rumos

quando não há verbetes para o porvir

Rudson Vieira

..rumos seguem, mesmo em silêncio. Dobrei o horizonte sob os joelhos e ponderei; rumos seguem, mesmo introspectivo.

Aspargos - Panaceia

Não era como das outras vezes. Viu na televisão que uma estrela se apagou na constelação de
capricórnio, mas devido à distância veremos a luz dela ainda por alguns dias. Algo renascia
dentro dela. Abriu a janela e colocou um vasinho de orquídea no parapeito. Decidiu ir para o
trabalho caminhando, comprou o jornal e seguiu lentamente lendo o caderno de moda.


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O trocador e seus trocados / Não havia amor. Ele era casado e ela era noiva. Não eram amigos, não sabiam mais um da vida do outro além das conversas de ônibus. O itinerário era longo, quando ela entrava no ônibus ele já estava cheio, lotado. Espremia-se até chegar à roleta, pagava e com um sorriso depositava, nas mãos já estendidas, a sua pasta. Sete e meia. A caminho para a faculdade.

Ela fazia curso de exatas e ele sempre dava a exata quantia aos que pela roleta passavam. Conversavam um pouco, não muito. Várias vezes ele se rendia às conversas de uma perturbada desquitada que não hesitava em falar alto e auto. Ele também se distraía com os estudantes de humanas que sempre reclamavam do ônibus cheio, meninas e meninos que se achavam cultos. Ela nunca reclamava da lotação, apenas comentava; "outro dia", ele sorria como Carlitos, e guardava a bolsa no cantinho de sua robusta e apertada cadeira. No balanço do ônibus raras vezes eles se falavam ou trocavam olhares. Ele adorava falar de futebol e de comportamento humano. Ele balançava a cabeça, sorria e dizia algumas palavras; até piada com o cotidiano fazia. Não havia amor, nem mesmo desejo sexual, havia ali uma sublime relação; ele a aguardava todos os dias letivos para guardar sua pasta durante o trajeto.

Algumas vezes as mãos se tocavam na troca de moedas, vales-transportes, e da pasta. Nos dias em que ela estava com aquelas olheiras de dias mal dormidos, ele agenciava um lugar para ela sentar, mas ela recusava e preferia ficar ali, de pé, perto da roleta. Nos dias em que ele não tinha muitos sorrisos e nem conversas, que falava de casa com cansaço, ela sempre soube cavar sorrisos naquela face infante e rechonchuda.

Admirada e sonolenta, observava a relação do trocador e da moça das exatas. Olhava e se realizava naqueles quarenta e sete minutos de viagem. Foi no brilho dos olhos do trocador que viu uma possibilidade. Pensou em nunca descer daquele ônibus, o remédio para seus males. Uns trocados e um trocador. Ele, atencioso a todos que por sua roleta passavam, nunca errava a dose, e não existia fora daquela cadeira. Não o imaginava assim. Ela pegava o ônibus fielmente todos os dias letivos às sete horas e vinte e nove minutos, sabia que carregaria a pesada pasta somente até a roleta e depois... não existiria mais fora dali. Não a imaginava fora daquele ônibus. Cansou-se de observar os dois, uma ânsia, uma náusea passou a fazê-la sentir com pesar o balanço do ônibus. As poucas janelas fechadas passaram a fazer diferença, o ar parecia existir somente ali no entorno da roleta, foi quando sentiu um estranho gosto na garganta que se lembrou de Fausto. Não se desesperou, pagou a passagem, colheu um sorriso e desceu.

continua...

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Rudson Vieira

..rumos seguem, mesmo em silêncio. Dobrei o horizonte sob os joelhos e ponderei; rumos seguem, mesmo introspectivo..
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