo. O ser humano ignora seu papel de ator social para se estabelecer apenas como autor. Quer ser responsável por marcos e mudanças, mas sem assumir a devida responsabilidade. A irreverência nos questionamentos de Banksy ou na repetição de estilos de Thierry Guetta fascina pela possibilidade de manifestar. Todavia, reforça o quanto somos fúteis, ávidos pela construção do próximo ídolo. Proclamamos a irreverência como vanguarda e depois nos desgastamos em busca de conceituações que amparem este famigerado novo, que ao se repetir perde o aspecto que tanto nos encantou.

Deste modo, é interessante considerar o distanciamento; a necessidade de ser estrangeiro. O espaço imposto nos leva a perceber e observar de outra forma, podendo se encantar novamente, sob o mesmo ou novo viés daquela obra de arte (filme e etc.); ou ainda se encantar por outra. Esse exercício de relacionamento, não só com os filmes, mas com as pessoas, exige de nós a disponibilidade de renovação, depende da disponibilidade de nossa mente e corpo.

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A autoria da arte e a autoria dos crimes, quem assume? Existe? Miséria faz fila ombro a ombro com a violência nos noticiários. Aeroportos são o escritório do país. Rodoviárias o pátio de produção. O cofre está em imensas e indeclaráveis propriedades. A arte da contestação tenta sobreviver com verba escassa e público evasivo; às vezes é muito desejo e pouca ação. Estratégias sadias de desenvolvimento mal chegam aos lares. Enquanto soluções aparentes são comercializadas, constantemente envelhecemos a possibilidade. Jogamos a responsabilidade para outra geração, outra realidade. O espelho não é apenas para ver o outro. Há esperança! Há chocolate! Quando o bem comum se sobrepuser ao poder de manipulação que o poder público detém, e não se limitar à euforia da sociedade civil, possivelmente alcançaremos dias de paz, tranquilidade para contemplar a autêntica evolução da espécie que somos. Refletir para refratar. Diante do estresse que cultivamos e regurgitamos em cardápios, cinemas, telas, e canções, acredito que o retorno da autoria em seu melhor aspecto e concepção depende do resgate do gozo puro que a vida proporciona.

Longe da privatização da mentira e do corporativismo da transparência, a praça recebe o cinema, os artistas estão na rua. O frio nessa noite é outro espectador. Perto, um cão passa e triste me olha nos olhos. Triste pela espécie que ele vê pela cidade. Seu corpo balança, pesa e o cão segue, à medida que na tela brilham nossos sonhos.

O seu sabor é doce e amargo; eu adoro. Sua textura me fascina. Condena-me a ponto de verter suor. Distancia-me do lastro dessa sociedade torpe. Respiro então a liberdade em seus braços e não há máscaras, nem espelhos ou conceito algum que cerceiem nossos sentimentos. Dou para você as rosas dos poemas e os espinhos da realidade.

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A impressão sua / pinga poema / a palavra se esconde no gesto / o gozo manifesta o suspiro no silêncio nu


Rudson Vieira

..rumos seguem, mesmo em silêncio. Dobrei o horizonte sob os joelhos e ponderei; rumos seguem, mesmo introspectivo..
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