rumos

quando não há verbetes para o porvir

Rudson Vieira

..rumos seguem, mesmo em silêncio. Dobrei o horizonte sob os joelhos e ponderei; rumos seguem, mesmo introspectivo.

Aspargos - Piscari

O cesto parecia que nunca encheria, ou que era capaz de receber a
quantidade exata de peixes que ele conseguia pescar.


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Todos aqueles pensamentos aumentavam o vazio interior de Lauro e este vazio era fome. Debruçado na mesa, engolia biscoitos e leite quente. Pelo canto da boca caiam pedaços de biscoito triturados pelos dentes que apenas obedeciam à ordem de triturar o que entrasse pela boca. Depois do lanche, Lauro foi até o banheiro escovar os dentes. Com a boca limpa, sentou-se na latrina e reiniciou os pensamentos interrompidos pela fome.

Era claro o lugar, sem sombra alguma, um riacho ao fundo, bem ao fundo uma sombra. O vento soprava quente, mas e bem ao fundo, na sombra, depois de passar pelo riacho, ficava fresco. A sombra era de uma enorme castanheira, e o riacho era turvo, mas há quem o dizia límpido. O importante é que havia peixe na água e pescador na beira do riacho. Uma lata de isca, um pouco de algo para beber, um cesto vazio, um sossego de ver, debaixo da grande sombra, sua criança brincar, enquanto se ocupava em retirar da água alguns peixes. Longe bem longe, a silhueta da cidade, todos os humanos estavam lá, sufocando-se, cada um peça fundamental do fluxo mortal do ciclo da vida, urbana.

O farelo de pão chama os pássaros e estes depois de comer voam alto. Rouxinol, trinca-ferro, corvo, sabiá, pardal. Nenhum ruído de tiro ou outro canto que não o assobio do pescador e as conversas dos pássaros e o ser infante podia se ouvir naquele local.

Cada peixe que depositava no cesto era um alívio em sua memória, ficava mais leve na medida em que enchia o cesto e esvaziava o riacho, tinha mais espaço para poder nadar, caso quisesse mais tarde.

Cada peixe tinha uma característica diferente. Seja a textura, seja a cor, seja a estrutura. Uns não tinham a cabeça, outros eram preto e lilás, havia os que eram em forma de flores, orquídeas, tulipas, cravo; alguns eram lisos, como sabonete molhado, outros caracachentos, que podia até ferir de tão ásperos. Tinha peixe permeável, que era possível enfiar os dedos por meio de um simples toque. O cesto parecia que nunca encheria, ou que era capaz de receber a quantidade exata de peixes que ele conseguia pescar.

Sem peneira para carregar água, sem limão para atirar na água, o prazer de nada ter que fazer, nem ter um livro pra ler e nem querer. Ali os três tinham aquilo que buscavam dentro dos trilhos urbanos. Ali, extraviados, dentro de uma bola de vidro, tranquilos, até que alguém balançasse a bola. O que consola é que o vidro não quebra e quase tudo permanece no mesmo lugar. Os peixes voltam para o rio e as memórias para a cabeça do pescador, que não desiste de pescar.

perto do fim?

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Rudson Vieira

..rumos seguem, mesmo em silêncio. Dobrei o horizonte sob os joelhos e ponderei; rumos seguem, mesmo introspectivo..
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