rumos

quando não há verbetes para o porvir

Rudson Vieira

..rumos seguem, mesmo em silêncio. Dobrei o horizonte sob os joelhos e ponderei; rumos seguem, mesmo introspectivo.

Aspargos - Libélula

Se para tudo é preciso um começo... veio da mente no último pensamento antes de cerrar os
olhos ao travesseiro. Sabe aquelas noites em que se passa horas deitado de olhos abertos ou
fechados? Acordado.


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O dia passa diante dos olhos, o próximo dia é todo planejado, as angústias repassadas, os sonhos relembrados, até que se atinge um estágio onde o que se pensa não é relevante... e assim dorme-se sem saber qual foi o último pensamento. Transtornado com algum conflito do cotidiano você se concentra na luz do poste a entrar pela janela e o reflexo dos carros que passavam lá em baixo, na rua, nua à luz da lua crescente. Quando o pensamento se interrompe não se sabe o porquê de estar concentrado na luz quadrada no teto.

Ela pensou em fazer churrasco. A carne a rodar no espeto sobre a brasa. Vestiu sua camiseta branca. O sutiã ficou na cadeira. Pegou o copo que dormiu no criado mudo e foi até a cozinha beber um pouco de água. O cabelo estava amarrado feito rabo de cavalo. Leu no jornal resenhas dos filmes em cartaz, talvez visse algum deles. Estava no período de entresemanas. Poderia descansar antes de ter que raciocinar novamente. Ligou o som e ficou na janela ouvindo os hits dos 60/70. Passou a perna esquerda por cima da janela, depois a perna direita. Sentada na janela, olhava as pessoas lá embaixo. Pensou em uma letra do alfabeto... letra W. Não havia ninguém. Decidiu começar da letra A. Uma lista começou a surgir. Trinta e três nomes foram um a um riscados e depois depositados na lata de lixo. Ninguém iria mesmo.

Ligou a televisão. Os dominicais sorriam para ela. O edredom a abraçou de modo que a chuva lá fora se tomou uma orquestra a ninar uma tarde tediosa. Nada como estudar um canhoto de cheque. Olhou a caixa de fotografias que sempre deixava debaixo da cama. Não achou ninguém que merecesse lembranças, embora não jogasse uma foto fora. Era hipócrita. E quem nessa vida não assume sua parte hipócrita. Egoísta. O programa de auditório conseguiu fazê-la dormir. Seu lado mais tênue despertava então. Acordou trinta e quatro minutos depois. “Cansada” desceu até a padaria e comprou um pão, caixinha de suco e uma bala de caramelo. As costas doíam muito. Não havia quem lhe fizesse massagem, e talvez nem quisesse. A fumaça dos caminhões que transitavam pela avenida a sufocava.

Foi na vitrine de uma loja de carros que viu a foto de Fausto. Subiu correndo as escadas e enfiou o corpo debaixo do chuveiro. Lavou-se toda. Com muita paciência escolheu um pijama e foi aguardar a segunda-feira chegar.

Aspargos continua...

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Rudson Vieira

..rumos seguem, mesmo em silêncio. Dobrei o horizonte sob os joelhos e ponderei; rumos seguem, mesmo introspectivo..
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