rumos

quando não há verbetes para o porvir

Rudson Vieira

..rumos seguem, mesmo em silêncio. Dobrei o horizonte sob os joelhos e ponderei; rumos seguem, mesmo introspectivo.

refugiados - quem são?

O território, o comportamento, sonhos, expectativas, ética, moral e a relação com o poder. Refugiados de tanto mais do que um ambiente de guerra bélica, a humanidade refugia-se de si mesma. Não há lugar seguro neste labirinto de espelhos?


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Um absurdo entre os resultados do poderio bélico ministrado com intolerância, e a fragilidade das pessoas ressaltam no noticiário mais do que a expansão de fronteiras, busca por segurança e alimentos. Trazem ao ambiente de reflexão as mazelas temidas, porém fabricadas pelos seres humanos. Neste acaso, é possível perceber que todos somos refugiados, das armadilhas econômicas e sociais impostas por governos, da moral oscilante que rompe gerações e seus valores, do território onde a cultura é dilacerada pelo comportamento xiita.

Esse processo que se repete em todo ambiente em conflito ao longo da história conclama a todos para refletir sobre o ninho do conflito. Onde nascem as convicções que são disseminadas no coletivo como um câncer, corrompendo a rede social (não digital) e registrando nosso fracasso em coexistir, ou os gargalos da estratégia de desenvolvimento humano.

A humanidade caminha como personagens de Camus (O estrangeiro de Albert Camus), pelas paisagens de Êxodus e Gênesis (de Sebastião Salgado) em uma romaria por paz. A paz tão desejada, para existir parece esbarrar no fator determinante para que ela seja possível: a humanidade. Há muito tempo estabelecemos fronteiras, muros nos quintais, portas nos cômodos e amarras aos corações e mentes para determinar um espaço indivisível, onde o outro não pode entrar, onde vale apenas as regras estabelecidas e compreendidas pelo indivíduo. Somos também por várias vezes refugiados de nós mesmos.

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Neste ínterim, percebe-se que esse comportamento se alastrou nas relações sociais, estabelecendo um processo coletivo de alienação agressiva, onde a diversidade é combatida com intolerância ou imposta com cotas. Ajudar de forma efetiva os refugiados da Síria é dar uma chance à humanidade, repensar como devem ser reestruturadas as dimensões políticas de gestão do território e concepções comerciais de desenvolvimento econômico.

Como a Nova Ordem Mundial deve compreender e contemplar uma população estimada em 7 bilhões de seres humanos? Este desafiador, no entanto inevitável exercício precisa ser realizado, para que no médio e longo prazo a sociedade que chamamos de organizada possa ir além da sobrevivência, atingindo uma equilibrada convivência. Como em algumas de suas obras aborda Manuel de Barros, precisamos desaprender (o que pensamos saber e o que pensamos ser) para assim caminhar rumo a alguma evolução, onde a paz saia do discurso utópico de quem sofre com as atrocidades e de quem manobra a massa popular. Fotos impressionam, textos nos impactam, mas nosso comportamento diante disso apenas paga o juros da reflexão, trazendo ora ou outra, de anos em anos, o reflexo da dívida moral da humanidade, em um labirinto de espelhos.

No caso dos refugiados da Síria, a fuga revelou-se como a condição elementar de garantir a vida e a dignidade. Após conseguir continuar vivo, o refugiado busca então um território para se restabelecer como ser social, integrado a uma comunidade e não um transeunte. No Brasil, a LEI Nº 9.474, DE 22 DE JULHO DE 1997 define mecanismos para a implementação do Estatuto dos Refugiados de 1951, e determina outras providências. Dentre diversos aspectos, a Lei determina que "o reassentamento de refugiados no Brasil se efetuará de forma planificada e com a participação coordenada dos órgãos estatais e, quando possível, de organizações não-governamentais, identificando áreas de cooperação e de determinação de responsabilidades".

Antes de pensar se o Brasil (infraestrutura física e econômica) está preparado para receber refugiados, é necessário observar se eles (refugiados) consideram o país como paisagem de oportunidade e se os brasileiros estão prontos a receber e solidarizar com o próximo, lembrando também dos refugiados não apenas da Síria, mas de todas as fronteiras que criamos na vida (portas, muros, cercas e etc.) exilando colegas de trabalho, gerações, classes sociais, atores políticos, vizinhos, familiares, desconhecidos sociais e perfis afins.

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Rudson Vieira

..rumos seguem, mesmo em silêncio. Dobrei o horizonte sob os joelhos e ponderei; rumos seguem, mesmo introspectivo..
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