rumos

quando não há verbetes para o porvir

Rudson Vieira

..rumos seguem, mesmo em silêncio. Dobrei o horizonte sob os joelhos e ponderei; rumos seguem, mesmo introspectivo.

Aspargos - Pederneira

A criança se fazia menina, se fazia menino, se fazia para se observar. Fazia-se até disseminar
o si em pedaços pelo grande espaço que deixou que fosse chamado de mundo. A criança
permitiu que as réplicas, assim como ela, sonhassem. Algumas réplicas conseguiam atingir
um milésimo de milésimo de uma parte em milhão da complexidade de pensar. Mesmo assim,
muitas se perdiam nesta prática, e muitas apenas em sonhos conseguiam tal voo.


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O tempo tinha efeito ainda maior nas réplicas. Modificava os corpos. A mudança assusta e fascina, a criança observava e incentivava. As réplicas e o desejo pelo poder; a ânsia de juntar as migalhas deixadas fazia com que o corpo fosse tido como objeto. Imagine, a carcaça do pensamento tida como objeto de desejo, pois quem dominasse o corpo dominaria aquilo que ele hospeda, o imensurável pensamento. As práticas de domínio estão tão incrustadas na natureza das réplicas, na identidade delas, que não se percebe que o objetivo principal é o poder, seja qual for. Estabelece-se os sentimentos, e a busca pelo poder é poetizada, pois não é algo frio e mecânico, é algo transcendental. O poder assim é.

As réplicas, ao perceberem a dificuldade de se obter o que nunca terão, cansam, pensam em desistir, a criança vê isso com conhecida angústia. Sendo assim, a ilusão nutre as réplicas para continuarem e a Vaidade é ouro pilar da busca pelo poder, ou pela felicidade. Esta última seria a tranquilidade plena. Mas a plena tranquilidade comunga a inquietação. Antes de poderem perceber que é preciso um oposto para justificar o outro. A criança isso já havia entendido (logo, criara as réplicas que, de alguma forma eram seu oposto, pois estavam destituídas do poder, já possuído pela criança. Eis uma estafa na "pesquisa" da criança). Não é criar o inimigo, mas um oposto. Se "um artista só reconhece autoridade a outro artista" um artista só o é se houver quem não o seja.

Lauro, por um instante, parecia conseguir expelir parte de seus pensamentos, mas havia muito mais para disseminar e não sabia se todo o papel produzido no mundo e todo tempo disponível, seriam suficientes para romper Tristan Shandy e realizar a faceta maior, atingindo o máximo de sua complexidade sem dificultar seu percorrer, assumindo sua relação com o poder, pois é humano, sem se cegar imerso nesta relação tão suntuosa. A criança lançara em cada réplica uma pedra-de-fogo, uma chama inicial, um sopro que as empurrou em uma romaria infindável, onde a ilusão e a Vaidade transportam as réplicas em busca daquilo que nunca terão como querem.

A criança não precisava dormir para sonhar, mas gostava de dormir. Inexplicável deveria ser a criança a dormir, tão profundo e tão sutil, frágil. Tinha pelas cores uma fascinação especial. Ao olhar para as cores, colocava nelas ainda mais intensidade. Conseguia ver as cores e não as coisas coloridas. Sua fascinação pelas cores a fez dar a tudo uma cor. Entre as coisas coloridas, as réplicas criavam valores para nortearem uma caminhada em busca do poder, o qual nunca terão como querem. Perdidas entre as coisas coloridas, as réplicas suplicam por algo superior para nutrir suas pernas, alimentam-se de ilusão e se perdem ainda mais. Perdem-se, pois ao criarem valores criam o que é achado e o que é perdido, dando conotação ruim, ao "se perder".

segue...

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Rudson Vieira

..rumos seguem, mesmo em silêncio. Dobrei o horizonte sob os joelhos e ponderei; rumos seguem, mesmo introspectivo..
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