rumos

quando não há verbetes para o porvir

Rudson Vieira

..rumos seguem, mesmo em silêncio. Dobrei o horizonte sob os joelhos e ponderei; rumos seguem, mesmo introspectivo.

Aspargos - Uniforme

As horas não seriam mais problema. Desligou o despertador. Diante da cômoda de mogno,
tentava lembrar em qual das gavetas estava sua blusa de uniforme. Lembrou-se de que não
iriam usá-lo mais; o uniforme.


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Semeado entre as mesas do barzinho de esquina, ele olhava todas que passavam. Ela, parada em um canto do barzinho de esquina observava ele disparar olhares. Se não fosse pelo ato de disparar olhares, diria que ele estava de volta, mas não. Apesar da semelhança, aquele não era ele. Num minuto ela pensou que todos deveriam ser iguais, apenas em tempos diferentes. Um lugar. Agora já não dava para observar mais ele, mas a lembrança e a imaginação fizeram com que seus olhos arrumassem outro lugar para repousar. O garçom distribuía sorrisos esperando receber gorjetas. No balcão, a dona do bar, de TPM, esquematizava como iria trair o marido que andava estranho há uns dois meses. Ele estava com câncer e nada disse para a família. Uma família comia pizza, um casal brigava e comia fritas, batatas.

Quando acabou o suco de goiaba, tirou da bolsa uma nota e retribuiu o sorriso do garçom. Sentiu a noite um pouco vazia. Procurava algo diferente e encontrava sempre a mesma coisa. O brilhantismo havia ido, embora restassem agora algumas migalhas. Reminiscências.

Todos são egoístas, todos. Alguns chegam a ser tão egoístas que só pensam nos outros. No caminho para casa pensou que as narrativas do mundo antes não eram como agora. Agora, perdeu-se algo, a experiência é outra. Enfiou a mão na bolsa para pagar a passagem e trouxe com o porta-níquel um batom, vermelho. Ele adorava sua boca vermelha. Lembrou-se dele e não se alterou, passou a roleta e sentou no primeiro lugar vago. Não havia ninguém na condução.

As imagens se sobrepunham com o movimento da condução; foi na sobreposição de imagens que viu o rosto de Fausto surgir. Quase perdeu o ponto, o motorista parou mesmo sem o sinal. Sabia que ela deveria descer ali. Desceu, agora não via mais a face de Fausto, caminhava até a porta do apartamento onde um dia respiraram o mesmo ar. Cuidadosamente introduziu a escandalosa chave na porta. Lembrou que Fausto era um pouco debochado e odiava quando ela era.

Antes de ligar o chuveiro seu corpo já pingava. Suas mãos não eram capazes de conter as gotas, o corpo escorria. Enquanto lavava as costas com a mão esquerda tentava se lembrar de alguma música para assobiar. Enquanto raspava as axilas assobiava uma canção que ouvira no rádio do ônibus. Quase se cortou, lâmina velha. Na medida em que se secava observava como partes de seu corpo estavam ressecadas e outras extremamente oleosas. Complicado, era o mesmo corpo, ainda. Durante toda a madrugada sua cabeça ficou vazia de pensamentos quaisquer. Olhava a esmo a chuva cair, sentia algumas gotas tocarem seu rosto, o inicial incômodo era logo burlado pela faceta de tornar respingos de madrugada, sozinha. Parecia ser tédio, mas era outra coisa, era diversão. Como o vento que vem de repente, o sono a abateu sobre a cama, sempre de braços abertos. A diversão agora seria outra.

Aspargos continua...

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Rudson Vieira

..rumos seguem, mesmo em silêncio. Dobrei o horizonte sob os joelhos e ponderei; rumos seguem, mesmo introspectivo..
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