rumos

quando não há verbetes para o porvir

Rudson Vieira

..rumos seguem, mesmo em silêncio. Dobrei o horizonte sob os joelhos e ponderei; rumos seguem, mesmo introspectivo.

Aspargos - Falo!

"O que tem a dizer? Quais palavras dizer? Tudo é linguagem, tudo é. Tudo se faz aos outros
por meio de representação. Toda representação utiliza linguagem. Tudo é linguagem." Não
havia mais o que falar. O vento retirou dos olhos a poeira; agora todos podiam ver sem
problemas, sem obstáculos. Não havia onde jogar a culpa por realizar algumas escolhas.


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Lauro, meu Lauro querido. Deve agora acordar e perceber o Fausto que é. A mulher Almodóvar que habita seu pensamento não quer Lauro, mas sim o Fausto que também habita seu pensamento. Doma seu medo, mas lembre-se de que não se doma o destino. Suas escolhas, Lauro, suas escolhas. Sempre está a fazê-las. Seja consciente ou inconscientemente. Deve agora acordar.

Salomé acordou Lauro com um beijo na boca, roxa. Fausto acordou exausto, dentro de um carro amassado. O cheiro de podre era insuportável, o gosto do pior conhaque vinha junto de arrotos dolorosos. O estômago vazio, a perna esquerda dormente. Tudo estava dormente. Com esforço e muita dor de cabeça, Fausto saiu do carro amassado. Nos vidros semi-quebrados dos carros que, também amassados, estavam ali naquele ferro-velho, penteou os cabelos e caminhou para fora daquele cemitério das invenções humanas. À beira da estrada se pôs no meio dos trilhos, olhou para os lados, olhou para os pés, olhou para o céu. Foi no ofuscar das vistas, em virtude da eficácia solar, que Fausto se viu, e despediu daquela figura machucada que era.

Uma caminhada exaustiva. Lauro andou bastante até chegar à cidade. Queria um banho e uma cama limpa, macia e fria. O calor daquela caminhada tinha lhe dado um par de assaduras nas virilhas.

Mesmo cansado, pisou sobre as bolhas de sangue até chegar à casa dela. Parado, olhou cada detalhe daquela moradia. Estudou todas as possibilidades de se aproximar sem que "ela" fugisse. Tinha fome, mas precisava fazer algo antes. Esperou horas em pé sob a sombra de um pé de goiaba. A noite começou e terminou. Lauro não dormiu, não saiu. Não comeu, não tomou banho e nem fez uma porção de coisas que queria e precisava fazer. Esperou. A espera concentrada no objetivo, sem desviar olhar, sem pensar em outra coisa senão encontrar o objeto causa da espera.

Um garoto passou e deixou cair nos pés de Lauro uma sacola com verduras. Vinha da feira com a mãe. Foi no pedido de desculpas que percebeu onde deveria esperar o que procurava. Os pés rapidamente o levaram ao seu objetivo. O ácido lático nas panturrilhas pontuava cada passo, lembrava-se do desfecho daquela caminhada.

Na sala de fotocópia nenhum barulho regia os trabalhos naquele prédio. No corredor branco do prédio frio onde trabalhava, olhava pela segunda vez a simetria do piso. Foi no corredor, observando a simetria do piso, que ela encontrou Lauro. Parou. Um gosto ardente fez sua língua perder o controle e escorregar pelos lábios. Sede? Os olhos brilharam intensamente, prontos para desaguar, mas era a boca o epicentro daquele instante.

Lauro não tinha mais roxa a boca. Limpo, após o banho frio, deitou na cama também fria e pôde finalmente dormir. Da boca um sutil e delicioso arroto significava satisfação, significava querer mais; e tinha o gosto de aspargo.

então...

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Rudson Vieira

..rumos seguem, mesmo em silêncio. Dobrei o horizonte sob os joelhos e ponderei; rumos seguem, mesmo introspectivo..
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