rumos

quando não há verbetes para o porvir

Rudson Vieira

..rumos seguem, mesmo em silêncio. Dobrei o horizonte sob os joelhos e ponderei; rumos seguem, mesmo introspectivo.

Aspargos - Páprica

Palavras derramadas queimavam feito azeite quente.


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As palavras de Fausto feriam sem queimar; era melhor até nisso, ferir. Os umbigos gritam no meio das barrigas. Uns os furam, outros tapam com moeda. É possível encontrar quem os arranque, mas ninguém ignora os gritos. Ela já estava surda, seu umbigo rouco sangrava: colocou um cilindro pequeno de metal no umbigo. Fez isso sozinha. Sua cabeça não estava boa há muito tempo, e agora estava piorando ainda mais. Não iria mais procurar as amigas, pois estas despejavam mágoas sobre seus ombros. Se tocasse de leve o ombro, escorreria mágoas alheias. Precisava se enxugar. Que dor de cabeça! Um aroma de graviola estava estacionado em suas narinas. Tranquila, embora estivesse com dor de cabeça, sentou-se na cama e começou a assistir televisão. A costumeira cena: de calcinha e camisola, uma caneca com sorvete de creme nas mãos, uma colher na boca, e o controle entre as coxas.

A camisola era um pouco transparente, a luz azul emitida pela televisão deixava o corpo dela todo azul, menos o sorvete, que derretia e escorria entre os dedos, pingando entre as coxas, onde estava o controle. O vento que entrou pela janela balançou o black-out, tocou seu corpo deixando pelos eretos. Um frio descomunal afastou o prazer do vento e a fez cobrir as coxas, cobrindo também o controle.

Manhã. Televisão ligada, caneca vazia no chão, colher com formigas no criado mudo, camisola embaixo do travesseiro, calcinha no ventilador, desligado.' Suor com aroma específico daquele corpo. O vento levantava o black-out para o sol esquentar a cabeça que adormecia longe do travesseiro, perto do controle.

Enquanto escovava os dentes, olhava no espelho seu rosto marcado pelo lençol contorcer. Na pia o cilindro pequeno de metal reluzia. Sem paciência para vestir algo, entrou dentro da roupa mais fácil. No ombro uma bolsa quase vazia e uma foto. Memória extraviada de uma juventude conturbada. Talvez fosse este o motivo de seu apego a Fausto. Não fora o tempo que gastou a foto, mas os olhos dela; estes agora estavam cansados. Tudo incomodava, sempre estava claro demais ou escuro demais. Os dias continuavam os mesmos, o mesmo tédio, o mesmo crescente estresse que finda em um sono de pedra, no fim do dia que não termina, emenda.

Quando olhava aquela foto não vinham frases feitas ou bordões de filmes e livros. Aos seus olhos reluziam os sentimentos e os pensamentos que Fausto emanava. Tentava ter o mesmo brilhantismo, a mesma leveza insustentável de ser, mas tropeçava nas mesmas metáforas. Tormento e saudade. Uma saudade que se faz tormento, um tormento que traz consigo o alívio, o resquício de um momento, a reafirmação de um sentimento que tem modificada a sua manifestação.

continua...

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Rudson Vieira

..rumos seguem, mesmo em silêncio. Dobrei o horizonte sob os joelhos e ponderei; rumos seguem, mesmo introspectivo..
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