rumos

quando não há verbetes para o porvir

Rudson Vieira

..rumos seguem, mesmo em silêncio. Dobrei o horizonte sob os joelhos e ponderei; rumos seguem, mesmo introspectivo.

Aspargos - Césio

As palavras deixaram os ouvidos repousarem durante um tempo. Lauro precisava de um
pouco de espaço para pensar, precisava de um pouco de silêncio. Precisava do imensurável,
tempo e silêncio, embora o caos alimentasse seu angustiante e excitante ato de pensar.
Por um instante, este novamente imensurável, não conseguia ver convencionalmente como
fora treinado desde a infância.


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Quando olhava para as pessoas na rua, via apenas os poros abertos, babando, na ânsia de devorar o outro. Via corpos capazes de transpor a tudo para deter poder sobre o outro, poder de submissão, poder de altivez. Concebia pensamentos que redefiniam certos conceitos, dentre eles muitos sentimentos, mitos da mente, como a transparência. Cada um possui a sua própria transparência. Se possível fosse colocar todas juntas não seria possível enxergar o que do outro lado está. Lauro se preocupava com isso, pois não conseguia controlar seus pensamentos, e eles não se encaixavam em qualquer cabeça, por isso não os compartilhava.

Enquanto repassava tudo o que ocorrera nos últimos dias, Lauro sentiu a necessidade de registrar em papel o que pensava, pois a mente armazena uma quantidade infinita de pensamentos e sensações, mas a capacidade do ser humano de acessar este conteúdo é finita, degenera como o ... tempo. Lauro então, consciente de que o raciocínio social precisa de objetos palpáveis para compreender um fato, começou a articular uma história palpável, uma descrição para que outro pudesse um dia supor o que ele tentava ali escrever.

Quando pensava Nela, nenhum nome vinha à cabeça. Não conseguiriam seus leitores ler um texto de personagens sem nome, apenas ele conseguia. Números corriam pelas paredes de seu crânio. O lado esquerdo era fagocitado pelo lado direito enquanto o lado esquerdo regurgitava o lado direito. A mente está educada a não conceber certos pensamentos. Assim como está educada a reconhecer um símbolo, um desenho como letra ou número. Codificando tudo o que existe. Tudo é. Mas tudo só se faz possível ao outro através da linguagem.

Partiu de uma célula fotoelétrica. Uma criança nua corria com os braços abertos. A complexidade de seus pensamentos era transcendental, pois existia em uma instância chamada não-tempo. A mesma complexidade, embora sublime, fez com que esta criança criasse o tempo. A complexidade de ser desta criança e sua relação com o tempo, estabeleceram uma crise existencial. Em estafa "mental", a criança decidiu criar réplicas, mas sábia, retirou das réplicas o poder e deixou apenas migalhas. As réplicas a ajudariam a conhecer-se mais. Para isso, deveria observar-se, logo soprou as réplicas para um lugar devidamente preparado.

A origem de tudo, o elo perdido, seria a grande máxima destas réplicas. Em busca de uma verdade, elas (réplicas) ajudariam a criança a entender sua própria existência, pois a origem era também sua maior falta. Antes de criar o tempo, sua complexidade de pensamentos permitia a tranquilidade de conceber a existência sem conceitos como origem e fim, mas esta mesma complexidade, ao coexistir com o tempo, levantou certas questões que passaram a incomodar. Pois o tempo preenche lacuna com lacuna. Deixando nada Vazio.

continua...

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Rudson Vieira

..rumos seguem, mesmo em silêncio. Dobrei o horizonte sob os joelhos e ponderei; rumos seguem, mesmo introspectivo..
Saiba como escrever na obvious.
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