rumos

quando não há verbetes para o porvir

Rudson Vieira

..rumos seguem, mesmo em silêncio. Dobrei o horizonte sob os joelhos e ponderei; rumos seguem, mesmo introspectivo.

Aspargos - Ancoradouro

Complicado. O corpo no sofá como aquela tela dos relógios. Contorcido, fervia.


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A suavidade com que dormia paralisava tudo, os cães que latiam à madrugada, os carros que na rua passavam, os bêbados, os relógios, as baratas e insetos de luz. O seio um pouco à mostra, o braço sob o travesseiro e o rosto de quem dorme como há muito tempo não dormia.

A luz à míngua, queimou. Sob a luz da madrugada um corpo moreno ressonava a poeira do dia. O sol quente atravessava a brecha no black-out e esquentava o rosto, irritava. O carro de som gritava a propaganda de uma loja de lingerie, num dia em que tudo geralmente está tão calmo. Não podia suportar o estrago que a transparência trazia. Água que queima. Viva.

Afastou as remelas e espiou o que a rodeava. Levantou e lavou o rosto. Um gosto de graviola subiu pela sua garganta e naquele momento sentiu ser tocada, novamente, pela superfície de dentro. Enrolou-se no cobertor, mas o seio continuou à mostra. Um trago de leite puro escorreu pelo canto da boca e pingou no chão; os pés descalços pisaram na gota e um rastro branco anunciava um caminho errante, da cozinha para a janela da sala e dali para a cama, sempre de braços abertos. Um banho; ajudaria a esquecer. Não, nem adiantava regar a flor, nem adiantava usar as mãos, nem adiantava sentir a água quente pelo corpo. A perturbação estava dentro.

O dia estava opaco, ora cor de laranja, ora cinza como o metafórico coração. O vento passeava pelo corpo, feria. Mamilo excitado, o seio agora não estava mais à mostra. Pudor. No espelho recordava as aventuras que não vivenciou fisicamente, mas que sentiu, inclusive no físico. Como se fossem ali duas pessoas, olhou no fundo dos olhos do reflexo e um pesar a arrastou para a cama. Precisava sorrir. O sorriso, assim como o choro, fluía com Fausto. Não se lembrou disso, adormeceu.

A dormência do braço despertou-a de um sonho em que o sorriso era natural. Acordou e ele não estava ali. Acostumada, ela estava. Olhou fixamente para a parede, para a janela, pensou, esfregou os dedos, virou para o outro lado. O seio, novamente à mostra, o corpo, pairava sobre a cama.

continua...

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Rudson Vieira

..rumos seguem, mesmo em silêncio. Dobrei o horizonte sob os joelhos e ponderei; rumos seguem, mesmo introspectivo..
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