rumos

quando não há verbetes para o porvir

Rudson Vieira

..rumos seguem, mesmo em silêncio. Dobrei o horizonte sob os joelhos e ponderei; rumos seguem, mesmo introspectivo.

entre jardins e margens

O que nos faz caminhar à terceira margem do Rio? Os sentimentos que lapidam nossa identidade ou a atrofia provinda de um cotidiano que soterra o indivíduo com tantos padrões? A música é mais do que um ritmo a movimentar corpos. A música transcende nossos pensamentos, sonhos e flagelos. Ela é capaz de nos libertar, ferir e confortar; compreender e questionar. Em alguns dias, ela pode até mesmo transportar nossa mente para longe de uma realidade exaustivamente sufocante.


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Seja a partir das linhas libertadoras de Guimarães Rosa e as diversas possibilidades da terceira margem deste rio chamado realidade, ou no transcorrer de Severed Garden de Morrison, a mente fica inerte enquanto reverbera no corpo um pensamento transformador. O que “si” busca? Seja se encontrar, estar em paz ou até mesmo feliz.

A famigerada felicidade em sua utópica plenitude não deve ser considerada sobre os aspectos dos rótulos sociais presentes nos mecanismos de consolidação de padrões sociais (Escolas, Mídia, religião e famílias). O tão proclamado “conheça-te a ti mesmo” é fator determinante para alcançarmos o que sacia nosso coração e mente.

O processo de autoconhecimento nos possibilita aperfeiçoar a maneira como analisamos as oportunidades diárias, interagimos com o ambiente e rascunhamos o futuro nos gestos do presente. Simultaneamente, nos relacionamos com outras pessoas e interferimos na vida delas na mesma medida em que elas influenciam a nossa. E algumas pessoas são tão especiais, que transformam silenciosamente e permanentemente nossa vida. Independentemente do contato, estão sempre próximas, caminhando entre jardins e margens de nós mesmos.

Nesta noite, ouvir the Doors é se permitir a momentos de introspecção. Não uma apologia a rebeldia, drogas e sexo sem limites, mas uma argumentação a respeito dos paradigmas da sociedade, dentre eles o amor e a percepção da realidade. No compasso do pensamento, o ritmo dos sentimentos intensos. Com letras que vão desde a simples manifestação de um desejo, à possibilidade de refletir a respeito de significado e significante das coisas, as canções da banda evocam experiências interessantes para o imaginário de quem ouve com atenção.

Ouvir “Severed Garden (Adagio)" - canção estruturada a partir de poema gravado por Jim M. em dezembro de 1970, criada como música após a morte dele sobre uma recriação para “Adagio", de Tomaso Albinoni; é entregar-se à introspecção de rever silenciosamente nossas referências, valores e a respectiva relevância de escolhas e atitudes; desde o modo como observamos uma flor, lidamos com riquezas, reconhecimento, até como percebemos os aspectos e incertezas do relacionamento com os outros e até mesmo com a morte.

Neste ínterim, não é raro nos encontrarmos em busca de uma miragem. Seres humanos são fábricas de miragens. Alguns dizem que a busca pela miragem é o que move a sociedade e possibilita sua evolução. O foco na busca contínua, e não no alcançar. Entretanto, esse processo alimenta ferimentos e cicatrizes permitem a leitura em braile de nossas fragilidades; reféns de sonhos in natura. Há quem diga que se materializarmos aspectos da miragem na realidade que se apresenta palpável e perceptível (longe de ser concreta) conseguiremos estruturar um efeito placebo para vivenciar os dias com mais leveza.

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Não podemos apenas nos entregar aos padrões vigentes e deixar que eles anulem aquilo que nos faz ser único; nem melhor, nem pior, mas especialmente único. Devemos nos abster da comodidade de catalogar tudo o que acontece como algo rotineiro. O comum é tão perigoso quanto a arrogância dos donos de verdades, ou controladores do processo de divulgação de versões. Alimentamos muitas vezes a característica que mais condenamos. Corpos destroçados, lares profanados, carteiras roubadas, espaço público tratado como a residência do caos, senso coletivo concebido como bacanal social. Na rebeldia não há poesia; há sangue. Alguém sempre verte sangue, nem que seja cortando o dedo com papel. As cenas brilhantes de filmes violentos, onde o espectador torce até mesmo para o inimigo público, não se limitam à sétima arte. Elas sumarizam os jornais, aterrorizam nosso dia a dia. Contraponto. Crianças espontaneamente boas, cordiais; casta superior quando exala humildade. Elas vão além da soberba dos adultos em dominar e impor verdades. A ambição de sorrir. Elas são delicadas flores perfumadas em um jardim; e cada qual tem seu jardim, que une e nos separa uns dos outros.

Textura, movimento, sabor e ternura. As experiências que um jardim evoca no indivíduo vão além de aspectos visuais e conceitos erguidos em versos. Encontramos aconchego não em lugares determinados por padrões sociais, mas essencialmente onde nos toca a alma. Alcançamos e somos alcançados pela paz quando livre de amarras nos envolvemos no suave emaranhado de possibilidades de ser feliz.

Os pensamentos estão postos. Despertar é uma palavra-chave muitas vezes inserida em fechaduras erradas. É preciso foco para persistir; mais do que saliva. O interesse. O fruto que geramos e que somos. As ações que exemplificam nosso caráter. Relacionamento e confiança são mais do que lembranças, ou palavras soltas em uma camiseta. Para alguns é moeda de troca, para outros é fundamento divino.

“Não há amor possível quando se busca a miragem e não a pessoa concreta que se tem diante de si”. (Sérgio Abranches, in 'Que mistério tem Clarice?').

Será?

“I want roses in my garden bower, dig?”

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Rudson Vieira

..rumos seguem, mesmo em silêncio. Dobrei o horizonte sob os joelhos e ponderei; rumos seguem, mesmo introspectivo..
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